Sufocada pela facção carioca Comando Vermelho (CV) em Fortaleza, em ataques intensificados em setembro deste ano, a organização criminosa cearense Guardiões do Estado (GDE) se aliou ao Terceiro Comando Puro (TCP), de origem carioca, e conta com fontes de renda diversas do tráfico de drogas para sobreviver.
Uma fonte da Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS), que preferiu não se identificar, afirmou à reportagem que "a GDE não acabou. Está acontecendo uma espécie de associação". "Imagina uma organização que passa por uma crise financeira e precisa de aporte de outra (organização), para seguir no mercado", comparou.
A facção Guardiões do Estado perdeu territórios importantes para o tráfico de drogas, na disputa com o Comando Vermelho em Fortaleza, como o bairro Vicente Pinzón e a região do Lagamar. E precisou do apoio de criminosos de outro estado, para não ser extinta. "Esse aporte vem em forma de apoio com armas e estímulo ao tráfico de drogas. É o que vem sendo oferecido pelo TCP", aponta.
Segundo a fonte, o Terceiro Comando Puro "quer se expandir frente ao seu maior rival, o Comando Vermelho". Os dois grupos travam uma disputa antiga no Rio de Janeiro. "O TCP se vale da capilaridade que a GDE tem no Ceará e promete o que a GDE precisa neste momento: sobrevivência", completa.
Dezenas de membros da GDE "rasgaram a camisa" da facção, em Fortaleza, no último mês. Alguns aderiram ao Comando Vermelho, na "guerra" entre as duas facções, com medo de terem o território tomado e de serem mortos. Outros ingressaram no TCP, como alternativa de sobrevivência ao ataque do CV.
A fonte afirma que esse convite para mudar de facção "nem sempre é tão amistoso. Em alguns locais, acontece uma adesão mesmo, mas em outros tem uma espécie de coerção, principalmente, com as áreas cujas lideranças estão presas e sendo 'convidadas' a mudar de lado nas alas carcerárias".
Porém, nas próximas semanas, irá chegar um momento que "requer mais atenção das autoridades: a manutenção da territorialidade". "É a hora em que os 'acordos' são postos à prova", alerta o investigador.
Fontes de renda da facção
Antônio Euden da Silva Lucas foi assassinado a tiros, ao sair de uma clínica médica no bairro Sapiranga, em Fortaleza, no dia 27 de agosto deste ano. Três meses antes do crime, sob a identificação sigilosa de 'Testemunha X', ele revelou à Polícia Civil do Ceará (PCCE) detalhes do funcionamento da facção Guardiões do Estado.
seria o rendimento mensal da GDE no Ceará, segundo Antônio Euden, que afirmou ter integrado o Conselho Final da organização criminosa. Ele havia "rasgado a camisa" da facção e tinha sido decretado de morte, quando procurou o 2º Distrito Policial (2º DP).
Conforme o depoimento, a exploração do jogo do bicho virou a principal fonte de renda da facção cearense - acima do tráfico de drogas. O faturamento mensal variava de R$ 150 mil a R$ 200 mil, mas podia chegar até a R$ 300 mil.
"Os donos de bancas que operam em áreas controladas pela facção realizam pagamentos mensais para permissão de funcionamento. Os valores variam conforme o número de bancas, podendo alcançar até R$ 300 mil mensais por banca. Controle rigoroso e hoje é uma das principais fontes de receita da organização", descreveu a Polícia Civil, em um relatório.
Confira as outras fontes de renda da facção:
- Geral da Caixinha: "Responsável por conduzir e cobrar os membros que estão com atraso superior a três meses no pagamento da contribuição mensal obrigatória ('caixinha'), cujo valor inicial base é de R$ 50, podendo variar de acordo com a localização. O total em aberto pode chegar a até R$ 40 mil por mês. Hoje a GDE conta com mais de 2.000 contribuintes da 'caixinha'";
- Geral da Biqueira: "Responsável por arrecadar mensalmente os valores dos 'frentes' dos bairros (responsáveis pela venda de entorpecentes). Cada 'frente' paga de R$ 250 (áreas pequenas) a R$ 500 (áreas grandes), totalizando uma média mensal entre R$ 70 mil e R$ 80 mil. A supervisão fica a cargo do frente de área";
- Punição: "Aplica multas a membros por condutas consideradas indisciplinadas, com valores entre R$ 300 e R$ 1.500, com prazo para quitação. Em casos graves, incluem-se exigências como entrega de veículos roubados e transporte para ações violentas ('guerras') e solicitação por arma de fogo para quitar dívida. Em casos extremos é decretada a punição severa, a morte";
- Caixinha: "Pagamento obrigatório de R$ 50 por membro. A arrecadação total mensal pode variar entre R$ 120 mil e R$ 125 mil";
- Cota: "A cúpula disponibiliza entorpecentes para os 'frentes de área' mediante crédito (fiado), com cobrança semanal e valor acrescido. Os pagamentos são remetidos à cúpula nas segundas ou terças-feiras, sob controle do chamado CSL Final(Conselho Final)";
- Rifa: a organização criminosa também realiza sorteios internos, com prêmios de R$ 5 mil ou produtos desse valor e bilhetes de R$ 100 (com numeração de 0 ao 99). O faturamento podia chegar a R$ 10 mil.
A hierarquia da facção
O depoimento de Antônio Euden da Silva Lucas também revelou à Polícia como se estabelecia a hierarquia da facção Guardiões do Estado e quais as principais lideranças.
Segundo a testemunha, Yago Stefferson Alves dos Santos, o 'Yago Gordão' ou 'Supremo' virou o líder máximo da GDE - que antes era gerida por um Conselho Final, formado por ao menos seis membros, que tinham anéis templários como distinção.
Antônio Euden afirmou que "hoje, o Yago concentra todas as funções da GDE, tais como morte, droga e o recebimento de dinheiro" e que Yago fala que "os membros não são pela facção, mas por ele". Para isso, o 'Supremo' teria colocado pessoas de sua confiança nas funções mais elevadas e na liderança das principais regiões dominadas pela organização criminosa.
'Yago Gordão' é considerado foragido da justiça. Ele tem um mandado de prisão em aberto por sentença condenatória, com uma pena total de 22 anos e 3 meses de reclusão para ser cumprida, pelos crimes de integrar organização criminosa, tráfico de drogas, associação para o tráfico e posse irregular de arma de fogo de uso permitido.
Em maio deste ano, Euden já previa uma união entre GDE e TCP. Segundo o depoimento do delator, "os caras da GDE na Barra do Ceará vai rasgar a camisa e tudo vai virar TCP, que está vindo fuzil e armas para tal empreitada (sic)".
A aliança não seria tão bem vista pelo 'Supremo', naquela época. "O Yago está reestruturando a GDE para evitar perder área para o TCP. O Yago teme perder a GDE para o TCP", antecipou a testemunha.
O delator também detalhou a hierarquia do Tribunal do Crime e dos Quadros Secundários e de Suporte da facção Guardiões do Estado, que definem medidas de disciplina, conduta e organização do grupo criminoso.
Confira os principais setores:
- Esclarecimento: "destinado à mediação de conflitos de menor gravidade, tais quais atrasos de pagamentos, discussões interpessoais, etc. Atua como suporte ao GDL (Geral da Liberdade), em caso de sobrecarga deste";
- Geral da Liberdade (GDL): "responsável por conduzir situações de média gravidade e garantir o controle da disciplina nos bairros. Atua em regime de plantão contínuo";
- CSL Final (Conselho Final): "Instância superior, abaixo somente da cúpula. Decide sobre execuções e ações críticas, além de controlar 80% (oitenta por cento) dos recursos da facção, tais quais armas, drogas, dinheiro e logística";
- CSL Geral (2° CSL): "responsável pela análise de situações graves, com necessidade de autorização do CSL Final (Conselho Final) para execução de medidas extremas. Também atua como gestor do sistema financeiro da Organização";
- Legionário (3° CSL): "composto por quatro membros responsáveis pelo setor financeiro e oito com atribuições diversas. Também atua na triagem de casos graves para o CSL Geral (Conselho Geral), como por exemplo, assassinatos entre os membros";
- Divulgação: "responsável pela veiculação de comunicados internos nos grupos da facção, como salves, decretos, informações de ampliação de área de atuação, etc";
- Fiscalização: "avalia produtos e preços antes da divulgação em grupos internos, garantindo a padronização das postagens. Produção de bens roubados ou furtados (armas, veículos, etc.)";
- CAB (Cadastro, Análise e Batismo): "responsável pelo registro e avaliação de novos membros, com análise prévia de elegibilidade. Envio de fotos e informações, além de 3 referências internas (chamados padrinhos)";
- STF (Setor de Fiscalização de Território): "fiscaliza o cumprimento das obrigações dos membros em cada área, cobra a 'caixinha' e monitora as situações ocorridas no território";
- STG (Supervisão dos STF): "coordena os STFs, atualiza as listas de pagamento da caixinha e supervisiona os mapas por bairro, bem como sua ampliação".
Lavagem de dinheiro da facção
A investigação da Polícia Civil contra a organização criminosa delatada por Antônio Euden da Silva Lucas resultou na denúncia do Ministério Público do Ceará (MPCE) contra 24 acusados, no último dia 5 de setembro.
O objetivo da Polícia foi "rastrear" o caminho do dinheiro da GDE. Os investigadores se depararam com mais um caso em que a organização criminosa se utiliza de "laranjas" para ocultar o recebimento de dinheiro.
teria sido recebido pelo acusado Kaique de Oliveira Silva, entre outubro de 2024 e abril de 2025 (um intervalo de cerca de 6 meses). O valor quase inteiro teria sido enviado por ele para outras contas, segundo a denúncia do MPCE.
Já o investigado Erick André de Oliveira, apontado como uma liderança da facção no bairro Aracapé, na Capital, teria movimentado R$ 561 mil, somente entre o dia 1º de março e 26 de abril de 2025.
23 investigados foram denunciados pelo MPCE pelos crimes de integrar organização criminosa e lavagem de dinheiro. Já Pedro Lucas de Sá Morais foi acusado apenas por lavagem de dinheiro.
Confira a lista de acusados:
- Alan Borges Figueiredo;
- Ana Carla Souza da Silva;
- Anderson dos Santos Pimentel;
- Edilson Guilherme Arruda de Oliveira;
- Elane Soares de Sousa;
- Erick André de Oliveira;
- Everton Muniz de Carvalho;
- Francisco Gervaldo Oliveira Celestino;
- Francisco Saraiva Neto;
- Harisson Sampaio do Nascimento Silva;
- Jefferson Henrique do Nascimento Silva;
- José Honório Diógenes;
- Kaique de Oliveira Silva;
- Kaylane Pinheiro Sales;
- Leomax Xavier da Costa;
- Leonardo Oliveira da Silva;
- Micael da Conceição Brito;
- Miquelvis Breno Lopes da Silva;
- Paulo Henrique Martins dos Santos;
- Pedro Barbosa da Silva Neto;
- Pedro Lucas de Sá Morais;
- Sarah Ingrid Sampaio do Nascimento;
- Stefany Sampaio do Nascimento;
- Suyanne Alves Rodrigues.
O MPCE pediu pela prisão preventiva de apenas oito acusados: Erick de Oliveira, Everton de Carvalho, Harrison do Nascimento, Leomax da Costa, Micael Brito, Miquelvis da Silva, Paulo Henrique dos Santos e Sarah Ingrid do Nascimento. O pedido foi acatado pela Vara de Delitos de Organizações Criminosas, da Justiça Estadual.
No último dia 29 de setembro, a Vara concedeu a prisão domiciliar a Sarah Ingrid, em razão dela ser mãe de uma criança menor de idade. A acusada deve ser monitorada por tornozeleira eletrônica, está proibida de usar aparelho celular ou fixo e pode sair de casa apenas mediante autorização judicial ou em caso de urgência ou emergência médica.
Quanto aos outros 16 investigados, a Justiça decidiu aplicar medidas cautelares, como tornozeleira eletrônica, recolhimento domiciliar noturno, proibição de se ausentar da cidade por mais de oito dias e probição de manter contato com acusados de tráfico de droga ou pessoas que portem armas de fogo.
As defesas dos investigados não foram localizadas para comentar a investigação e a denúncia do Ministério Público. O espaço segue aberto para futuras manifestações.