Como alguém de Cine Holliúdy recebe a notícia da morte do ator Djacir Oliveira

Fechei os olhos. Estou dentro do carro do meu pai, uma máquina que já não existe mais, e que, apesar de desmanchando em pedaços, viaja no tempo e me colhe de emoção

Escrito por Haroldo Guimarães producaodiario@svm.com.br
10 de Setembro de 2021 - 16:47
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Estamos os três parados no sinal da Casa do Barão de Camocim, e sinto nos dedos a textura da farda lavada de todo dia. Na frente, os cangotes de meu irmão e do meu genitor. Ao meu lado, mochila com todos os livros possíveis e estojo. O cabelo que eu ainda tinha está molhado e penteado à força para o lado, e se avoluma segundo a segundo, até seu máximo, no momento de passar na portaria e eu voltar a ser um envergonhado neguinho do cabelo crespo. “Neguinho não, moreno limite” – costumava sair em minha “defesa” minha amada mãe.

Eram os longínquos e “pacíficos” anos 80.

Nesses poucos minutos que separam a minha casa do colégio a rádio comanda a trilha. Entre histórias engraçadas, desfechos hilariantes, causos da pequena capital nordestina, paródias das músicas do momento, vozes e gritos, esse menino que sou eu apenas ri demais, sem saber que aprende.

A Rádio AM transforma o carro do papai num lugar que se revela – mas não se assume - gaiato. Onde não podia, mas tinha vaia, gíria e sotaque que gente de paletó não usa, nem se vê na novela ou no filme. Cabreiro e chorando de rir, eu espero o momento de todos gargalharem: quem sabe, com papai distraído, e na ausência da mamãe, eu possa usar minha gaitada mais canalha.

Eu lembro de uma paródia do He Man, que falava, em seu pré-refrão, “unidos venceremos o negão escambau”. Inocente e, pelo menos neste caso, nada racista, a versão foi proibida pela mamãe, do mesmo jeito que me proibia de andar sem camisa, que cuidava para que eu fosse o mais bem vestido, que falasse o melhor português, que tirasse boas notas, que mostrasse as mãos, que não aceitasse nada de ninguém.

Esse Haroldinho gaiato se escondeu no CDF, não sei como. Em 1993, com 16 anos, ao lado de um amigo de colégio (Edmilson Filho), inscreveu-se escondido num Festival de Humor. Levou repreensão por ter vencido. Virou advogado e historiador.

Já estou atrasado pra aula. A Brasília me deixa na Major Facundo, e, ao meu irmão, na Barão do Rio Branco. A viagem literalmente acaba, e não escuto mais a rádio tocando “As Garras da Patrulha”, um programa que primeiro identificou e profissionalizou o bem explorado filão do humor e da fala cearense, como se fossem uma coisa só.

É 2021. O último remanescente de todos aqueles rádio-atores do grupo original morre, o genial Djacir Oliveira, e o neguinho do carro chora em seu escritório. Como a arte de Djacir venceu, o menino tornou-se, também, ator-comediante.

Ele se vê na Sessão da Tarde1, fazendo as mesmas coisas que ouviu nos anos 80. Instala-se em seu coração uma gratidão para a qual não há palavras. Ele sente um cheiro de Alfazemas, do seu falecido pai, que só queria que ele fosse feliz e não sofresse o que ele sofreu. E lembra a voz de Djacir.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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