Quem tem medo de Paulo Freire?

Matéria por  Durval Muniz
05 de Outubro de 2021 - 07:00
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Esse ano comemoramos o centenário de um dos intelectuais mais brilhantes do país, um professor e educador consagrado no mundo inteiro, um dos brasileiros mais universais: Paulo Reglus Neves Freire. Seu livro Pedagogia do Oprimido é a terceira obra mais citada no mundo, no campo das ciências humanas e sociais. Nascido na cidade do Recife, filho de um capitão da polícia militar do estado, passou sérias dificuldades e conheceu a fome quando da grave crise econômica do ano de 1929.

Com a ajuda econômica de dois irmãos mais velhos, que não terminaram os estudos para trabalhar, e de uma irmã professora do ensino fundamental, Paulo Freire forma-se em Direito, na Universidade do Recife. Um pensador cristão, partidário das mudanças educacionais propugnadas pela chamada Escola Nova, leitor do marxismo, mas também do existencialismo e do pragmatismo, nunca exerceu a profissão jurídica, preferindo dar aulas de língua portuguesa numa escola de segundo grau.

Em 1959 torna-se professor da Universidade Federal do Recife, com a tese Educação e atualidade brasileira, que seria seu primeiro livro publicado. Em 1961 assume o Departamento de Extensão Cultural da Universidade do Recife, realizando, nesse mesmo ano, as primeiras experiências no campo da educação popular, junto com sua equipe, o que levaria a elaboração de seu método de alfabetização de adultos, testado com sucesso numa experiência piloto, no ano de 1963, no município de Angicos, no estado do Rio Grande do Norte, onde alfabetizou em quarenta e cinco dias trezentos cortadores de cana-de-açúcar.

Esse seu feito talvez sirva para começarmos a entender o porquê de, nesses tristes tempos em que vive nosso país, Paulo Freire seja vítima de uma campanha sistemática de desqualificação e até de demonização.

Quem nunca abriu um de seus livros, lidos e debatidos nas principais universidades do mundo, como uma referência obrigatória no campo da filosofia da educação, se arvora a reduzir o seu pensamento a uma manifestação do comunismo, quando não uma fórmula para destruir as famílias, justo ele que construiu uma linda família, ao longo da vida.

As classes dominantes brasileiras, que patrocinaram o golpe civil-militar de 1964, que o prendeu e o obrigou a ir para o exílio, temem Paulo Freire por ele advogar que a educação deve ser um ato de formação cidadã, de formação da consciência por parte dos explorados e oprimidos. Aqueles que são opressores e exploradores temem Paulo Freire e, mais uma vez, estão por trás do golpe de 2016, que desembocou na eleição de um governo neofacista e neoliberal, cujos partidários tentaram até retirar dele o título de Patrono da Educação Brasileira, conferido em 2012.



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