A cena e o papel
Estava no carro com meu filho, seguindo pela avenida Carapinima, quando vi um homem magro banhando-se em plena calçada, a um quarteirão da Avenida Duque de Caxias. Ele usava bermuda e ensaboava o tronco enquanto a mulher derramava aos poucos um fio de água do pequeno barril de plástico. Por ali passavam estudantes, comerciários, funcionários públicos e advogados, dentre outros transeuntes. A cidade amanhecia, com o mau cheiro vindo das bocas de lobo.
Ao observar a cena, meu filho falou de outro homem que vinha habitando a pracinha em frente ao 23° Batalhão do Exército Brasileiro, na Avenida 13 de Maio. Tentei imaginar a quantidade de pessoas que atualmente estão em situação de rua, em Fortaleza. Há famílias inteiras com animais de estimação e objetos pessoais, zanzando por aí, improvisando alguma barraca sob um pedaço de sombra. Ao que parece, trata-se de um fenômeno global, embora silenciado.
A famosa Praça do Ferreira passa por mais uma reforma. Deve ser reinaugurada antes em dezembro, com orquestra e coral de crianças, na festa de Natal. Talvez o Cineteatro São Luiz exiba os tradicionais filmes Os dez mandamentos e Ben-Hur. Enquanto alguns assistem aos filmes, outros tantos perambulam pelos arredores, em busca de um lugarzinho mais ou menos plano, mais ou menos quieto, onde se possa deitar e fechar os olhos por um par de horas. Diante disso, o que dizer dos milhares de imóveis fechados na cidade?
Existem apenas alguns poucos projetos independentes e casas de apoio dedicadas à população em situação de rua. Essas iniciativas, que merecem muito respeito, ajudam a amenizar a fome e possibilitam cuidados com a higiene pessoal. Com exceção do período eleitoral, poucos são os políticos que de fato mencionam e discutem o grave problema da falta de moradia.
Se a desigualdade social continua gritante, a realidade das pessoas em situação de rua seguirá a mesma. Reina o assistencialismo que destrói as políticas públicas. E como tem policiais em Fortaleza, não obstante a insegurança da população. Do que vale a existência de uma Política Nacional para a População em Situação de Rua, instituída pelo Decreto nº 7053, se seus princípios, diretrizes e objetivos permanecem no papel?
Saraiva Júnior é escritor