Dedicação e pioneirismo: Kyra Gracie celebra legado familiar de 100 anos de jiu-jitsu no Brasil

Pentacampeã mundial está em Fortaleza para aulão de defesa pessoal para mulheres

Escrito por Crisneive Silveira crisneive.silveira@svm.com.br
24 de Maio de 2025 - 12:00
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Legenda: Kyra Gracie, pentacampeã mundial de jiu-jitsu e empresária.
Foto: Thiago Gadelha/SVM

“Oss!” A saudação é sinal de respeito, de disciplina. Quem pratica artes marciais entende o valor dessa palavra e leva os ensinamentos aprendidos no tatame para a vida. Desde pequena Kyra Gracie vive essa rotina. Pentacampeã mundial de jiu-jitsu, ela foi a primeira mulher da família a chegar à faixa preta e a competir. O ano de 2025 marca o centenário da primeira academia fundada pelo clã no Brasil. Atualmente, ela tem se dedicado a difundir a luta e a incentivar mulheres a praticarem o esporte com foco no empoderamento e na defesa pessoal. Empresária, palestrante, mãe e esposa… A carioca é símbolo de um legado perpetuado.

Faixa preta 4º grau de jiu-jitsu e faixa preta de judô, Kyra cresceu numa família com forte ligação com o esporte. Por isso, vê a tradição das lutas se replicar por gerações entre os Gracie. Ela é sobrinha dos lutadores Renzo Gracie, Ralph Gracie e Ryan Gracie e bisneta de Robson, um dos maiores defensores da modalidade no mundo.

“Ele já falava de anti bullying, de autoconfiança, de autodefesa. Então, eles desenvolveram tudo isso ao longo de muitos e muitos anos. Estamos na quinta geração da família, todas trabalhando com jiu-jitsu. Dá muito orgulho de ver o quanto o jiu-jitsu, através da família Gracie, ganhou o mundo. Levou o nome do Brasil para o mundo inteiro. Não só isso. É a transformação que ele causa nas pessoas. É maravilhoso plantar essa semente”, destacou. 

Legado familiar

O jiu-jitsu chegou ao Brasil no início do século XX, trazido por imigrantes japoneses, entre eles Mitsuyo Maeda, um mestre da arte marcial conhecida como jiu-jitsu tradicional e do judô. Em 1914, Maeda conheceu Gastão Gracie, que o ajudou em sua adaptação ao país. 

Maeda começou a ensinar a arte marcial ao filho de Gastão, Carlos Gracie. Ele transmitiu os conhecimentos aos irmãos Oswaldo, Gastão, George e Hélio. Este último adaptou as técnicas ao seu próprio biotipo e criou um estilo mais eficiente da luta. Assim nasceu o que ficou conhecido como jiu-jitsu brasileiro ou Brazilian Jiu-Jitsu (BJJ).

Em 1925, a família Gracie abriu a primeira academia da modalidade no país e foi fundamental para a disseminação do esporte. O estilo de luta brasileiro se espalhou pelo pelo mundo, tornando-se uma das artes marciais mais populares e influentes na atualidade. Cem anos depois, no Rio de Janeiro, em 25 de outubro, diversas gerações vão se reunir para celebrar a data. 

“O evento se chama Gracie 100. Para dar aula, para que os praticantes possam ter contato direto com os praticantes da família. Vamos ter mais de 50 membros faixas pretas da família”, ressaltou. 


Mãe inspiradora

Assim, não tinha como Kyra ser diferente: ainda menina, aos 11 anos, participou do primeiro campeonato no Rio de Janeiro. Aos 16 anos, ainda como faixa azul, conquistou o primeiro título Pan Americano da modalidade. O lugar mais alto no pódio se repetiu por quatro anos (2001, 2003, 2005 e 2007). A faixa preta veio em 2006, das mãos do tio Carlos Gracie Júnior. O destemor em busca do sonho de ser atleta abriu caminhos para outras mulheres. 

A recompensa veio: foram cinco mundiais, cinco Pan-Americanos, seis Campeonatos Brasileiros e outros seis estaduais. Ela fala do que essa história tão longa representa, apesar de ter apenas 39 anos. A inspiração na mãe Flávia Gracie foi determinante: 

“Eu me vi, na década de 90, num ambiente ainda muito machista, inspirada pela minha mãe. É a importância da referência. Comecei, gostava de competir, fui competindo e quando vi, aquela brincadeira de criança virou minha profissão. Foi maravilhoso porque eu consegui quebrar paradigmas. Nesse cenário, virei a primeira faixa preta da família. Em diversos momentos pensei em desistir. Hoje olho para trás e penso que bom que eu segui. Competi muitos anos, e a gente reunia as mulheres para poder buscar algo diferente nesse meio”, relembrou.

“Olhando para trás, que bom que sou uma mulher e por isso consegui chegar onde eu queria. Eu quebro exatamente essa barreira que as pessoas ainda têm em relação à luta ainda. A vida do atleta é essa. Você não consegue nada da noite para o dia. Você treina a sua vida inteira para aquele momento”, completou.

Kyra Gracie está na capital cearense para um aulão de defesa pessoal para mulheres.
Legenda: Kyra Gracie está na capital cearense para um aulão de defesa pessoal para mulheres.
Foto: Thiago Gadelha/SVM


Valores do esporte

Para a lutadora, que já deixou os tatames nas competições, a família segue como grande fortaleza. Casada com o ator Malvino Salvador desde 2013, eles têm três filhos: Ayra (10), Kyara (8) e Rayan (3).  Ela também inaugurou a própria academia, a “Kyra Core”, no Rio de Janeiro, dá aulas e também é palestrante. Além de se dedicar a manter a tradição em propagar e fortalecer o jiu-jitsu, também usa as redes sociais para ensinar defesa pessoal para mulheres e crianças. 

"O esporte, em geral, traz disciplina, resiliência. Ninguém consegue nada no esporte, seja no alto rendimento ou por hobby, sem comprometimento. É um equalizador para a nossa vida. É uma escola. O que a gente vive no esporte vamos viver no dia-a-dia. É a adrenalina, é um dia que você não está bem, mas tem que ir... Se virar para melhorar. São essas lições que são fundamentais. Por isso que as crianças e os adolescentes precisam canalizar essa energia para o esporte. Tenho alunos que começaram a fazer com 50, 60 anos. E aí, isso é muito legal. Mas a maioria... "Ah, não, já passei da idade". Quanto antes conseguir incentivar os filhos, melhor, as crianças, mas nunca é tarde para começar também”, afirmou Kyra.

A trajetória de Kyra Gracie é um exemplo poderoso de dedicação e pioneirismo. Ela quebrou barreiras e abriu caminhos para futuras gerações de mulheres no esporte. A história dela reforça que com disciplina, paixão e coragem, é possível transformar desafios em conquistas e deixar um legado duradouro.

 

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