Entenda por que rios do CE secam após as chuvas, mas não trazem impacto negativo no abastecimento

Brasil passa pela maior seca em extensão e intensidade em 70 anos, conforme o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais, mas Ceará atravessa momento “tranquilo”

Escrito por Nícolas Paulino nicolas.paulino@svm.com.br
17 de Setembro de 2024 - 09:00
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Legenda: Trecho do Rio Jaguaribe, um dos maiores intermitentes do Ceará
Foto: Honório Barbosa
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Os meses de fevereiro a maio no Ceará representam bom aporte nos açudes do Estado, a partir do maior volume de chuvas que caracteriza o período. A água também aumenta o nível dos rios que cortam o território cearense - mas esse patamar voltou a decair com o fim da quadra e início da temporada mais seca.

Para essa constatação, o Diário do Nordeste consultou o sistema Hidro-Telemetria, uma parceria da Agência Nacional de Águas e Saneamento Básico (ANA) com o Serviço Geológico do Brasil (SGB), que possui 27 estações de monitoramento no Estado. 

Por meio dele, é possível acompanhar alguns dos principais rios do Ceará quase em tempo real. Equipamentos de coleta de dados armazenam leituras das cotas dos rios a cada 15 minutos, e transmitem esses dados via satélite a cada hora.

Conforme o monitoramento, nas estações do Rio Jaguaribe e seus afluentes, as cotas se elevaram entre março e abril. Já nas estações do Rio Acaraú e afluentes, as maiores chuvas com consequente elevação dos rios ocorreram entre fevereiro e abril.

Trechos de rios cearenses monitorados subiram durante a quadra chuvosa, mas voltaram a baixar com a redução de precipitações
Legenda: Trechos de rios cearenses monitorados subiram durante a quadra chuvosa, mas voltaram a baixar com a redução de precipitações
Foto: Hidro-Telemetria/ANA/SGB

Francisco de Assis Souza Filho, Cientista Chefe de Recursos Hídricos do Ceará, explica que o fenômeno não é anormal, como é o caso de outros grandes rios brasileiros que vêm registrando recorde negativo de acúmulo. A nível nacional, o Brasil passa pela maior seca em extensão e intensidade em 70 anos, conforme o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden)

“Os rios no Estado do Ceará apresentam intensa sazonalidade. Durante o primeiro semestre, quando ocorrem as precipitações, alguns deles têm vazões muito elevadas e podem ocasionar cheias. Por isso, reservatórios como o Castanhão foram construídos, com a função de controle de cheias”, inicia.

Volume do Rio Acaraú, na região Norte, cresce bastante durante a quadra chuvosa
Legenda: Volume do Rio Acaraú, na região Norte, cresce bastante durante a quadra chuvosa
Foto: Nilton Alves

Por outro lado, no segundo semestre, boa parte dos grandes rios - como Acaraú, Jaguaribe e Curu - seca. Algumas exceções ficam nas serras do Maciço de Baturité, mas são “muito pontuais”. No geral, os rios do Estado são categorizados como intermitentes, dentro de três tipos de classificação:

  • Efêmeros: só escoam enquanto está chovendo
  • Intermitentes: escoam durante o período chuvoso, mesmo quando há um conjunto de dias sem chuva
  • Perenes: escoam durante todo o ano, como o São Francisco

Segundo Assis, o que diferencia os intermitentes dos perenes é o tamanho do aquífero ou do reservatório subterrâneo. “Quando há grande armazenamento no aquífero sedimentar, tem escoamento. Quando ele é menor, o rio seca rapidamente e se torna intermitente”, ilustra.

Para que os intermitentes escoem o ano todo, é necessário realizar alguma intervenção humana - ou seja, a perenização. Por meio dela, a vantagem do acúmulo de água em um período alimenta o outro mais seco.

“A construção de reservatórios transporta a água do primeiro semestre do ano, mais úmido, para o período seco. Ao fazer esse transporte, ela possibilita a liberação de água durante o período seco e garante o abastecimento das cidades, de áreas irrigadas e indústrias”, garante sobre o modelo utilizado até hoje no Estado.

Estratégias bem-sucedidas 

Flávio Nascimento, professor da Pós-Graduação em Geografia da Universidade Federal do Ceará (UFC), concorda que a açudagem se tornou o principal método para o Estado se adaptar e lidar com a seca ao longo da história. Ele lembra que mais de 90% do território cearense está no semiárido, o que dificulta a presença de grandes rios.

“Os grandes açudes são o principal meio de estoque de água e os responsáveis pela perenização de leitos ou vales. Uma vez acumulada, a água é liberada aos poucos para que eles não sequem completamente. E, como nesse ano tivemos chuvas acima da média, temos um aporte consideravelmente razoável”, entende.

Castanhão foi um dos reservatórios construídos para controlar as cheias no Vale do Jaguaribe
Legenda: Castanhão foi um dos reservatórios construídos para controlar as cheias no Vale do Jaguaribe
Foto: Hermann Rabelo

51,6%
é o percentual acumulado atualmente nos 157 reservatórios monitorados pela Cogerh, de acordo com o Portal Hidrológico do Ceará.

Para o docente, a situação do Ceará não se compara em nível geral com o restante do Brasil, especialmente as regiões Norte e Centro-Oeste. Ele observa que elas não focam em grandes reservatórios para o acúmulo de água, logo dependem muito das chuvas e da renovação das águas dos rios.

No estado do Ceará, as barragens hoje são mais importantes do que a análise, investigação e monitoramento do volume dos rios. Você pode ter os açudes muito cheios e os rios secos, sem nada, porque as águas estão contidas e controladas. Isso depende de situações estratégicas, de planos de secas, mas isso tudo é delimitado, bem estudado e bem analisado.
Flávio Nascimento
Geógrafo e professor da UFC

Flávio avalia que o Ceará é um dos Estados que melhor conseguiu avançar na gestão de bacias hidrográficas e no gerenciamento de recursos hídricos. “Isso fez com que, mesmo que nós tenhamos experimentado recentemente quase uma década de seca, o Estado, de um modo geral, não passou por racionamento”, explicita.

Preparo da rede

No Ceará, a Companhia de Gestão dos Recursos Hídricos (Cogerh) gerencia rios, canais e açudes. Quando o corpo hídrico é um rio, são monitorados a cota do nível de água, a profundidade da lâmina d’água, a vazão conduzida e o comprimento dos trechos perenizados (que receberam obras para não secarem periodicamente). 

No caso dos açudes, são monitorados a cota do nível de água, a área inundada e o volume de água armazenado. Independente do tipo, o coordenador de Infraestrutura Hídrica da Secretaria dos Recursos Hídricos do Ceará (SRH), Tiago Coelho, ressalta que “tudo é importante” quando se fala de água.

Hoje, a capacidade acima de 50% do volume dos açudes após o bom período de chuvas deste ano “dá uma tranquilidade para o Estado”, afirma ele. “Esse ano a gente está tranquilo”. 

No entanto, o coordenador elenca obras estruturantes para que a disponibilidade hídrica continue sem problemas num futuro próximo. São elas:

  • Cinturão das Águas do Ceará (CAC): dois lotes já estão prontos e há mais dois em andamento, que, com 45% já concluídos, devem ficar prontos até o final de 2025;
  • Malha D’água: desenvolvida na região do Banabuiú, que em breve deve chegar a 50% da execução;
  • Duplicação do Eixão das Águas: foi iniciado o trâmite de contratação para a obra, que deve trazer mais água do Castanhão para a Região Metropolitana de Fortaleza. 

 

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