Ceará

Por que mais de 270 mulheres foram vítimas de //TESTE MATÉRIA ESPECIAL

Bruna Damasceno producaodiario@svm.com.br
17/12/2025 - 10:34 (Atualizado em 19/05/2026 - 16:52)

O Ceará ocupa a terceira posição entre os estados mais violentos do Brasil, conforme dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública de 2025. Esse cenário de violência se expressa de forma extrema nos casos de feminicídio, que já vitimaram 44 mulheres no estado até o início de dezembro deste ano, segundo a Superintendência de Pesquisa e Estratégia de Segurança Pública (Supesp). Nos últimos sete anos, 278 mulheres foram assassinadas em crimes motivados por razão de gênero.

Somente em 2025

Somente em 2025, mulheres foram esfaqueadas, carbonizadas e decapitadas em Fortaleza e em municípios do interior do Ceará. Os crimes foram cometidos por namorados, maridos, filhos e também por desconhecidos. As vítimas tinham idades variadas e foram mortas após encerrarem relacionamentos, recusarem relações sexuais ou resistirem a assédios e importunações.

Os números registrados neste ano são os mais elevados desde 2018, quando a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS) passou a contabilizar oficialmente os casos de feminicídio. Em nota, a pasta informou que, entre janeiro e novembro de 2025, foram realizadas 68 prisões relacionadas a esse tipo de crime, incluindo flagrantes e cumprimento de mandados judiciais. No mesmo período de 2024, haviam sido registradas 48 prisões, o que representa um aumento de 41,7%.

Entre os casos mais emblemáticos estão o da enfermeira cearense Clarissa Costa, assassinada com 34 facadas dentro da própria casa; o da estudante Catarina Kasten, estuprada e morta durante uma trilha em Florianópolis; e o da jovem Lorena Ferreira, de 18 anos, decapitada no município de Trairi, no Ceará.

Especialistas apontam que fatores sociais, raciais, culturais, emocionais e jurídicos ajudam a explicar o crescimento dos feminicídios. Esse tipo de crime é caracterizado por assassinatos motivados por gênero, geralmente associados à violência doméstica, ao menosprezo ou à discriminação contra mulheres. A tipificação do feminicídio só ocorreu em 2015, o que permitiu diferenciá-lo do homicídio comum.

Por que as mulheres são mortas de forma tão cruel no Ceará?

A violência contra o corpo feminino se manifesta por meio de múltiplas facadas, violência sexual usada como forma de tortura e até a queima de corpos. Segundo especialistas ouvidas pelo Diário do Nordeste, essas práticas são reflexo de uma herança cultural misógina, marcada pelo desprezo e preconceito contra mulheres e meninas.

“Para esses agressores, não basta tirar a vida. É preciso demonstrar crueldade, como uma forma de punição pelo fato de as mulheres se negarem ou se posicionarem”, explica a socióloga e pesquisadora da Rede de Observatórios da Segurança, Fernanda Naiara.

O uso de facas e outros objetos perfurocortantes é recorrente nos assassinatos de mulheres. Em 2025, mais da metade das vítimas de feminicídio no Ceará foi morta com armas brancas. Esse padrão está associado à lógica da crueldade e da premeditação, já que muitas vítimas recebem diversos golpes, sobretudo no rosto e nas partes íntimas. Além disso, esses objetos são facilmente acessíveis no ambiente doméstico, o que evidencia o caráter íntimo e interpessoal dessa violência.

Os agressores frequentemente atacam partes do corpo ligadas à feminilidade e à autoestima das mulheres. No Ceará, práticas como raspar a cabeça das vítimas ainda aparecem como forma de punição por suposta quebra de valores morais. “Essas ações têm o objetivo de ofender características socialmente associadas ao feminino”, destaca Fernanda.

Para a psicanalista Macedônia Felix, que pesquisa feminicídios na região do Cariri, a história de violência no estado contribui para a recorrência de métodos desumanos de tortura e assassinato de mulheres.

Estudos indicam que a violência está profundamente associada à construção cultural da masculinidade no Nordeste, que reforça a ideia do homem agressivo como forma de afirmação. Essa concepção remonta ao início das sociedades agrícolas e pecuárias, quando as mulheres eram tratadas como posse, já que sua função social estava vinculada à reprodução e à manutenção da força de trabalho no campo, explica a professora Layza Castelo, da Universidade Estadual do Ceará (Uece).

As mulheres demoram para denunciar?

A ideia de que mulheres permanecem em relações violentas por omissão ou demora em denunciar é um mito, segundo Macedônia Felix. “Quando se escuta a história de cada mulher, percebe-se que são trajetórias de quem tentou inúmeras vezes sair da violência, até não ter mais forças”, afirma.

Após episódios de agressão, é comum que os companheiros prometam mudança de comportamento, o que pode levar a períodos temporários de melhora. No entanto, quando decidem romper definitivamente, muitas mulheres enfrentam abandono e perda das poucas estruturas de apoio que possuíam.

A vulnerabilidade financeira também pesa nesse processo. Mulheres recebem salários menores, enfrentam maior precarização no mercado de trabalho e acumulam múltiplas jornadas. Esses fatores se agravam quando associados à questão racial: mais de 60% das vítimas de feminicídio no Brasil em 2025 eram mulheres negras, segundo análises de dados policiais e das secretarias estaduais de Segurança Pública.

A advogada Gislene Gabriel explica que a violência contra mulheres negras é frequentemente naturalizada. Assim, quando elas buscam ajuda, seus relatos tendem a ser minimizados por autoridades e profissionais. A escassez de delegacias especializadas, sobretudo no interior do estado, também dificulta o acesso à rede de proteção e acolhimento.

Além disso, falhas na notificação e na correta tipificação dos crimes levam à subnotificação do feminicídio, prejudicando tanto as estatísticas quanto a formulação de políticas públicas eficazes.

Por que o feminicídio é diferente do homicídio?

O feminicídio se caracteriza pelo assassinato de mulheres motivado por sua condição de gênero, geralmente relacionado à violência doméstica, familiar ou à discriminação. Em 2024, passou a ser considerado crime autônomo, deixando de ser apenas uma qualificadora do homicídio.

Com a mudança, a pena passou de 12 a 30 anos para 20 a 40 anos de reclusão, podendo ser ampliada em circunstâncias específicas. Ainda assim, especialistas alertam que o número real de vítimas é maior do que o divulgado, devido à dificuldade de enquadrar corretamente os crimes como feminicídio.

Essa subnotificação impacta diretamente a responsabilização dos agressores e a criação de políticas públicas voltadas à prevenção da violência.

Por que as leis não são suficientes para proteger as mulheres?

Embora o Brasil possua uma das legislações mais avançadas do mundo no enfrentamento à violência contra a mulher, os casos de feminicídio continuam crescendo. Para especialistas, isso evidencia a limitação de políticas exclusivamente punitivas.

Segundo a promotora de Justiça Lívia Cristina, coordenadora do Núcleo Estadual de Gênero Pró-Mulher, o aumento das penas, isoladamente, não resolve o problema. “As políticas de punição precisam caminhar junto com políticas de prevenção”, afirma.

Ela defende investimentos na criação de equipamentos especializados, capacitação de profissionais, campanhas educativas e ações contínuas de conscientização sobre desigualdade de gênero e respeito às mulheres.

Apesar da violência persistente, Macedônia Felix ressalta que há resistência e mobilização feminina constante. “Há sempre mulheres educando, prevenindo, escrevendo, conscientizando e construindo caminhos para uma vida digna”, conclui.

Legenda: teste
Foto: teste
 

Denuncie

A Secretaria da Segurança Pública reforça a importância da denúncia para prevenir crimes e iniciar investigações. Os canais disponíveis são:

  • 190 – Coordenadoria Integrada de Operações de Segurança (Ciops)
  • 180 – Central de Atendimento à Mulher
  • 181 – Disque-Denúncia da SSPDS
  • (85) 3101-0181 – WhatsApp para denúncias por mensagem, áudio, vídeo ou foto
  • E-denúncia – disquedenuncia181.sspds.ce.gov.br
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