Entenda como vai funcionar demarcação de 4 terras indígenas do Ceará

Acordo de cooperação entre Estado e União deve garantir a delimitação foi assinado em Caucaia, na manhã de hoje (1º)

Escrito por Nícolas Paulino e Theyse Viana ceara@svm.com.br
01 de Novembro de 2023 - 11:10 (Atualizado às 10:33, em 07 de Novembro de 2023)
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Legenda: Demarcação de terras é centro da luta histórica pelos direitos dos povos indígenas do Ceará
Foto: Kid Júnior
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Mais um capítulo histórico da luta de povos originários do Ceará começa a ser escrito a partir desta quarta-feira (1º), com a assinatura de termo de cooperação entre os Governos Federal e do Estado para demarcação de quatro terras indígenas cearenses.

O acordo que garantiu a delimitação oficial das áreas foi assinado nesta manhã, no Território Sagrado Tapeba, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza. A cerimônia contou com as presenças da Ministra dos Povos Indígenas, Sônia Guajajara; do governador do Estado, Elmano de Freitas; e da presidente da Funai, Joenia Wapichana.

O processo de demarcação física tem prazo de 1 ano para ser concluído, mas pode ser prorrogado – e somente após essa etapa pode haver a homologação das áreas pela Presidência da República.

As quatro áreas, que pertencem às etnias Jenipapo-Kanindé, Tapeba, Pitaguary e Tremembé de Queimadas, já possuem processos avançados: são legalmente declaradas como indígenas, mas ainda carecem da demarcação territorial e homologação firmadas.

Os estudos antropológicos relacionados aos povos, que resultam na definição inicial da área de uma terra e na publicação de portaria declarando que aquele perímetro pertence aos povos indígenas, são feitos pela Fundação Nacional dos Povos Indígenas (Funai).

O próximo passo, então, a partir da assinatura do acordo de cooperação, cabe ao Governo do Estado, como explica João Alfredo, superintendente do Instituto do Desenvolvimento Agrário do Ceará.

“O Idace, agora, vai fazer a delimitação física da área. Depois de tudo terminado, a Funai prepara o processo completo e leva ao presidente da República, que homologa a terra. É histórico, porque estamos trabalhando com 4 terras”, comemora.

Na delimitação, serão instalados marcos físicos para orientar onde começa e onde termina o território oficialmente indígena. Em termos de patrimônio, as terras pertencem à União – mas, a partir da homologação, são reconhecidas ancestrais e de usufruto das comunidades indígenas.

“A ‘desintrusão’ de não indígenas nesses territórios entra nesse processo também. É importante, porque essas pessoas, as ‘posseiras’, têm direito à indenização das benfeitorias de boa fé. Será feito um trabalho de levantamento”, explica o superintendente do Idace.

Direito ancestral

Para Dourado Tapeba, a conquista histórica da demarcação é uma resposta aos anseios dos próprios ancestrais. “O que representa esse momento é muita euforia, saber que nossa terra vai ser demarcada, regularizada, mesmo que já tenha sido muito ‘debulhada’. É um direito nosso, dos nossos ancestrais”, firma.

“Meu pai queria muito ver essa terra demarcada: mas ele disse que embora ele não visse, os filhos iam ver. E estamos vendo isso, eu e meu filho”, declara a liderança, pai de Weibe Tapeba, cearense titular da Secretaria de Saúde Indígena do Ministério da Saúde.

Os Tapebas estão entre os povos que aguardam há mais tempo pela finalização da demarcação
Legenda: Os Tapebas estão entre os povos que aguardam há mais tempo pela finalização da demarcação
Foto: Ismael Soares

Clécia Pitaguary, liderança do povo de mesmo nome, destaca que a perspectiva agora concreta de demarcação “é mais um capítulo da história de resistência” que começa a ser escrito. 

“Se Deus quiser, vamos finalizar esse capítulo com a demarcação desses 4 territórios. Hoje iniciamos uma nova história de conquistas”, emociona-se, durante a cerimônia de assinatura da cooperação.

Em discurso durante o evento, o governador Elmano de Freitas também destacou a necessidade fundamental de demarcar os territórios. "Educação, saúde e muitos direitos são importantes, mas o primeiro que nós temos que buscar garantir para cada povo indígena do Ceará é ele ter sua terra demarcada. Esse é o principal sobre o qual nós temos que nos concentrar", pontuou.

‘Marco temporal foi enterrado’

A presidente da Funai, Joenia Wapichana, reconhece que a fundação “tem a obrigação constitucional” de assegurar as garantias legais dos territórios indígenas. Questionada sobre o marco temporal, vetado pelo presidente Lula, ela foi categórica.

“No meu entendimento, foi enterrado naquele dia pelo Supremo (Tribunal Federal). Creio que há uma decisão firmada do Supremo sobre a inconstitucionalidade”, pontuou.

O projeto de lei (PL) 490/2007, conhecido como Marco Temporal, prevê a revisão de processos de demarcação de terras, restringindo essa delimitação física àquelas já tradicionalmente ocupadas por esses povos no dia 5 de outubro de 1988, data da promulgação da nova Constituição federal.

Conheça o processo atual de cada demarcação:

Jenipapo-Kanindé

Morador da Lagoa da Encantada, em Aquiraz, esse povo já tem 9 gerações de nativos. Dos 382 moradores da terra, segundo o Censo, 340 são indígenas. A moradora mais conhecida é Maria de Lourdes da Conceição Alves, a Cacique Pequena, primeira mulher cacique do Brasil, escolhida em 1995.

O processo de demarcação da etnia começou em 1999, ano em que o território foi delimitado no mapa. Desde 2017, o local passa por um processo de desintrusão, ou seja, a remoção de ocupações não-indígenas. Só depois da retirada total é que pode haver a homologação final dos 1.734 hectares.

Tapeba

Os Tapebas são fruto da mescla de quatro povos originários: jucás, potiguaras, kariris e tremembés. Hoje, a etnia se distribui em 19 aldeias em Caucaia, tendo 5.328 pessoas autodeclaradas indígenas.

A terra Tapeba, de 5.294 hectares, foi identificada oficialmente em 1986, durante um processo de mobilização incentivado pelo arcebispo de Fortaleza, Dom Aloísio Lorscheider. Após anos de obstáculos jurídicos e administrativos, sobretudo contra fazendeiros, a posse permanente foi declarada pelo Ministério da Justiça em setembro de 2017.

Pitaguary

Da linhagem dos indígenas potiguara, que habitavam o litoral do Ceará, eles foram “empurrados” pelos colonizadores para o pé da serra de Pacatuba, dividindo território com Maracanaú. A terra de 1.735 hectares abriga 2.942 indígenas da etnia.

O território foi delimitado pela Funai em 2000 e declarado de posse permanente em 2006. Embora seja um dos processos mais avançados entre as terras indígenas do Ceará, já decorreram quase 20 anos sem novidades.

Delimitação da terra indígena Jenipapo-Kanindé, em Aquiraz
Legenda: Delimitação da terra indígena Jenipapo-Kanindé, em Aquiraz
Foto: Kid Jr.

Tremembé de Queimadas

A terra dos Tremembés de Queimadas fica em Acaraú, município do litoral Oeste do Ceará. A área de 767 hectares foi declarada em abril de 2013, mas não avançou na última década. Segundo o último Censo, é habitada por 311 moradores, dos quais 290 são indígenas.

Os Tremembé praticam a agricultura, caça, pesca e coleta, fabricam objetos artesanais e participam da economia regional. A castanha de caju é uma das bases de subsistência do grupo.

Seus “irmãos” da terra Tremembé da Barra do Mundaú, no distrito de Marinheiros, em Itapipoca, tiveram a demarcação final homologada pelo Governo Federal em 28 de abril deste ano. Ao todo, 3.511,4 hectares foram garantidos a esse povo.

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