TJA 110 anos - Naquela porta

Na sexta e última crônica da série em comemoração aos 110 anos do Theatro José de Alencar, o ator e diretor de teatro Ricardo Guilherme lembra o amigo Clóvis Matias, que de 1973 a 1989 esteve na portaria da casa de espetáculo

Matéria por  Ricardo Guilherme *
21 de Junho de 2020 - 09:00
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Dos cento e dez anos do Theatro Zé, tenho cinqüenta, representando histórias e resgatando História. Desde a década de setenta do século XX, em uma densa, às vezes tensa, mas sempre intensa relação. Muitíssimas vezes estive em silêncio, defronte ao espelho de um dos seus camarins, a pensar sobre a tragicômica consciência de ser ator. Quantas vezes, sobre as tábuas do seu tablado,sob a pele de personas, expressei a indomável alegria ou a indispensável dor de estar vivo. Tantas vezes com tantos, seja em cena, nos bastidores ou na plateia, estabeleci vínculos irredutíveis.

Lembro aqui um desses: Clóvis Matias, que de 1973 a 1989 esteve na portaria do TJA como se ali fosse o novo cenário para uma velha comédia, pois trouxe do palco para a porta a comicidade das gestas populares.

Herdeiro dos circos, das burletas e dos folguedos tradicionais, o comediante recebia o público com um humor de criança travessa e personificava, ainda que de paletó, calça de suspensórios e gravatinha borboleta, a verve arquetípica do Ceará-moleque.

Tendo por base de formação a escrita cênica popular, de acentuada tendência histriônica, a performance do recepcionista de nosso teatro oficial era uma atração à parte, anterior e posterior aos espetáculos da programação. Mesmo sem a maquiagem e o típico nariz de palhaço, Clóvis fazia rir apenas pela entonação e pela expressão facial. Extremamente hábil em aproveitar as situações para improvisar e extrair dos diálogos um efeito cômico, esse clown descolorido e desprovido de guizos induzia qualquer interlocutor a ser o comparsa de uma anedota.

Pois é, Theatro Zé. O tempo passa, passou, está passando. E enquanto o tempo passa, nós vamos traspassando os tempos
Legenda: Pois é, Theatro Zé. O tempo passa, passou, está passando. E enquanto o tempo passa, nós vamos traspassando os tempos
Foto: Saulo Roberto

Certa vez, por volta das cinco e meia da tarde, estava em cartaz uma peça infantil. Chega à porta do Theatro José de Alencar uma velhinha, de véu na cabeça, com um terço na mão, e vai entrando apressada. Clóvis se interpõe à passagem, cobrando da tal espectadora, como de praxe, a apresentação prévia do ingresso. Ela, atordoada, reage, dizendo: Valha-me, Deus! E agora a gente tem de pagar ingresso pra entrar na Igreja do Patrocínio!? Ele, de imediato, dá a réplica: Minha senhora, a Igreja do Patrocínio era aqui, mas o padre não pagou o aluguel e a igreja se mudou lá pro outro lado da praça.

Outra de suas respostas desconcertantes aconteceu quando alguém um dia quis saber dele, como porteiro do TJA há tanto tempo, qual seria o melhor espetáculo já apresentado naquele espaço cênico. Clóvis que por obrigação funcional só podia sair do prédio após a saída do último espectador em horário no qual muitas vezes já não havia ônibus em circulação, o que o forçava a voltar para casa de subúrbio a pé, respondeu:

"Bom, pra mim a melhor peça que já passou aqui pelo José de Alencar foi...foi aquela que acabou mais cedo".

Em decorrência do processo de reforma e restauração (1989-1990), o Theatro é fechado e depois da reabertura (janeiro/1991), Clóvis não reassume suas funções. Doente, de fala trôpega e andar claudicante, morre aos 85 anos, em 1999.

Hoje, relembrando esse mestre amigo, dá vontade de parafrasear o compositor Sérgio Bittencourt e dizer: "Naquela porta está faltando ele e a saudade dele está doendo em mim".

Pois é, Theatro Zé. O tempo passa, passou, está passando. E enquanto o tempo passa, nós vamos traspassando os tempos. Temos meio século de convivência, mas o tempo ainda nos atravessa.

*Ricardo Guilherme é ator, dramaturgo, diretor teatral e  escritor

 

 

 

 

 

 

 

 



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