Para conhecer a arte contemporânea cearense, Instituto Sérvulo Esmeraldo é passagem obrigatória

Museu-casa reúne acervo documental do artista cujas obras ocupam ruas e espaços do Ceará, reservando carinhosas preciosidades ao público

Escrito por Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
13 de Julho de 2022 - 09:00
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Legenda: Inaugurado em março deste ano como fruto de um sonho tão antigo quanto poderoso, o museu-casa foi o último endereço de Sérvulo na Capital
Foto: Fabiane de Paula

Embora talvez não saiba, você conhece Sérvulo Esmeraldo (1929-2017). Quando passa pelo viaduto Reitor Antônio Martins Filho, no Cocó, você o reconhece. Ele está lá com a obra “Pulsação”, bailando com o vento. Conhece também ao circular pela Praça da Sé, o Campus do Pici da Universidade Federal do Ceará, a Avenida Beira-Mar. Atravessando Capital e interior, você o reconhece. Sérvulo é movimento e presença. O ateliê dele é a rua.

Você o conhece e precisa conhecer mais. Nomear os sentimentos. Sérvulo é sempre novidade. E há um recanto em Fortaleza dedicado a ele e ao legado que deixou. O Instituto Sérvulo Esmeraldo abre portas, janelas, linhas e formas para o público – seja ele amante ou ainda aprendiz no segmento da arte contemporânea cearense. O generoso lar fica na Avenida Rogaciano Leite, 300, casa 14. A fácil identificação prova o quanto Esmeraldo vive em nós.

Um portão vermelho com traços característicos do ofício desse cratense cosmopolita e luminoso convida a entrar. Movendo-o para dentro está Dodora Guimarães, presidente da instituição, viúva do mestre. “Sejam bem-vindos”, exclama. É ela quem conduz a visita pelo espaço, repleto de alma e dinâmica. Tudo ganha energia própria no Instituto. 

Um portão vermelho com traços característicos do trabalho de Sérvulo convida a entrar; é Dodora Guimarães – presidente da instituição, viúva do mestre – que o abre
Legenda: Um portão vermelho com traços característicos do trabalho de Sérvulo convida a entrar; é Dodora Guimarães – presidente da instituição, viúva do mestre – que o abre
Foto: Fabiane de Paula

Inaugurado em março deste ano como fruto de um sonho tão antigo quanto poderoso, o museu-casa foi o último endereço de Sérvulo na Capital. Quem assina o projeto do ambiente é o escritório Marcus Novais Arquitetura – o mesmo do Museu da Fotografia Fortaleza. Esmeraldo olha para nós em cada cômodo. A sensação é de aconchego. Também é nosso lar.

Dodora nos toma pela mão – ao lado dela, também está o sobrinho, Samir Guimarães, funcionário da entidade – com a paixão e o conhecimento de quem sabe a grandiosidade da herança de Esmeraldo. Nobreza expressa na simplicidade. O minimalismo do escultor, gravador, ilustrador e pintor cearense é percebido de modo bastante natural pelos recintos. A primeira obra a qual somos apresentados, por exemplo, é um imenso painel próximo à mesa com cadeiras, faceta possível da beleza. Entre silêncios e conversas, contemplação.

Primeiros espaços expositivos do Instituto Sérvulo Esmeraldo
Primeiros espaços expositivos do Instituto Sérvulo Esmeraldo
Primeiros espaços expositivos do Instituto Sérvulo Esmeraldo
Primeiros espaços expositivos do Instituto Sérvulo Esmeraldo
Primeiros espaços expositivos do Instituto Sérvulo Esmeraldo
Primeiros espaços expositivos do Instituto Sérvulo Esmeraldo
Primeiros espaços expositivos do Instituto Sérvulo Esmeraldo

Papo vai, papo vem, já estamos no pátio de esculturas. A céu aberto e rodeada de vegetação, a área dá mais um passo nisso de conhecer a alma do artista. Peças de alta voltagem lúdica e criativa – em consonância com toda a obra de Sérvulo – emolduram pensamentos. Qual o ponto de partida para o criar?, ousamos refletir. Certamente o amor.

“E nós costumamos dizer que aqui é um espaço de amor. O Instituto Sérvulo Esmeraldo é voltado para a salvaguarda da memória, do arquivo e da contribuição tão importante dada pelo Sérvulo às artes plásticas do Brasil e da França, onde ele viveu. Um espaço também de alegria porque arte é alegria, reflexão e pensamento. É a ciência mais profunda desenvolvida pela humanidade desde os primórdios”, dimensiona Dodora. Como não se encantar?

Cariri em Fortaleza

A diretora do Instituto destaca outro importante aspecto de conexão da entidade com o público: o fato de o museu-casa ser todo “instagramável”, conforme descreve. Em tempos de efervescência das redes sociais, o Atelier é um dos melhores exemplos disso. Igualmente repleto de criações do gênio, expõe instrumentos de trabalho (de prensas a utensílios de modelação e corte) até outros inventos da mente inquieta de Esmeraldo.

Cores, cubos, linhas e combinações de formas e materiais conferem imersão total, beneficiados pela luz que adentra o recinto. Estado de suspensão. Uma fotografia de Sérvulo, feita por Gentil Barreira, nos recebe desde a entrada – sorriso largo e postura aberta. Abaixo da assinatura dele, está escrito “Sempre”. Do outro lado, a frase que sintetiza o espírito da instituição e do homenageado: “A obra pode desaparecer, mas a memória é eterna”.

Legenda: "O Instituto é um espaço de alegria porque arte é alegria, reflexão e pensamento", dimensiona Dodora Guimarães
Foto: Fabiane de Paula

“Trabalhamos essa memória presente a partir da exibição das obras do artista na última residência dele, onde nós moramos. Costumo dizer que o Instituto é um museu comigo dentro, porque é o lugar em que vivemos e desenvolvemos nosso trabalho. Sérvulo partiu, mas eu fiquei dando continuidade a tudo”, enfatiza a também curadora.

Sendo essa produção tão múltipla e dialógica, natural que nos impressionemos com maquetes de obras feito a escultura-fonte “Ballet Gráfico”, presente na Praça da Sé; a escultura “Monumento ao jangadeiro”, recentemente de volta à Avenida Beira-Mar; e a icônica e ainda ausente na paisagem alencarina, “La Femme Bateau”

No Atelier do artista, multiplicidade de obras e instrumentos de trabalho
No Atelier do artista, multiplicidade de obras e instrumentos de trabalho
No Atelier do artista, multiplicidade de obras e instrumentos de trabalho
No Atelier do artista, multiplicidade de obras e instrumentos de trabalho
No Atelier do artista, multiplicidade de obras e instrumentos de trabalho
No Atelier do artista, multiplicidade de obras e instrumentos de trabalho
No Atelier do artista, multiplicidade de obras e instrumentos de trabalho
No Atelier do artista, multiplicidade de obras e instrumentos de trabalho
Dodora e Samir Guimarães, à frente da instituição
No Atelier do artista, multiplicidade de obras e instrumentos de trabalho
No Atelier do artista, multiplicidade de obras e instrumentos de trabalho
No Atelier do artista, multiplicidade de obras e instrumentos de trabalho
Na área de Reserva Técnica, cerca de 15 mil documentos dão dimensão da genialidade de Sérvulo Esmeraldo
Na área de Reserva Técnica, cerca de 15 mil documentos dão dimensão da genialidade de Sérvulo Esmeraldo
Na área de Reserva Técnica, cerca de 15 mil documentos dão dimensão da genialidade de Sérvulo Esmeraldo
Na área de Reserva Técnica, cerca de 15 mil documentos dão dimensão da genialidade de Sérvulo Esmeraldo
Na área de Reserva Técnica, cerca de 15 mil documentos dão dimensão da genialidade de Sérvulo Esmeraldo

Texturas que ganham ainda mais força na Reserva Técnica da instituição, onde estão valiosíssimos arquivos – compondo o Acervo Documental do projeto. São cerca de 15 mil documentos, entre correspondências, material de imprensa, publicações de 1947 aos dias atuais, estudos, fotografias, croquis, maquetes, projetos de desenhos, esculturas e gravuras. Há também uma biblioteca, com títulos focados sobretudo nas Artes Plásticas; e um espaço reservado para a apresentação de vídeos sobre o Instituto e a vida e obra de Sérvulo.

As correspondências institucional, pessoal e entre colegas artistas são um capítulo à parte. Cartas de nomes incontornáveis – de Gabriel García Márquez (1927-2014) a Julio Cortázar (1914-1984) – atestam a amplitude do cratense, de como conquistou o mundo. Além do Brasil, Sérvulo viveu na França. Nunca parou. E continua assim. Dodora diz: “O Instituto Sérvulo Esmeraldo é uma extensão do Cariri em Fortaleza”. Verdade. Queremos ficar.

Sempre continuar

Ficar porque o horizonte permanece infindo. E é bom ficar perto das coisas eternas. O Instituto conserva essa relevância ao investir em vários projetos. Um deles é o de visitação. A ação educativa envolve crianças, jovens, adultos, turistas, artistas, bem como todos os interessados nas criações de Esmeraldo. Basta agendar por e-mail.

Há também a iniciativa de conservação da obra pública de Sérvulo. Missão de redobrar a atenção e a vigilância. “Esse é um grande patrimônio que ele legou à Fortaleza, o conjunto de obras espalhadas pela cidade. Talvez poucos artistas no mundo conseguiram esse feito.. Então, nós temos – todos, não somente o Instituto, mas os cidadãos e cidadãs de Fortaleza, as instituições públicas e privadas – a responsabilidade e o dever de preservar essa herança”.

Espaços internos do lar de Sérvulo resguardam peças e minúcias valiosas do artista
Espaços internos do lar de Sérvulo resguardam peças e minúcias valiosas do artista
Espaços internos do lar de Sérvulo resguardam peças e minúcias valiosas do artista
Espaços internos do lar de Sérvulo resguardam peças e minúcias valiosas do artista
Espaços internos do lar de Sérvulo resguardam peças e minúcias valiosas do artista
Espaços internos do lar de Sérvulo resguardam peças e minúcias valiosas do artista
Espaços internos do lar de Sérvulo resguardam peças e minúcias valiosas do artista

Por fim, o Festival Sérvulo Esmeraldo, um dos mais importantes projetos da instituição. Sempre ocupando o Crato, no Cariri cearense, acontece de 20 de novembro a 20 de dezembro deste ano. Focado na formação artística, receberá grandes nomes da arte contemporânea do Brasil e do mundo, promovendo exposições desenvolvidas durante residências de oito dias. Trata-se de um esforço para manter viva a chama da inspiração e do fazer.

A visita ao museu-casa pode findar no próprio lar do artista, nos recantos mais internos. É quando ocupamos a sala de estar – repleta de livros e detalhes –, a sala de jantar e outras áreas expositivas. Existe também uma lojinha, em que é possível comprar blusas, bolsas, joias. Em tudo Sérvulo está. Um milagre. Um privilégio. 

“Ele é muito presente em todos os lugares dessa casa porque viveu intensamente aqui. Em cada canto trabalhou, há essa referência importante da memória. Todos os espaços estão impregnados da grande sensibilidade e contribuição dele. Um espaço sagrado. Costumo dizer que, quando você põe o pé na calçada do Instituto, já entrou nele, já penetrou na memória do Sérvulo, já está de mãos dadas com ele”, poetiza Dodora.

Legenda: "Todos os espaços estão impregnados da grande sensibilidade e contribuição dele. Um espaço sagrado", resume Dodora Guimarães sobre a experiência de estar no Instituto Sérvulo Esmeraldo
Foto: Fabiane de Paula

É noite quando a despedida acontece. A diretora nos acompanhou ao longo de três horas carinhosas. O portão-painel vermelho faz o movimento inverso agora, mas prossegue convidando. Nunca para. Dodora quer que ninguém saia como entrou. Convém que saiam felizes, despertos para o bem e a transformação social e humanitária – vetores das criações de Sérvulo. Impossível isso não acontecer. Linha, luz, Crato. Você sente. Porque está.

Você conhece Sérvulo Esmeraldo. O Instituto dedicado a ele quer conhecer você.


Serviço
Instituto Sérvulo Esmeraldo
Avenida Rogaciano Leite, 300, casa 14, Salinas. Visitação gratuita com agendamento pelo e-mail institutoservuloesmeraldo@gmail.com. Terça a sexta-feira, de 10h às 12h e de 14h às 17h; aos sábados, de 14h às 17h. Contato: (85) 3241-4604. Mais informações no site e nas redes sociais (instagram e facebook)

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