Mestra Zulene Galdino e a força da mulher na cultura popular: “Se não vem nosso direito, o Brasil perde também"

Aos 72 anos, ela reforça a importância das mulheres não desistirem dos espaços culturais

Matéria por  Roberta Souza
04 de Novembro de 2021 - 09:00
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— Alô, museu da mestra Zulene, boa tarde! - diz a voz do outro lado do telefone, em uma ligação que conecta a repórter de Fortaleza ao município do Crato, no Cariri cearense. 

O celular nem pertence a ela, pois não é muito afeita às tecnologias. Mas o discurso para responder aos interessados em seu trabalho, por meio do aparelho da sobrinha Josy, está sempre na ponta da língua.

“Meu nome é Zulene Galdino, nome artístico Mestra Zulene. Tô aqui agradecendo a Deus e o convite das pessoas para eu vir me apresentar”, introduz, assim como faz na abertura dos eventos culturais para os quais é convidada.

Dessa vez, ela é uma das escolhidas para contar sua história no Projeto Elas, iniciativa do Sistema Verdes Mares em prol do fortalecimento da luta das mulheres na manutenção de seus direitos e também do reconhecimento de suas conquistas.

Com 72 anos, Mestra Zulene acredita que tem no máximo 10. Até porque, é com a criançada que ela mais convive, ensinando a dançar quadrilha, pastoril, coco e maneiro-pau. 

Foram essas habilidades, aliás, que lhe conferiram, em 2006, o reconhecimento de Mestra pela Secretaria de Cultura do Estado do Ceará. “Mas eu já nasci assim”, avalia.

Mestra Zulene Galdino, no Encontro Mestres do Mundo 2018
Legenda: Mestra Zulene Galdino, no Encontro Mestres do Mundo 2018
Foto: Thiago Nozi

Aprendeu muito com o pai, Luiz Galdino, do qual herdou o amor por esses saberes e alguns traços indígenas. “Era um pessoal tudo abençoado, animado”, recorda da família paterna, lembrando que mãe e pai eram primos.

“Na noite de São João, eles passavam a noite brincando coco de roda, aí eu tinha muita vontade de aprender também”. Tanto que absorveu e segue até hoje transmitindo, segura de que as crianças só não darão continuidade à tradição se não quiserem.

De portas abertas

É na Vila Nova Horizonte, no bairro Granjeiro, que está localizada a casa onde habita. A estrutura, adaptada como museu orgânico em 2019, é bem diferente das construções de palha em que cresceu, no pé da serra do Araripe. 

Natural de Arajara, em Barbalha, foi mesmo no Crato que Mestra Zulene desenhou a maior parte da trajetória como “Rainha da Cultura e do Folclore”. Rezadeira, diz ter aprendido sobre cura com uma “caboclinha da mata”, nas lendas também conhecida como Caipora.



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