Inventário de memórias: escritora mergulha em lembranças agridoces para retratar avó com Alzheimer

Livro “Coisas presentes demais”, lançado pela editora Relicário, é uma homenagem da escritora Flávia Péret à figura da avó

Matéria por  Beatriz Rabelo
14 de Agosto de 2025 - 18:00
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Da avó, se lembra que gostava de andar bem arrumada, passar perfume ao sair e cuidar de sua horta. O lento e erosivo processo de destituição da memória, intrínseco ao Alzheimer, tira tudo do lugar. Nada jamais será como antes, percebe a escritora Flávia Péret, ao longo da escrita do livro “Coisas presentes demais”, lançado pela editora Relicário. 

A figura que marcou sua infância pelos sentimentos conflitantes, mas também pela tentativa de cuidado, agora guarda poucos arroubos de lucidez. Suas roupas já não combinam mais e a horta, que antes cuidava com tanto afinco, foi destruída em um dos episódios de raiva característicos dos primeiros estágios da doença. 

Enquanto a avó começa a esquecer, Flávia realiza o movimento contrário de tentar lembrar. E isso vem através da escrita, que lhe mostra o que sozinha não conseguiria enxergar.

“Frente aos diversos esquecimentos da avó, minha memória se intensifica, como se, involuntariamente, eu entrasse numa espécie de estado de rememoração, no qual sou tomada por lembranças de diferentes naturezas e intensidades, como se eu, também, assim como Tamara, começasse a ouvir o eco dos fantasmas”. 
Flávia Péret
Escritora

Sua escrita é atravessada por visitas a memórias e histórias da infância. Atenta às sutilezas, Flávia percebe que a avó lhe reconhece pelo sorriso, ainda que gradualmente esteja se tornando outra pessoa. 

Existe uma dureza de identificar a degradação da figura que a avó costumava ser. A escritora, também professora de criação literária, vê a memória como pedaços de acontecimentos, fragmentos desencontrados. É retalho, restos e sobras.

“Eu nunca tinha me deparado com tanta concretude com isso que irá acontecer com todos nós, vamos esquecer e seremos esquecidos”, disse em entrevista ao Diário do Nordeste.

Caminhos trilhados na escrita

O livro que chega aos leitores passou por incansáveis reescritas, assim como leituras de muitas mãos amigas. Em outubro de 2021, surgiu o primeiro rascunho, abandonado por meses. A retomada ocorreu entre abril e maio de 2022, com uma escrita intensa que se estendeu até setembro. Foi quando percebeu: tinha uma história.

Ainda assim, entre risos, Flávia admite nutrir a tendência de modificar o texto quando algo lhe parece errado durante uma leitura pública. 

Para o livro nascer, foi preciso atravessar um longo percurso marcado por confusão e angústia. É dessa matéria que se constrói a escrita de Flávia Péret, de um começo amorfo e confuso que gradualmente vai ganhando forma.

A professora, que também pesquisa a vencedora do Nobel de Literatura Annie Ernaux, foi construindo seu texto em busca de tornar o pessoal algo impessoal. 

A escritora, também professora de criação literária, vê a memória como pedaços de acontecimentos, fragmentos desencontrados
Legenda: A escritora, também professora de criação literária, vê a memória como pedaços de acontecimentos, fragmentos desencontrados
Foto: Divulgação/Bê de Sá

“Os eventos que narro no livro, lembrando que é uma mistura de realidade e imaginação, aconteceram com uma pessoa, tem a marca desta singularidade. Como esta experiência individual se torna, de algum modo, comum?­ Esta é uma pergunta que está comigo o tempo todo, enquanto escrevo, um horizonte, sair de mim ou da minha história para encontrar o outro”.
Flávia Péret
Professora de escrita criativa

Inventário de memórias

A escrita também surgiu de muitos silêncios. Diante do processo de adoecimento, em que a matriarca perde a capacidade de se comunicar, a escrita foi realizada sem a possibilidade de novas trocas. “Quis fazer tantas perguntas, mas isso foi impossível. Tive que imaginar, supor, inventar. Tudo junto”, revelou. 

Parece sentir, então, quase um vazio repentino, como aquele que Nick Carraway viu fluir das grandes janelas e portas, do lar de completo isolamento da figura de Gatsby. 

E, no fim, percebe o retorno à avó pela escrita. Enquanto escrevia, Flávia contou que foi percebendo, com mais profundidade, a figura extremamente corajosa e transgressora das normas que foi sua avó.

“Então, aquela mulher da qual eu tinha vergonha, virou um exemplo, uma mulher admirável. Todo o processo foi muito emocionante”.

E ainda que uma parte importante dessa figura tenha partido para uma terra estranha e inalcançável -— e que seja preciso resistir ao impulso de perguntar: onde a senhora está, vó? Em qual tempo? Em qual ano? — agora Flávia guarda e compreende algo de verdadeiramente mágico que a lógica anterior à escrita não lhe permitia enxergar. 

Para o livro nascer, foi preciso atravessar um longo percurso marcado por confusão e angústia
Legenda: Para o livro nascer, foi preciso atravessar um longo percurso marcado por confusão e angústia
Foto: Divulgação/Relicário Edições

Coisas presentes demais
Flávia Péret

Editora Relicário
2025, 188 páginas
R$ 65,90



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