'Homem com H' apresenta vida e obra de Ney Matogrosso sem pudores na forma e na narrativa

Estrelada por Jesuíta Barbosa, cinebiografia do cantor estreia nos cinemas brasileiros nesta quinta, 1º de maio

Escrito por João Gabriel Tréz joao.gabriel@svm.com.br
29 de Abril de 2025 - 07:40 (Atualizado às 08:45)
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Legenda: Protagonizado por Jesuíta Barbosa, "Homem com H" é cinebiografia de Ney Matogrosso assinada pelo diretor e roteirista Esmir Filho
Foto: Marina Vancini / Divulgação

O gênero da cinebiografia dificilmente alcança resultados que vão além de uma apresentação didática e reverente à figura retratada/homenageada. Fatos marcantes e fundantes são apresentados, acompanha-se a formação, o sucesso, os percalços — o modelo é costumeiramente seguido à risca.

Dedicado à vida e obra do cantor Ney Matogrosso e com Jesuíta Barbosa no papel principal, “Homem com H” se vale da fórmula, apresentando o artista em um amplo escopo temporal, mas se destaca pela inspiração e ousadia nas escolhas.

Na forma, a obra, que estreia nesta quinta, 1º de maio, reflete o próprio biografado, na ambivalência entre o desbunde e a contenção.

O projeto tem roteiro e direção de Esmir Filho, nome que despontou no audiovisual brasileiro nos anos 2000 com obras tão específicas quanto o curta “Tapa na Pantera” (2006) — popularizado como meme na internet — e o cult “Os Famosos e os Duendes da Morte” (2009).

O filme apresenta sequências iniciais centradas na infância de Ney, nos anos 1940, em especial na relação dura com o pai — um militar que diz que “não terá filho artista” — e terna com a mãe — dona de casa que leva o filho ainda pequeno para ver a vedete Elvira Pagã. Ambas são fundantes para os caminhos que ele construiria para si.

O roteiro segue para a significativa passagem dele pelas forças armadas, os primeiros contatos com arte, as expansões artísticas e pessoais, o início e a separação do grupo Secos & Molhados, os amores de Cazuza e Marco de Maria e várias outras situações identificáveis da trajetória de Ney.

Confira o trailer de "Homem com H"

Apesar de apresentá-la de forma narrativa clássica, “Homem com H” abre espaço para várias escolhas, tanto de história quanto de direção, que complexificam a obra.

Há elipses temporais e de contexto; sequências que escapam do concreto e apostam no simbólico ou na fantasia; e também abordagem frontal, no visual e na temática, em relação não somente ao sexo e à sexualidade, mas ao corpo e à corporeidade de Ney.

Não por acaso, as primeiras imagens divulgadas do longa-metragem que mostraram Jesuíta no papel do artista foram aquelas de fases icônicas do cantor, tanto na performance quanto na estética.

Legenda: "Homem com H" apresenta diferentes fases da carreira do cantor Ney Matogrosso (Jesuíta Barbosa)
Foto: Marina Vancini / Divulgação

Dando vida ao cantor da juventude à maturidade, o ator pernambucano que viveu por anos no Ceará faz uma composição de Ney de maneira alinhada à proposta de tom do filme. Ainda que o trabalho de corpo e caracterização seja notável, Jesuíta é Ney pela alma que imprime em cada trejeito, olhar e movimento.

Com carreira construída ao longo da ditadura militar, Ney teve na ousadia e enfrentamento à censura e aos censores — oficiais, ligados ao regime, e “extraoficiais”, inclusive antes e depois dele — como base principal da obra e, também, da vida.

A voz singular, a androginia, as danças, a maquiagem, as roupas, os acessórios e a liberdade nas relações que deram o tom — ainda que, ao mesmo tempo, a explosão nos palcos tenha sido por vezes válvula de escape de desejos e sentimentos guardados em uma existência mais sóbria.

Amores de Ney Matogrosso (Jesuíta Barbosa, no meio), Cazuza e Marco de Maria são interpretados por Jullio Reis e Bruno Montaleone na obra
Legenda: Amores de Ney Matogrosso (Jesuíta Barbosa, no meio), Cazuza e Marco de Maria são interpretados por Jullio Reis e Bruno Montaleone na obra
Foto: Marina Vancini / Divulgação

Seja nas performances ou na intimidade, “Homem com H” não se furta em retratar Ney sob um viés desejante, sem escapar de cenas de nudez, sexo e não apenas sugestivos movimentos de cintura e pélvis performados pelo protagonista.

A inserção dessa e outras ousadias do artista, bem como as ousadias de narrativa e forma empreendidas pelo próprio filme, fazem dele um relevante exemplo de produção entre cinebiografias.

O longa tem a benção do próprio Ney e faz disso uma oportunidade de abordar diferentes facetas, humanidades e ambivalências do homenageado; porque, justo por conta da ausência desses e outros pudores, “Homem com H” é acima de tudo uma devida homenagem ao artista.

Homem com H

  • Quando: estreia nos cinemas na quinta, 1º de maio
  • Mais informações: horários e locais das sessões no site Ingresso.com

Relembre outras cinebiografias da música brasileira

“Homem com H” se soma a uma série de produções do cinema brasileiro que apostam em contar as biografias de nomes importantes da música brasileira.

Contemporâneos do próprio Ney Matogrosso como Elis Regina, Gal Costa e Erasmo Carlos, por exemplo, ganharam filmes sobre as próprias trajetórias recentemente.

Cazuza, personagem em “Homem com H” com interpretação de Jullio Reis, por sua vez, teve a cinebiografia lançada ainda no começo dos anos 2000. Confira destaques dessa produção.

“Cazuza - O Tempo Não Para” (2004)

Foto: Divulgação

Dirigido por Sandra Werneck e Walter Carvalho, “Cazuza - O Tempo Não Para” se baseia no livro “Cazuza: Só as Mães São Felizes” e traz Daniel de Oliveira no papel principal. A produção teve mais de 3 milhões de espectadores nos cinemas.

  • Onde assistir: nas plataformas Prime Video e Max ou para aluguel na AppleTV

“2 Filhos de Francisco” (2005)

Foto: Divulgação

Outra produção pioneira na popularização da cinebiografia musical, o filme de Breno Silveira é baseado história da dupla sertaneja Zezé Di Camargo e Luciano. Foram mais de 5 milhões de espectadores na passagem pelas salas de cinema.

  • Onde assistir: nas plataformas Prime Video, Max e Globoplay ou para aluguel na AppleTV

“Tim Maia” (2014)

Foto: Divulgação

Com Babu Santana e Robson Marques no papel principal, o longa biográfico sobre o cantor Tim Maia teve direção de Mauro Lima. A obra foi adaptada em formato de minissérie na TV Globo.

  • Onde assistir: nas plataformas Telecine e Prime Video ou para aluguel na AppleTV

“Elis” (2016)

Foto: Divulgação

Lançado em 2016, o filme traz Andreia Horta no papel da cantora Elis Regina. A direção é de Hugo Prata. Assim como “Tim Maia”, também foi reeditada e exibida na TV Globo em formato de minissérie.

  • Onde assistir: nas plataformas Netflix, Globoplay e Prime Video

"Minha Fama de Mau" (2019)

Foto: Divulgação

A obra que conta a história de Erasmo Carlos desde a Jovem Guarda tem Chay Suede no papel principal e Lui Faria na direção.

  • Onde assistir: nas plataformas Netflix, Globoplay e Prime Video

“Nosso Sonho” (2023)

Foto: Divulgação

O fenômeno recente da dupla Claudinho e Buchecha foi recontado no longa de Eduardo Albergaria. O filme foi a maior bilheteria do cinema nacional em 2023.

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“Meu Nome É Gal” (2023)

Foto: Divulgação

Sophie Charlotte interpretou Gal Costa na cinebiografia da artista, que morreu antes da conclusão da produção. O fato fez a obra de Dandara Ferreira e Lô Politi precisar ser ampliada.

  • Onde assistir: nas plataformas Globoplay, Telecine e Prime Video ou para aluguel na AppleTV
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