Eventos culturais em locais fechados terão maior dificuldade de atrair público, aponta estudo

Pesquisa "Hábitos Culturais pós pandemia e reabertura das atividades culturais", organizado pelo Itaú Cultural e Datafolha, mostra que 56% dos entrevistados não querem visitar lugares com estas condições

Matéria por  Antonio Laudenir
19 de Outubro de 2020 - 17:54
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O caririense Caíca Luiz (61) é produtor cultural com atuação na música, teatro e cinema. O realizador alerta que mesmo antes da covid-19 alterar drasticamente as vidas dos brasileiros, seu campo de atuação já mostrava sinais de total dificuldade. “Estou parado até um pouco antes da pandemia”, descreve. 

Se já estava complicado produzir eventos antes, arcar com os custos dos atuais protocolos de segurança torna inviável o retorno pleno. “Falando como produtor, estou sem um pingo de estímulo em voltar tão cedo. É muita exigência para manter a segurança. Os protocolos são muito rígidos. Sou do grupo de risco, tenho três octogenários em casa, não tenho como estar me expondo. Tenho que deixar a vacina chegar realmente”, aponta o produtor. 

O depoimento do realizador cearense ganha eco com a recente pesquisa "Hábitos Culturais pós pandemia e reabertura das atividades culturais", organizada pelo Itaú Cultural e Datafolha. Um total de 1.521 pessoas foram ouvidas entre os dias 5 e 14 de setembro. O trabalho aborda tópicos como a expectativa de retorno às atividades culturais presenciais e o grau de confiança dos usuários com a retomada. 

Leitura

A maioria dos brasileiros deseja atividades culturais quando houver relaxamento das restrições de convívio social, aponta a pesquisa "Hábitos Culturais pós pandemia e reabertura das atividades culturais. O estudo desenvolvido pelo Itaú Cultural e Datafolha ouviu 1.521 pessoas entre os dias 5 e 14 de setembro. 66% dos entrevistados querem atividades culturais quando houver relaxamento das restrições de convívio social, detalha o levantamento. 

No entanto, atividades em locais fechados terão maior dificuldade de atrair público. 56% negaram visitar lugares com estas condições. 39% disseram que participariam. Já os locais abertos têm preferência. 84% disseram que visitariam, contra 12% que desconsideram a hipótese. 

O estudo também avalia o que a população espera, no sentido de protocolos, dos espaços culturais. Para 17%, apenas a disponibilização de uma vacina para a Covid-19 pode dissipar o medo. Distanciamento, ter espaço e evitar aglomerações é o procedimento mais mencionado pelos entrevistados (58%). Uso de máscara e adoção correta do equipamento de proteção aparecem com 55%. Ter equipamentos para higienização dos visitantes (53%) é outra demanda. 

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Legenda: Sem acontecer desde 2018, o Festival Maloca Dragão continua nos planos dos gestores do CDMAC para 2021. Formato ainda não foi definido
Foto: JL Rosa

A pesquisa foi apresentada via coletiva virtual e contou com as participações de Eduardo Saron, diretor do Itaú Cultural, e Paulo Alves, gerente de pesquisa de mercado do Datafolha. Nas palavras dos idealizadores, estes dados ajudam a construir as estratégias desse retorno das programações culturais.

“Amadurecer, como setor cultural, a capacidade de entender melhor isso nas nossas ações. Qual o desejo e intenção dessas pessoas. Compreender o vínculo por meio da arte e da cultura, sem colocar em risco segurança de público, trabalhadores dos espaços culturais e artistas”, explica Eduardo Saron. 

Ação

A retomada cuidadosa das atividades culturais segue em andamento, argumenta o diretor-executivo da Casa da Vovó Dedé, Wagner Barbosa. Diante das exigências, o organizador explica que o planejamento deve prosseguir até o próximo ano. 

Barbosa detalha que a instituição já organizou, entre outras medidas, barreiras sanitárias, aferição de temperatura, uso obrigatório de máscara e totens com álcool em gel. Alguns cursos estão sendo realizados com a metade da capacidade normal.

“A previsão para 2021 é que possamos reiniciar todos os cursos mantendo as medidas de proteção e revezando os horários dos estudantes. Estamos realizando um recadastramento de todos os alunos identificando as crianças e jovens que moram com parentes pertencentes a grupos de risco”, detalha o gestor.

Segundo o pesquisador e professor de filosofia, Mateus Uchôa (34), por conta dos estudos e da docência o "confinamento" não teve um peso tão grande. O entrevistado segue rigidamente o isolamentoa. Recentemente, optou por ir à praia do Poço da Draga para atividades físicas e banho de mar.

"De forma alguma me sinto tranquilo para retomar qualquer 'normalidade' ainda esse ano. A pandemia não acabou. Não se trata da imprudência de certos espaços com a segurança sanitária, mas percebo um crescente negacionismo nas pessoas acerca da gravidade e do alto risco à vida deste momento. Não me vejo frequentando atividades que não sejam a céu aberto e distanciamento social fora do meu círculo familiar", conclui Mateus Uchôa.

 



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