Entre lendas e fatos: as histórias não contadas da cidade-fantasma do sertão cearense

O município de Cococi foi extinto. Restou povoado deserto, duas famílias residentes no distrito, casarões abandonados e ruínas a ecoar lendas no sertão. As vivências de lá tornam viva a memória do lugar

Escrito por Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
23 de Janeiro de 2022 - 09:00
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Legenda: Vista da casa de uma das personagens do podcast, Nilda Lô: muitas histórias para além das ruínas
Foto: Jayanne Rodrigues

A cidade foi amaldiçoada por um padre. O infortúnio nasceu da disputa entre o religioso e uma importante família do lugar. Por isso, quando um dos primogênitos do clã faleceu, transformou-se em serpente. No túmulo, para que não escapasse e tirasse o sossego de todos, sempre precisavam amarrar correntes e passar cimento em cima, vigas de ferro. Havia perigo de que o caixão rompesse.

Essa é a versão do imaginário popular sobre o abandono de Cococi. O local pode ser denominado de várias formas – povoação deserta, cidade-fantasma, território extinto. Mas há mais.

São muitas histórias por trás do cenário em ruínas, resultado de processos que culminaram no apagamento do município cearense, localizado no Sertão dos Inhamuns, em 1979. Desde essa época, ele se tornou um distrito de Parambu, a cerca de 37 quilômetros do local, e luta para manter viva a memória.

Lançado recentemente no site oficial e nas plataformas digitais, o podcast “As Histórias Não Contadas do Cococi” surge com o objetivo de resgatar as narrativas da região quase perdidas no tempo, não fosse o relato dos próprios moradores. O princípio, assim, é recontar a trajetória dessa localidade a partir de testemunhos inéditos, afugentando os estereótipos que o cercam.

Um dos comentários à boca pequena, por exemplo, é de que os espaços de festa na antiga cidade se chamavam "O Galo" e "A Galinha". Em um, apenas homens frequentavam; no outro, somente mulheres. Outra questão presente na série de podcasts é a dúvida acerca da própria formação de Cococi. Como o aglomerado de fazendas de uma única família acaba se configurando como um município? 

A curiosidade também se materializa em detalhes políticos. A última eleição do Cococi, em 1966, teve um diferencial: apenas 378 votos, um branco e sete nulos, para uma população com aproximadamente dois mil eleitores. Essa conta que não fecha é explicada com rigor técnico no trabalho, bem como a história de seu Luís Quililiu, falecido durante a produção do projeto, aos 85 anos. 

Varanda da casa em que Nilda Lô vive há 12 anos, localizada no Cococi
Legenda: Varanda da casa em que Nilda Lô vive há 12 anos, localizada no Cococi
Foto: Jayanne Rodrigues

Figura importante, viveu várias fases do distrito. Foi vaqueiro, agricultor e confeccionou malas de couro para a elite da região. No podcast, é a neta dele, Rejane, quem aprofunda a narrativa do homem. "Deixou um legado muito grande porque sempre morou nessa região. Na verdade, ele nasceu e se criou muito próximo do Cococi. O lugar que ele morou mais longe da sede do Cococi foi em Juá, a uns 18 quilômetros. Tudo dele era muito ligado à aquela comunidade, então vivenciou muita coisa, momentos bons e ruins".

Valor à pluralidade

No total, a produção em áudio, realizada durante a pandemia de Covid-19, é dividida em três episódios: “A sentença”, “Nilda e a casa” e “Quem volta”. À frente do projeto, está a jornalista Jayanne Rodrigues, 25, do município de Tauá. Ela se valeu dos enigmas de Cococi para compor o Trabalho de Conclusão de Curso de Jornalismo em Multimeios da Universidade do Estado da Bahia (Uneb), Campus III – Juazeiro.

Atualmente, a sede do distrito vive em estado de abandono. Conforme a jornalista, os problemas estruturais não são apenas fruto dos efeitos do tempo, mas principalmente do descaso público, que facilita o esquecimento do lugar. As duas famílias moradoras na vila precisam buscar água em outras localidades para saciar a sede, fazer comida e tomar banho. O motivo do deslocamento é a péssima qualidade da água do poço local.

“A igreja da localidade ainda está intacta graças à dedicação das comunidades pertencentes à área territorial do Cococi. Elas também são responsáveis por realizarem anualmente a tradicional novena dedicada à Nossa Senhora Imaculada da Conceição, festa religiosa que há mais de 250 anos é mantida pelo povo”, enumera.

“Na década de 1970, Cococi estava prestes a completar 12 anos como cidade. No entanto, a marca não foi possível porque o governo federal descobriu casos de corrupção. Toda a área correspondente ao local é de propriedade privada da família Feitosa. Quando esse assunto veio à tona para o poder público, foi emitido, por meio do Diário Oficial da União, a notícia de que o município deveria ser rebaixado para distrito”.
Jayanne Rodrigues
Jornalista

Apesar das próprias particularidades, o povoado se assemelha a várias localidades rurais do interior cearense – indo desde a vegetação típica do semiárido brasileiro, o vai e vem de pessoas de comunidades vizinhas, o telefone rural até a popularização da tecnologia, a exemplo de wi-fi. Afinal, viver na vila do Cococi não significa estado de retrocesso.

“Agora, mesmo que o atrativo principal sejam as ruínas, há muita história por trás das paredes rachadas. Por isso, defendo que é uma narrativa que precisa ser contada de maneira plural, levando em consideração as vozes que se extrapolam para além do monopólio de uma família”, defende a jornalista.

Registro da exposição
Ruínas da cidade-fantasma de Cococi, em janeiro de 2015
Registro da exposição
Ruínas da cidade-fantasma de Cococi, em janeiro de 2015
Registro da exposição
Ruínas da cidade-fantasma de Cococi, em janeiro de 2015

Referências e curiosidades

O primeiro episódio do podcast, “A sentença”, responde algumas perguntas de caráter definidor para a existência do local: Por qual motivo o município se tornou uma povoação abandonada? Quem são as pessoas responsáveis por trazer novos fatos dessa narrativa hoje?

“Nilda e a casa”, por sua vez, segundo episódio, mergulha na trajetória pessoal de uma das únicas habitantes do distrito, ao passo que "Quem volta” finaliza a série com a seguinte questão: Como a devoção popular pode ser uma ferramenta para preservar a memória de um local? A partir daí, a produção envereda pela festa de Nossa Senhora Imaculada Conceição, padroeira de Cococi, responsável por renovar a fé dos moradores e manter pulsante a história do vilarejo.

“No podcast, tentei contar a história do Cococi a partir dos relatos pessoais dos moradores. Acredito ser essencial diversificar a escuta de fontes. Deixar para trás aquela pergunta do senso comum, ‘Por que você mora aqui?’, e partir para uma conversa intimista e generosa. Foi com essa perspectiva que encontrei, nas trajetórias das pessoas, muitas semelhanças com a minha vida”, detalha Jayanne.

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