Cordel e repente: diferentes gerações em diálogo para perpetuar a cultura popular

Durante encontro em Quixeramobim, Geraldo Amâncio, Bruno Paulino e Guilherme Nobre dimensionaram a potência do fazer artístico em voz e verso

Matéria por  Diego Barbosa
27 de Julho de 2019 - 14:26
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A escuta atenta do público reunido na Praça da Matriz de Quixeramobim, na noite da última sexta-feira (26), não negou: o cordel e o repente continuam vivíssimos e são capazes de arrastar multidões. Duas das linguagens mais tradicionais da cultura popular cearense ganharam destaque na programação da primeira edição da Mostra Sesc de Culturas Sertão Central, estreitando os laços com nossas raízes em voz e verso e pondo, em diálogo, diferentes gerações de poetas, cantadores e repentistas.

Nesse movimento, o Diário do Nordeste reuniu três representantes de distintas idades e trabalhos no segmento com vistas a bradar a relevância desse fazer artístico milenar. Mestre da Cultura e um dos mais importantes nomes na seara, o cantador, violeiro, poeta e escritor Geraldo Amâncio comentou sobre como o cordel e a cantoria – atividade esta que exerce há 55 anos – chegam às novas gerações. “Vejo que estamos em uma boa fase”, analisou.

“Como sou bem antigo, conheci o cordel num momento apagado, em que se produzia pouco ou com menor alcance. Depois, começaram a surgir grandes talentos, como Bruno Paulino, Klévisson Viana e Arievaldo Viana, que mudaram essa história, estão levando-a pra frente. Junto com isso, a própria cantoria avançou. Nos anos 1950, ela não foi essas coisas todas, mas apareceram artistas que urbanizaram essa arte e a fizeram ganhar novas praças”, completou.

Conforme Amâncio, a cantoria, há um século, só existia no contexto interiorano, campestre. A partir do êxodo rural observado no território cearense em diferentes épocas da história, a viola acompanhou o povo e culminou em novas maneiras de ressignificar o ato. “Modéstia à parte, até contribuí uma porção, já que, até então, não existia cantoria na televisão e, durante 19 anos, fiz com que ela ganhasse as casas. Quando as janelas da mídia e das pessoas se abrem, especialmente para a cultura popular, é uma bênção”.

Sertão e sentimento

Citado na fala de Geraldo, Bruno Paulino – natural de Quixeramobim e um dos mais ativos fomentadores da arte tradicional cearense na literatura, a partir da autoria e organização de diversos livros na área – observou que o sertão não é mais apenas uma geografia. 

“Geraldo tem razão ao dizer que o cordel vive uma boa fase. Ele se transforma. Deixa de estar só naquele formatinho comum, de folheto, do A4 dobrado, e passa a estar nos livros. Hoje ele é impresso, tem uma diagramação interessante, com propostas de ilustração para além da xilogravura, e isso abre novas perspectivas sobre os trabalhos. Torna o contexto sertanejo mais que uma zona geográfica, mas efetivamente um sentimento”.

Ao mesmo tempo, considerou que há aqueles que ainda resistem às formas mais tradicionais de se produzir cordel, o que é igualmente importante para estreitar a conexão com o que está sendo feito no contexto contemporâneo. 

Por sua vez, ao rememorar o fato de o cordel ter sido recentemente recebido o título de Patrimônio Cultural Imaterial Brasileiro pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Nacional (Iphan), em setembro do ano passado, Bruno ponderou algumas questões.

 “Isso às vezes é perigoso. Sei que o título é honroso, mas não sei se os cordelistas querem. A efeito de burocracia, vamos pensar: existe um formato real do cordel? Quem pode ser contemplado, por exemplo, num projeto do governo federal? É um cordel que é ilustrado, feito com xilogravuras ou saído por uma editora? Tudo isso pode ser refletido a partir desse título. Ele já aceita essa dinâmica plural dessa arte?”.

Fomento

Com apenas 18 anos, o cantador urbano Guilherme Nobre, ao pertencer à nova safra de artistas da região no segmento, destaca a necessidade de observar as manifestações tradicionais da cultura cearense sob outro ângulo. 

“Esse movimento em Quixeramobim foi fantástico para a gente mostrar que a cantoria não é uma coisa simples ou sonolenta: é algo que pode envolver o público, a partir da cultura popular e do improviso de uma arte milenar. Todo mundo cantou, participou, aplaudiu, e isso para a gente é uma felicidade, para mostrar que a arte está continuando com toda a força”, comemorou.

Ele, que despertou para o trabalho no ramo assistindo aos programas em que Geraldo Amâncio participava, também percebe a necessidade de unir as duas pontas: novos e antigos fazedores artísticos em franca dinâmica de mergulho. “Passei a me encaixar nesse meio até me profissionalizar e sigo aprendendo bastante com quem me deu a base para começar”.
 



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