Brazilian phonk: conheça estilo de funk que deixou o Brasil em evidência no exterior em 2023

Dos cinco artistas brasileiros mais ouvidos em outros países, três são representantes do phonk

Matéria por  Ana Beatriz Caldas
27 de Dezembro de 2023 - 09:36
capa da noticia

Com o fim do ano se aproximando, as listas de álbuns, músicas e artistas mais ouvidos de 2023 ganharam destaque. Uma das mais famosas e esperadas, a retrospectiva do Spotify apontou que, enquanto o sertanejo segue dominando o ranking de artistas mais ouvidos no País, há outro gênero musical chamando a atenção para o Brasil no exterior: o brazilian phonk.

De acordo com a lista, o phonk brasileiro foi o ritmo nacional mais ouvido em países estrangeiros. A música mais tocada, MONTAGEM - PR Funk, de Mc GW, Mc Menor do Alvorada e S3BZS, é uma das mais conhecidas do gênero mundialmente, e o número de playlists focadas no gênero também despontou desde o início do ano.

Além disso, dos cinco artistas brasileiros mais ouvidos lá fora, três fizeram sucesso com hits de phonk: logo após Alok (1º do ranking) e Anitta (2ª na lista), vieram Crazy Mano (em 3º lugar), MC GW (em 4º) e MC Menor do Alvorada (em 5º). Os ouvintes são de diversos países ao redor do globo, mas a audiência do Leste Europeu e do Oriente Médio se destaca – e é formada especialmente por ouvintes jovens, das gerações Z e millennial.

O termo “brazilian phonk” já fazia algum sucesso nas redes sociais desde o ano passado, mas ficou mundialmente conhecido após o norueguês Slowboy lançar a música “Brazilian Phonk Mano” em janeiro deste ano

Por ser enérgico e com beats potentes, é comum encontrar o phonk como trilha sonora de vídeos nas redes sociais, o que o fez se popularizar em diversas comunidades virtuais, dos fisiculturistas aos gamers. Só no TikTok, a hashtag #brazilianphonk teve 3.1 bilhões de visualizações e milhões de áudios do gênero foram compartilhados durante todo o ano. 

A plataforma é considerada a principal responsável pela circulação do phonk brasileiro – é quase impossível rolar pela timeline sem passar por um vídeo com músicas como “Sequência da Dz7” (TRA$HXRL e MC Menor do Alvorada), “Entre 4 paredes” (MC GW e S3BZS) e “Ritmadinha dançante” (DJ Gudog), utilizada em mais de 3 milhões de vídeos curtos, inclusive perfis de grande alcance, como o da Champions League.

Assim com o dj Slowboy, outros artistas estrangeiros, como o britânico Kordhell e o israelense Nueki têm sido impulsionadores e divulgadores das batidas brasileiras globalmente – muitas vezes fazendo feats e referências diretas aos funkeiros brasileiros de sucesso, verdadeiros “guardiões” do sucesso do gênero.

Existe diferença entre brazilian phonk e funk brasileiro?

Capa do single 'Tropa do Platinado', novo single do MC Menor do Alvorada; imagens de divulgação do phonk são símbolo do gênero
Legenda: Capa do single 'Tropa do Platinado', novo single do MC Menor do Alvorada; imagens de divulgação do phonk são símbolo do gênero
Foto: Divulgação

Com o aumento da busca pelo termo nas redes e plataformas, surgiu o questionamento sobre o que diferencia o brazilian phonk do funk que já conhecíamos.

A vertente, cujo nome parece apenas uma tradução para o inglês de “funk brasileiro”, na verdade é considerada um estilo do funk que reúne características de vários subgêneros do ritmo, como o mandelão, o bruxaria e o automotivo, pitadas de techno e forte inspiração no Memphis rap, subgênero do hip hop norte-americano.

O som do brazilian phonk é descrito por muitos entusiastas como “uma explosão”. Suas principais características são o uso de samples, graves pesados, a distorção das vozes dos artistas e o uso de batidas eletrônicas. Geralmente, as faixas são remixadas em diferentes versões, como slowed e sped up.

Outra curiosidade é que, de maneira geral, os artistas do phonk não gravam videoclipes nem “dão cara” às canções: thumbs com imagens estáticas obscuras, que fazem referência a animes, são o símbolo desse estilo.

Um dos países que mais surpreendeu na audiência do brazilian phonk foi a Ucrânia. Em meados deste ano, mesmo durante a guerra, músicas de artistas como MC GW e a funkeira Bibi Babydoll viralizaram no TikTok com vídeos inesperados, como os de soldados dançando phonk no front

Das redes sociais às gravadoras

MC Menor assinou contrato com a Universal no início deste mês
Legenda: MC Menor assinou contrato com a Universal no início deste mês
Foto: Divulgação

Apesar de o brazilian phonk fazer mais sucesso fora do que dentro do País atualmente, gravadoras começaram a entender que os artistas brasileiros do gênero tem potencial de crescimento para consumo externo e interno. No início deste mês, a Universal Music firmou seu contrato com o MC Menor do Alvorada, cantor paulista de 21 anos que esteve no pódio de diversos rankings musicais em 2023.

O funkeiro começou a cantar aos 11 anos, quando ainda gostava mais de pagode que de funk. Em 2019, começou a lançar as primeiras músicas de sucesso, como “Beat Trava Pulmão” e “Sequência da Dz7”, que anos mais tarde seria remixada e o levaria a um novo direcionamento de carreira: deixar o funk dos fluxos de São Paulo e focar nos beats pesados do phonk.

“O pessoal começou a usar minhas músicas para jogar Fortnite, para fazer edit jogando, edit de futebol, de carro. Começou na gringa, e até o Real Madrid e a Champions League já usaram a ‘Sequência da Dz7”, comemora. Para ele, o ritmo se destaca por dar “força e energia” a quem escuta, o que o faz ser associado a situações de diversão, esporte e lazer.

Apesar do sucesso nas redes, MC Menor nem imaginava que, após um ano trabalhando com o brazilian phonk, seria um dos artistas brasileiros mais escutados no mundo. Além de fazer sucesso na terra natal, o funkeiro conta com o público de mais de 50 países, com destaque para Suíça, Ucrânia e China.

“Isso não estava nos meus planos. Fiquei bem impressionado, porque foi de repente, mas ao mesmo tempo não foi da noite para o dia, porque eu trabalhei muito antes. Mas o pessoal da gringa abraçou de tal maneira que, se você for ver, os comentários [nos vídeos] são todos em inglês”, explica.

Para dar início à nova fase da carreira, ele lança novo EP nesta sexta-feira (29), intitulado “Tropa do Platinado”. Já em 2024, o artista pretende lançar um álbum inteiro de phonk e estruturar uma turnê no Brasil e na Europa. Antes dos shows presenciais, no entanto, um evento para quem o consagrou – o público da internet – ocorre no Metaverso, em janeiro.

Novo gênero ou gourmetização?

Bruno Ramos é articulador nacional do movimento funk
Legenda: Bruno Ramos é articulador nacional do movimento funk
Foto: João Wainer

Junto ao sucesso do brazilian phonk no último ano, um debate surgiu: seria o termo uma forma de artistas estrangeiros se apropriarem de um gênero que é tipicamente da cultura brasileira, negra e periférica? E por que não usar a grafia original?

Não há um consenso, mas há quem veja mais vantagens no que problemas. O MC Menor do Alvorada, por exemplo, acredita que não há problema na produção estrangeira quando, como costuma ocorrer, o funk brasileiro é colocado como referência

“Eu gosto, porque estamos acostumados a ver muitos artistas brasileiros se inspirando nos de fora. Ver que os gringos estão começando a olhar para nós, do funk do Brasil, é ótimo, porque abre a porta para gravações e parcerias”, afirma.

O pesquisador e articulador nacional do movimento funk Bruno Ramos concorda com o MC e não acredita em “gourmetização”, mas que o nome foi modificado para facilitar a pronúncia e circulação lá fora, o que resultou na viralização do funk nas redes sociais. 

Ele conta que não vê “muita distinção” entre o funk e o brazilian phonk, apenas enxerga o estilo como uma nova “frequência territorial” – assim como ocorre no País, em que cada localidade possui seu jeito de fazer funk.

“Sinto que as pessoas acham que o que ocorreu com outros segmentos que foram apropriados e embranquecidos – como o jazz, o rock, o blues, o rap e o próprio samba – vai ocorrer com o funk”, explica. “Mas o problema da apropriação é quando as pessoas que criam esse movimento não ganham dinheiro e, nesse caso, eles continuam ganhando. O funk tem hackeado o sistema e gerado oportunidades de trabalho”.

Funk como soft power

Bruno, que também é Relações Públicas e Governamentais da GR6, uma das grandes produtoras de música urbana do País, acredita que o brazilian phonk é uma oportunidade de fortalecimento do funk brasileiro como um soft power do País – algo que já vem ocorrendo há pelo menos cinco anos, a exemplo do sucesso global de hits como “Bum Bum Tam Tam” (MC Fioti) e “Baile de Favela” (MC João). 

Ele compara o que ocorre com o gênero atualmente com o que ocorreu com o k-pop, da Coreia do Sul, inclusive no público que mais se interessa e engaja com ambos: o público jovem. E ressalta que os artistas do funk têm conseguido manter a conexão com as novas gerações.

“Já são cinco décadas em que o funk está se modificando, e ele também acompanha as modificações tecnológicas e globais.  Cabe a nós ajudar a manter essa cultura do jeito que ela é, sem perder as características essenciais, mas também sem engessar”, ressalta.



Você atingiu o limite de matérias gratuitas desse mês, adquira uma assinatura digital para desbloquear esta notícia e mais do melhor jornalismo local

Já é assinante? Entre com sua conta
Logo

Tenha acesso ilimitado ao maior portal de notícias do Nordeste

DN FREE

Crie uma conta gratuita e desbloqueie o conteúdo completo.
Gratuito
Acesse mais conteúdos de forma gratuita
Fique conectado às principais notícias e assuntos que movimentam o Nordeste
Explore conteúdos com credibilidade e mantenha-se sempre bem informado

DN MENSAL

Acesso ilimitado a todo conteúdo digital.
R$ 1200 /mês

Tudo do plano gratuito, e:

App Diário do Nordeste
Diário do Nordeste: Assinatura Digital
Diário do Nordeste: Assinatura Física

DN ANUAL

60 dias gratuitos. Acesso ilimitado a todo conteúdo digital.
R$ 12000 /ano

Tudo do plano gratuito, e:

Diário do Nordeste: Assinatura Digital

Teste Cartão Rede

Teste Cartão
R$ 1000 /mês

Tudo do plano gratuito, e:

Teste Limitação

Teste-teste
R$ 990 /mês

Tudo do plano gratuito, e:

Diário do Nordeste: Assinatura Digital

Precisa de Ajuda?

Entre em contato com a nossa central de atendimento: