A Mandíbula de Caim, livro-sensação do TikTok, só foi resolvido por 4 pessoas; você conseguiria?

Obra foi relançada no fim de 2022 e tem dado o que falar pela (quase) impossibilidade de resolver a trama; engajamento do público na internet impressiona pela criatividade

Matéria por  Diego Barbosa
24 de Janeiro de 2023 - 10:00
capa da noticia

Seis assassinatos. Milhões de combinações possíveis. Apenas uma é a correta. A sinopse é de “A Mandíbula de Caim”, livro-sensação da internet nos últimos meses. O motivo: a (quase) impossibilidade de resolução do mistério. Para você ter uma ideia, as chances realmente são mínimas: 32 milhões de possibilidades espalhadas pelas 100 páginas. Quem consegue?

Em todo o mundo, apenas quatro pessoas atingiram o feito – mesmo depois de 90 anos da publicação original do romance. Explica-se: no fim de 2022, a obra do inglês Edward Powys Mathers (1892-1939), sob o pseudônimo de Torquemada, foi relançada no Brasil pela editora Intrínseca. Impulsionado pelo Tik Tok, tornou-se um fenômeno. Agora, além de protagonizar vídeos e posts, tem gerado engajamento matemático e intelectual.

Vamos aos detalhes. Em 1934, Powys Mathers – um compilador de palavras cruzadas do jornal The Observer – escreveu o livro em questão, uma referência à primeira arma assassina de que se tem notícia. A priori, a história pareceu apenas mais um suspense policial. No entanto, à medida que o enredo se desenvolvia, o público se viu diante de um dos quebra-cabeças mais intrigantes já publicados.

Edição brasileira conta com páginas destacáveis para ajudar na solução do mistério: um livro-objeto
Legenda: Edição brasileira conta com páginas destacáveis para ajudar na solução do mistério: um livro-objeto
Foto: Divulgação

Não à toa, o comentário estampado na capa: “Se Agatha Christie e James Joyce tivessem um filho literário bastardo, seria este livro”. É que os leitores precisam identificar seis assassinatos distribuídos em 100 páginas impressas em ordem totalmente aleatória. 

Apenas com muita lógica e leitura atenta pode-se organizá-las na progressão correta, de modo que se revelem as vítimas e os respectivos algozes. Tarefa árdua e que, por isso mesmo, está cheia de recompensas para quem conseguir.

Estímulo não falta 

Além de todo o mistério envolvendo o livro em si, impressiona o engajamento que a obra tem provocado nas redes sociais. Diversos perfis literários no TikTok mostram aos seguidores o desafio de resolver a trama. São diferentes métodos, estratégias e curiosidades para que mais gente se sinta convidado a participar da empreitada.

Em alguns vídeos, os influenciadores comentam que até animais narram determinadas passagens do romance, o que embaralha ainda mais a mente. Para completar, personagens com nomes semelhantes ou com variações mínimas reforçam essa complexidade do enredo. Como não se envolver?

Com as páginas destacáveis do livro, dá para montar um verdadeiro mural de investigação, estilo FBI
Legenda: Com as páginas destacáveis do livro, dá para montar um verdadeiro mural de investigação, estilo FBI
Foto: Divulgação

A própria forma de publicação da obra otimiza essa aderência coletiva – sobretudo por parte dos jovens. A edição brasileira conta com páginas destacáveis para ajudar na solução do mistério. Um livro-objeto. Dá para montar um verdadeiro mural de investigação, estilo FBI. No entanto, quem não quiser desmontar a brochura, pode anotar e grifar à vontade.

Além disso, logo no início da publicação, há uma folha de respostas para ser preenchida por quem acha que solucionou o enigma. Com o “gabarito” em mãos, o próximo passo é enviar para a editora, pelos Correios ou pelo site

O vencedor ou vencedora do concurso – com direito a conhecer a sede da Intrínseca, no Rio de Janeiro – será a primeira pessoa que enviar a folha de respostas original corretamente preenchida e contendo todos os acervos previstos no gabarito do quebra-cabeça da obra. 

Para manter as ideias originais do autor, todos os cuidados foram tomados durante o processo de tradução e edição do livro, que contou com a participação de um especialista na obra e a colaboração entre editores e tradutores de diversos países.

Alcance tremendo

Desde o lançamento, no último mês de dezembro, “A Mandíbula de Caim” vendeu mais de 60 mil exemplares em menos de 20 dias. Várias pessoas entraram para a “trend” nas redes sociais, compartilhando as experiências com o livro. 

As duas primeiras pessoas a resolverem o mistério, ainda nos anos 1930, foram Sydney-Turner e WS Kennedy. Eles ganharam 25 libras na ocasião, segundo o The Guardian.

Oito décadas depois, Patrick Wildgust – curador do museu Shandy Hall, em North Yorkshire (ING) – resolveu o problema após a Laurence Sterne Trust, instituição de caridade criada para promover os escritos do romancista Laurence Sterne, receber uma cópia do livro. 

Várias pessoas entraram para a “trend” nas redes sociais, compartilhando as experiências com o livro
Legenda: Várias pessoas entraram para a “trend” nas redes sociais, compartilhando as experiências com o livro
Foto: Divulgação

Por fim, o comediante John Finnemore foi o felizardo em 2020, durante um concurso promovido por uma editora inglesa. O livro, inclusive, voltou a bombar após uma tiktoker encontrá-lo na livraria, em 2021, e ficar intrigada para resolver o enigma. Ela postou um vídeo na rede social relatando a experiência e nem imaginava a repercussão.

No Skoob – rede social voltada para literatura – alguns leitores deram dicas para ajudar a pelo menos chegar perto da solução. Eles classificaram a obra como “confusa, mas incrível”.

A sequência correta do enigma está em posse da editora britânica responsável pelo livro, a Unboud.

 

A Mandíbula de Caim
Torquemada
Tradução de Myra Marple 

Intrínseca
2022, 216 páginas
R$49,65



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