A arqueóloga Niède Guidon morreu durante a madrugada desta quarta-feira (4), aos 92 anos. O falecimento foi anunciado nas redes sociais do Parque Nacional Serra da Capivara, no Piauí, e da Prefeitura Municipal de Coronel José Dias (PI). A causa do falecimento não foi revelada.
Niède Guidon foi uma das mais destacadas defensoras do patrimônio histórico do Brasil. Ela dedicou a vida à pesquisa e à preservação do Parque Nacional da Serra da Capivara, revelando ao mundo pinturas rupestres que transformaram o conhecimento sobre o povoamento das Américas.
Nascida em Jaú, interior de São Paulo, em 12 de março de 1933, Niède Guidon formou-se em História Natural na Universidade de São Paulo (USP), em 1959, e fez especialização em Arqueologia Pré-Histórica na Universidade Paris-Sorbonne, curso que terminou em 1962.
Concluiu o doutorado em 1975, também na Sorbonne, apresentando tese sobre as pinturas rupestres de Várzea Grande, no Piauí, estado em que passou a maior parte da carreira como cientista.
Pesquisas dela contribuíram para a criação do Parque Nacional da Serra da Capivara, em 1979, território com o maior número de sítios arqueológicos das Américas e considerado um patrimônio cultural da humanidade pela Unesco.
Estudo da presença humana pré-histórica na região do Piauí
A partir da exploração dos sítios arqueológicos no Piauí e das datações realizadas na Serra da Capivara, que indicaram a existência de ossadas humanas de 15 mil anos, pinturas rupestres de 35 mil anos e restos de fogueiras de 48 mil anos, Guidon levantou a hipótese de que os humanos teriam chegado ao continente americano pela África.
A conclusão aconteceu após a equipe liderada por Guidon analisar mais de 1,3 mil registros de presença humana pré-histórica na região do Piauí.
Segundo a pesquisadora, em citação publicada em artigo assinado por Marcos Pivetta, na Revista Pesquisa Fapesp, em abril de 2008, o material arqueológico resgatado no Piauí até o início dos anos 2000 indica que o homem chegou à região há cerca de 100 mil anos.
Em 2020, após cinco décadas de estudo in loco no Piauí, a pesquisadora se aposentou. A carreira premiada foi concluída com o recebimento do Prêmio Almirante Álvaro Alberto.
Cidade natal declara luto de três dias
A Prefeitura Municipal de Coronel José Dias lamentou a partida da pesquisadora e declarou luto oficial de três dias.
"Com coragem, visão e dedicação incansável, Dra. Niède foi a grande responsável por revelar ao mundo a grandiosidade arqueológica do nosso território, lutando com firmeza pela criação, preservação e valorização do Parque Nacional Serra da Capivara, patrimônio que transformou Coronel José Dias em referência turística. Seu trabalho ultrapassou os limites da ciência e da arqueologia. Seu legado permanecerá vivo entre nós, nas trilhas do Parque, nas mãos dos artesãos e operadores do turismo, no saber transmitido às novas gerações", informou o município de Coronel José Dias por nota.
A direção do Parque Nacional da Serra da Capivara também usou as redes sociais para homenagear Guidon:
"Niède foi uma das maiores defensoras do patrimônio histórico brasileiro. Dedicou sua vida à pesquisa e à preservação do Parque Nacional da Serra da Capivara, no Piauí — onde revelou ao mundo pinturas rupestres que mudaram o que se sabia sobre o povoamento das Américas. Com coragem, paixão e compromisso com a ciência, fundou a Fundação Museu do Homem Americano (FUMDHAM) e lutou por décadas para proteger e divulgar a riqueza arqueológica do Brasil", declarou a instituição.