Ex-gerente bancário e PMs são denunciados por extorsão a dono de lava-jato em Fortaleza

Um dos policiais militares também foi acusado de porte ilegal de arma de fogo. MPCE não denunciou trio por associação criminosa

Matéria por  Messias Borges
10 de Março de 2022 - 09:30
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Um ex-gerente bancário e dois policiais militares foram denunciados pelo Ministério Público do Ceará (MPCE), na última segunda-feira (7), pelo crime de extorsão, cometido contra um dono de um lava-jato, em Fortaleza, em fevereiro deste ano. Um dos PMs ainda foi acusado de porte ilegal de arma de fogo.

O MPCE pediu à 9ª Vara Criminal de Fortaleza, da Justiça Estadual, que o ex-bancário Clécio Soares Neto (hoje empresário do ramo de revenda de veículos) e os soldados Francisco Rodrigues de Lima Neto e Ítalo Eugênio Parente Silveira sejam condenados por extorsão, com restrição de liberdade da vítima como condição para a obtenção de vantagem econômica, que tem pena prevista de 6 a 12 anos de reclusão.

Ítalo Eugênio ainda pode ter a pena acrescida de 2 a 4 anos de reclusão, por estar armado no momento do flagrante. As defesas dos acusados não foram localizadas para comentar a denúncia.

O dono do lava jato afirmou à Delegacia de Assuntos Internos (DAI), da Controladoria Geral de Disciplina dos Órgãos de Segurança Pública e Sistema Penitenciário (CGD), que, enquanto feito refém, também foi agredido e ameaçado de morte pelos acusados. Exame da Perícia Forense do Ceará (Pefoce) confirmou que a vítima sofreu ofensa à integridade corporal ou à saúde causada por objeto "contundente".

A materialidade dos delitos resta demonstrada pelo auto de apresentação e apreensão dos veículos, arma de fogo, aparelhos celulares e demais objetos, bem como pelo exame de corpo de delito realizado na vítima, onde foi constatada ofensa à sua integridade corporal produzida por meio de instrumento contundente ("Discreto edema na região molar esquerda"). A materialidade também restou demonstrada pelo termo de restituição dos bens da vítima. A autoria ficou comprovada pelos depoimentos prestados pelas testemunhas e vítima colhidos no inquérito."
Gustavo Pereira Jansen de Mello
Promotor de Justiça

Em contrapartida, o promotor de Justiça não viu indícios para denunciar o trio pelo delito de associação criminosa e pediu à Justiça o arquivamento da investigação policial referente a esse crime.

"Considerando o teor do interrogatório dos denunciados e pelo restante do conjunto probatório produzido na fase inquisitorial, não há indícios de que os denunciados mantinham associação estável e permanente para a prática de crimes, havendo elementos apenas de que os mesmos reuniram-se especificamente para cometer, em concurso de agentes, o crime contra o patrimônio ora apurado", justificou.

Dívida teria motivado extorsão

Em depoimento à DAI, o dono do lava-jato contou que havia comprado dois veículos, em um valor total de R$ 311 mil, na loja de revenda de veículos do ex-gerente bancário Clécio Soares Neto, sem contrato (apenas na negociação verbal). Ele afirmou que pagou as prestações normalmente e repassou um veículo para outra loja, localizada na Avenida José Bastos, em Fortaleza.

Na tarde de 16 de fevereiro último, Clécio teria chegado no lava-jato acompanhado de dois homens e dito à vítima "bora (vamos) ali resolver a situação do carro", ao passo que os outros homens levantaram as blusas e mostraram estar na posse de armas de fogo. O homem teve o celular subtraído pelo grupo e foi colocado em um carro, para ser levado até a loja da Avenida José Bastos.

No caminho, outro celular da vítima tocou, o que motivou um dos homens armados a pegar o aparelho e dar um tapa na cara dele. O homem detalhou que os suspeitos disseram que já sabiam de toda a sua vida, acessaram um sistema policial para obter os seus dados e o ameaçaram de morte.

O proprietário da loja da Avenida José Bastos não estava no local e, depois de esperarem um tempo, os três homens e o refém voltaram para o veículo, com direção ao lava-jato. Segundo a vítima, ocorreram mais agressões, os suspeitos obrigaram que ela fornecesse a senha do celular, tentaram acessar aplicativos bancários e, por fim, disseram que iam reiniciar os seus aparelhos celulares para vendê-los, a não ser que ela pagasse R$ 7 mil.

De volta ao lava-jato, os suspeitos teriam obrigado o homem a entregar dois veículos (uma Toyota Hilux e um Audi A4), com as transferências, e saíram do local. A Polícia foi acionada e começou a busca pelo trio.

Os dois veículos foram abordados por uma equipe do Comando de Policiamento de Rondas e Ações Intensivas Ostensivas (CPRaio), nas proximidades da Avenida Bezerra de Menezes, na Capital. Os automóveis estavam na posse de Clécio e de dois policiais militares, os soldados Francisco Rodrigues de Lima Neto e Ítalo Eugênio Parente Silveira, que negaram o cometimento de qualquer crime. 

O oficial que fiscalizava o policiamento da PMCE na Capital foi chamado pela equipe policial ao local e deu voz de prisão aos suspeitos. Além dos veículos, foram apreendidas duas pistolas calibre 380, aparelhos celulares, notebook e outros objetos. Clécio Soares, Francisco Rodrigues e Ítalo Eugênio foram levados à DAI e autuados em flagrante.

Suspeitos negam cometimento de crimes

Os suspeitos negaram à DAI que cometeram qualquer crime e trataram a denúncia como falsa. Clécio Soares alegou que o dono do lava-jato não quitou o pagamento de um veículo, como combinado, e também não realizou a transferência do automóvel para o nome dele, continuando no nome da irmã de Clécio, que passou a receber multas de trânsito e cobranças de impostos. 

O ex-gerente bancário justificou ainda que levou o outro homem à loja da Avenida José Bastos para receber outros veículos, como compensação às dívidas.

Já os policiais militares afirmaram aos investigadores que estavam apenas conduzindo os veículos para Clécio, que é amigo de Francisco.



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