Pleno do TRE-CE absolve Glêdson Bezerra por uso de aeronave para derramar santinhos

Foi julgado suposto abuso de poder econômico na campanha de 2020 em Juazeiro do Norte

Matéria por  Flávio Rovere
05 de Agosto de 2021 - 12:22
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O Tribunal Regional Eleitoral do Ceará (TRE-CE) reverteu, nesta quinta-feira (5), a decisão de primeira instância que determinava a cassação dos diplomas do prefeito de Juazeiro do Norte, Glêdson Bezerra (Podemos), e de seu vice, Giovanni Sampaio (Podemos) por abuso de poder econômico durante a campanha.

Por 5 votos a 2, o Pleno do TRE-CE rejeitou a tese do Ministério Público Eleitoral, que em junho enviou parecer ao Tribunal recomendando a manutenção da decisão do juiz da 28ª Zona Eleitoral do Ceará, Giacumuzaccara Campos. 

Os juízes Raimundo Nonato Santos, Eduardo Scorsafava e David Sombra, bem como o presidente do TRE, desembargador Inácio Cortez, acompanharam o voto da relatora, pelo indeferimento da denúncia de abuso de poder econômico. Já os magistrados George Lima e Roberto Viana votaram de forma divergente, corroborando com a denúncia.

O julgamento avaliou o uso de um helicóptero, pertencente ao empresário Gilmar Bender, filiado ao PDT e principal financiador da campanha de Glêdson, em dois momentos distintos da corrida eleitoral. No dia 24 de outubro, a aeronave teria feito derramamento de papel picado, antes e depois de uma carreata em favor do então candidato.

Já na noite de 14 de novembro, véspera do pleito, o mesmo helicóptero teria, de acordo com a decisão de primeira instância, sido usado para jogar panfletos pela cidade, com efeito de "tornar injusta e desproporcional a propaganda eleitoral”, segundo o juiz. 

O julgamento da Ação de Impugnação de Mandato Eletivo (Aime) se debruçou, ainda, sobre a denúncia de que os gastos relativos à aeronave não foram declarados oficialmente, e que, antes da carreata em questão, Gilmar Bender teria distribuído combustível gratuitamente aos apoiadores de campanha, também à margem da prestação de contas, segundo apontou a Procuradoria Regional Eleitoral. 

Relatora do processo, a juíza Kamile Castro julgou o mérito apontando que, em relação ao dia 14 de novembro, “não há nenhuma comprovação quanto à utilização do referido helicóptero, de propriedade do investigado Gilmar”. Ainda segundo a magistrada, “as imagens e vídeos não revelam de onde foram jogados os panfletos e santinhos retratados”. 

Glêdson Bezerra e Giovanni Sampaio venceram disputa acirrada nas eleições de 2020
Legenda: Glêdson Bezerra e Giovanni Sampaio venceram disputa acirrada nas eleições de 2020
Foto: Thiago Sousa/Divulgação

Quanto ao uso da aeronave na carreata, a juíza considerou “inconcebível que alguma vantagem tenha sido entendida pelo eleitorado local a partir de uma aparição de um helicóptero no dia 24 de outubro. O ato, de acordo com ela, ensejaria não a cassação dos diplomas, mas a aplicação de multa, sanção esta que já teria extrapolado o prazo de denúncia. 

Quanto à influência de Bender na eleição, Kamile Castro considerou que “a mera afinidade política ou a simples condição de correligionário não implica automática ciência ou participação do candidato na prática do ilícito”. 

Defesa do prefeito 

A defesa de Glêdson Bezerra contestou o uso do helicóptero como fator decisivo para a campanha. No primeiro momento, na carreata, o advogado Carpegiano Gonçalves alegou que foram “duas simples aparições” em um “ato voluntário” do apoiador Gilmar Bender, “sem gravidade qualificada” para influenciar no pleito.

“É evidente que a simples aparição de um helicóptero, em um evento político do tamanho de uma carreata, no início e no final deste evento, não tem a legitimidade necessária para afetar as eleições de uma cidade tão grande quanto Juazeiro do Norte”, argumentou. 

Em relação ao derramamento de panfletos na véspera do pleito, a defesa, mesmo não admitindo a atuação da aeronave e apontando falta de provas materiais sobre seu uso, afirma que o panfleto em questão promovia “informação” (a de que a candidatura de Gledson estava liberada) e não “desinformação aos eleitores”. O argumento foi acatado pela relatora. 

Das urnas ao Tribunal 

A defesa do ex-prefeito e candidato derrotado nas eleições, Arnon Bezerra (PTB), também esteve presente no julgamento. O advogado José Boaventura Filho exibiu vídeos que mostravam a proximidade de Bender e Glêdson, assim como a atuação direta do empresário na campanha do prefeito eleito. 

“Juazeiro é uma cidade grande, mas nós temos aqui somente dois helicópteros, e um pertence ao senhor Gilmar Bender. Além do que, não é comum a presença de um helicóptero em uma carreata”, disse o advogado em contestação ao argumento da defesa.

A eleição, portanto, teria sido, de acordo com o advogado, “viciada pela forte influência do abuso de poder econômico”.

Mesmo com a decisão favorável a Glêdson Bezerra e Giovanni Sampaio, ainda cabe recurso no Tribunal Superior Eleitoral (TSE).



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