O que são as emendas impositivas e como elas alteram o mandato dos deputados estaduais do Ceará

Proposta de Camilo Santana (PT) destina R$ 1,5 milhões para cada um dos 43 deputados em forma de emendas obrigatórias

Matéria por  Felipe Azevedo
21 de Dezembro de 2021 - 06:00
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A Assembleia Legislativa do Ceará (AL-CE) está prestes a aprovar – dada a ampla base do governador Camilo Santana (PT) na Casa -, uma Proposta de Emenda Constitucional (PEC) que cria o orçamento impositivo, ou seja, torna obrigatória uma parcela do Orçamento destinada a partir de orientação dos parlamentares.

A expectativa é de que a proposta, a ser votada nesta terça-feira (21), resulte numa verba de R$ 1,5 milhão anuais em emendas para cada um dos deputados. Essa é uma demanda antiga entre os parlamentares e vem sendo comemorada por entrar na pauta às vésperas de ano eleitoral.  

De acordo com o líder do Governo na Casa, deputado Júlio César Filho (Cidadania), para que seja aplicado já no ano que vem, o projeto precisa ser aprovado antes da votação da Lei de Diretrizes Orçamentárias (LOA), prevista para o próximo dia 22.  Isso se dá porque a lei deverá ser executada atrelando a execução de emendas individuais dos deputados ao orçamento do Estado.  

Atualmente, o orçamento cearense é de caráter autorizativo, o que não implica obrigatoriedade do pagamento das despesas previstas na LOA. 

“Com essa modificação, obriga-se a execução de emendas individuais de deputados à LOA, que serão limitadas a 0,27% da receita corrente líquida prevista na Lei orçamentária, sendo que metade deste valor deverá ser obrigatoriamente destinado a saúde e educação (0,13%)”, explica ainda o deputado.  

Com a RCL em torno de R$ 25 bilhões, cada deputado terá direito ao valor aproximado de R$ 1,5 milhão em emendas impositivas, diretamente ligadas ao Orçamento do Estado.

Caso seja verificado que as receitas e despesas não resultarão na meta de resultado fiscal esperando, diminuindo a receita corrente líquida, os valores das emendas também poderão ser reduzidos proporcionalmente a diminuição da receita. 

O projeto foi apresentado pelo Executivo no último dia 15 de dezembro e, de acordo com o Regimento, tem até esta terça-feira (21) para ser votado.  

Já lida em plenário, a matéria teve pedido de vistas na reunião da Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) na segunda-feira (20) e deve voltar à pauta para nova apreciação. 

Os deputados Bruno Pedrosa (PP) e Fernanda Pessoa (PSDB) foram os autores do pedido de vista, uma prerrogativa regimental utilizada por parlamentares que desejam mais tempo para apreciar as matérias.  

Proposição inicialmente apresentada em 2015, o orçamento impositivo deve ser votado na terça (21)
Legenda: Proposição inicialmente apresentada em 2015, o orçamento impositivo deve ser votado na terça (21)
Foto: Felipe Azevedo

Histórico  

Apresentada ainda em 2015, pelo deputado Audic Mota (PSB), e reiterada por colegas parlamentares em 2019, a proposta mobiliza os deputados e, de acordo com avaliação interna, deve ser aprovada com amplo apoio.  

Ainda quando era presidente do Legislativo, José Sarto (PDT) - hoje prefeito de Fortaleza - sinalizou a meta de resolver a questão ainda em 2020. Com o surgimento pandemia de Covid-19 e as eleições municipais, a pauta perdeu força.  

Na PEC, o governo afirma que o orçamento impositivo busca "fortalecer a autonomia e reconhecer a importância do Legislativo cearense não só no seu papel de criador da norma, mas também de ator direto do processo de execução de políticas públicas essenciais ao bem-estar do cidadão". 

Deputado Audic Mota (PSD) é autor da PEC apresentada ainda em 2015, e agora rejeitada para dar espaço à proposta do Governo
Legenda: Deputado Audic Mota (PSD) é autor da PEC apresentada ainda em 2015, e agora rejeitada para dar espaço à proposta do Governo
Foto: Assembleia Legislativa

O que muda para os deputados? 

Para o deputado Walter Cavalcante (MDB), por exemplo, a porcentagem de 0,27% que resulta em cerca de R$ 1,5 milhões de emendas pode ser revista. O deputado pediu uma reunião com o líder do Governo, Júlio César Filho (Cidadania), para tratar do assunto.  

Da base do governo, Salmito Filho (PDT) parabenizou a iniciativa de Camilo Santana (PT), e disse que o gesto demonstra prestígio dos parlamentares junto ao governador.  

“O que pode mudar é que todos os parlamentares - independentemente de ser da base ou da oposição, poderão, de forma republicana e transparente, destinar recursos para equipamentos públicos, para reformas, benfeitorias de interesse da população”, analisa o parlamentar.  

Autor de uma PEC semelhante em 2015, Audic Mota (PSD) diz que a única diferença entre o texto apresentado a proposta do governo é o percentual que, dessa vez, será de 0,27% e não 0,9% como havia proposto.  

Por se tratarem de textos parecidos, a PEC apresentada por Audic foi rejeitada na CCJ.

“É uma técnica orçamentária que tem dado resultado no âmbito constitucional (...) isso vai impactar positivamente porque é a garantia de que a emenda para atender uma determinada categoria ou município vai obrigatoriamente ser executada”, exemplifica o parlamentar.  

Garantias à oposição

Autora do pedido de vistas na CCJ, Fernanda Pessoa (PSDB) afirmou precisar de mais tempo para analisar o texto. Do grupo de oposição, ela disse querer garantir que os deputados fora da base do governo serão atendidos de maneira igualitária.  

“Tem algumas emendas que a gente manda e que não são liberadas, a gente separa o recurso e os municípios ficam prejudicados; pedi vistas para analisar pra saber se realmente vão chegar aos municípios”, argumenta a parlamentar.  

Na oposição a Camilo, Renato Roseno (Psol) deverá apresentar uma emenda à PEC, para que, na sua avaliação, os parlamentares de oposição tenham as mesmas prerrogativas da base.  

“A Constituição determina execução equitativa para evitar preferências políticas, por exemplo”, argumenta o parlamentar, lembrando uma decisão de 2020 no Supremo Tribunal Federal.  



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