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Nos últimos 20 anos, Ceará acumula casos de prefeitos presos no exercício do mandato

Os motivos são diversos: vão do dano à administração pública à violência sexual contra munícipes

Escrito por Ingrid Campos ingrid.campos@svm.com.br
23 de Abril de 2023 - 07:00 (Atualizado às 16:03, em 18 de Maio de 2023)
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Legenda: Pacatuba (Carlomano Marques), Granjeiro (Ticiano Tomé), Uruburetama (José Hilson Paiva) e Pedra Branca (Antônio Gois), respectivamente, são alguns dos casos mais recentes.
Foto: Alece; Reprodução/Facebook; Natinho Rodrigues; Reprodução/Instagram

Indícios de uma possível fraude em contratos públicos motivaram a prisão do prefeito titular de Pacatuba, Carlomano Marques (MDB), e de outros ligados à gestão na última terça-feira (18). Este é, pelo menos, o oitavo caso de gestor preso durante o exercício do mandato registrado no Ceará nos últimos 20 anos.

O levantamento realizado pelo Diário do Nordeste detectou diversos fatores: além dos danos à administração pública, a Justiça atuou sobre casos de assassinato e violência sexual.

Em várias situações, os vice-prefeitos também foram afastados do cargo, dando lugar aos presidentes das câmaras municipais. Em outras, foi necessária a realização de eleições suplementares, levando novamente a população às urnas.

O clima de instabilidade pautou as eleições seguintes em alguns dos casos citados abaixo:

Granjeiro

Com o assassinato do então prefeito João Gregório Neto, o “João do Povo”, na véspera do Natal de 2019, a administração de Granjeiro passou para o vice Ticiano Tomé. 

Não demorou para que ele e seu pai, o ex-prefeito Vicente Félix de Souza, fossem ligados ao crime pelas investigações. Juntos, teriam articulado o homicídio com um policial militar devido a desavenças políticas que acumularam ao longo da gestão.

Ticiano foi preso em junho de 2020 pela Polícia Civil em etapa da “Operação Granjeiro”. Vicente também chegou a ser preso naquela ocasião, mas passou a cumprir prisão domiciliar em fevereiro de 2021, já que era do grupo de risco da Covid-19 devido à idade (62 anos).

Com a perda do mandato do prefeito em exercício, o presidente da Câmara Municipal, Luiz Márcio Pereira (PMN), o Marcinho, assumiu o comando do Executivo. 

O então vereador já havia chefiado a Prefeitura interinamente em fevereiro daquele ano, quando a Casa afastou Ticiano do cargo devido a infrações político-administrativas. 

Mas uma determinação judicial restabeleceu o posto de Tomé por entender que o encaminhamento do Legislativo "feriu dispositivos legais e princípios da administração pública". O mandato, contudo, não se manteve de pé com o cumprimento dos mandados da Polícia Civil meses depois.

Agora, segundo o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE), os processos referentes ao caso foram remetidos para segundo grau para análise de recursos da parte dos réus contra pronúncia.

Pedra Branca

Em janeiro de 2019, o então prefeito de Pedra Branca, Antônio Gois Monteiro Mendes, foi preso provisoriamente em operação do Ministério Público e da Polícia Civil sobre fraudes em licitações de R$ 5,4 milhões.

Outras seis pessoas foram detidas, incluindo secretários, vereador e conselheira tutelar. Foram apreendidos, ainda, documentos e aparelhos celulares na sede da Prefeitura. 

Com isso, o vice Júnior do Gilberto, com quem Gois era rompido politicamente, foi promovido à chefia da Prefeitura. O posto se consolidou quando o prefeito afastado pediu renúncia à Câmara Municipal para evitar um processo de cassação por improbidade administrativa, tese rejeitada pelo seu filho Lucas Mendes, com quem o Diário do Nordeste teve contato.

A manobra, contudo, rendeu a inelegibilidade da chapa com David Melo no ano seguinte, quando foi o mais votado na disputa ao Executivo pedrabranquense. À época, a Justiça Eleitoral sequer o proclamou vitorioso porque o seu registro da candidatura já estava cassado, ou seja, ele não chegou a assumir. 

Na última semana, contudo, Antônio foi absolvido por decisão do Desembargador Relator da 1ª Câmara Criminal do TJCE devido à prescrição pretensão punitiva. Entre a data dos fatos até o recebimento da denúncia decorreram mais de oito anos.

"A Corte de Justiça cearense deixou claro que a ação penal sequer deveria ter sido iniciada, pois, naquela época, já não reunia as condições legais para processar a pessoa do ex-prefeito Antônio Góis", declarou Lucas Mendes por meio de nota assinada com a defesa do ex-gestor.

Ele lembrou, ainda, que, em julho de 2019, o juiz da Vara Única da Comarca de Pedra Branca já havia avalizado o mandado de segurança impetrado por Antônio, determinando a anulação do ato do então presidente da Câmara, Rodolfo Magalhães, que dava início a um processo de cassação do mandato do ex-prefeito.

Por isso, inclusive, Lucas Mendes nega que a renúncia do pai tenha acontecido com o objetivo de evitar instalação de processo administrativo contra a gestão. A desistência do mandato se deu, como afirma a nota, diante de "uma situação de grande pressão emocional, como forma de amenizar o sofrimento familiar a que foram submetidos".

Com a renúncia de Antônio Gois, Rogério Cordulino entrou em jogo. Empossado vereador em 1º de janeiro de 2021, ele foi eleito presidente da Câmara Municipal e assumiu a Prefeitura no mesmo dia, seguindo hierarquia da vacância. 

Nesse posto, ele seguiu até o fim de agosto. Naquele mês, o município realizou eleições suplementares, ocasião em que Matheus Gois, filho do ex-prefeito Antônio, saiu vitorioso. O êxito aconteceu sobre Padre Antônio (PDT), aliado do prefeito interino.

Mesmo com os trâmites regularizados, a cerimônia de posse tornou-se um objeto de disputa. A chapa foi eleita em 1º de agosto e diplomada no dia 13 do mesmo mês. Porém, afirmou Matheus à época, o presidente da Câmara em exercício, Juarez Abrantes, teria planejado a posse apenas para 1º de setembro, a fim de beneficiar o colega Rogério, prefeito interino. 

Apoiadores do prefeito eleito foram à Câmara Municipal protestar contra a demora. Após toda a polêmica, a posse ocorreu em 24 de agosto de 2021. 

(Confira nota da defesa na íntegra, ao fim do texto)

Uruburetama

Em 2018, uma série de casos de abuso sexual cometidos pelo então prefeito de Uruburetama e médico, José Hilson de Paiva, vieram à tona. Vídeos gravados por ele mesmo violando as pacientes em atendimentos no município foram divulgados e desencadearam uma série de reações jurídicas e políticas.

 

Em julho de 2019, ele foi preso a pedido do Ministério Público, sem, antes, deixar de passar por retaliações da população e da Câmara Municipal. Poucos dias antes, os vereadores o afastaram de forma unânime por 90 dias do cargo. Dois parlamentares se declararam suspeitos para participar da votação e, por isso, foram substituídos por suplentes.

São eles: Cristiane Cordeiro Costa, filha de José Hilson, e Alexandre Wagner Albuquerque Nery, filho do vice-prefeito, Artur Wagner Vasconcelos Nery. Este assumiu o comando da Prefeitura logo em seguida.

Em outubro daquele ano, já preso, o prefeito e médico teve o seu mandato cassado definitivamente pelo Parlamento.

A decisão da Câmara acompanhou o clamor da população, que realizou protesto contra o político no dia do afastamento. O encaminhamento foi comemorado por populares, que chegaram a soltar fogos na ocasião.

Em abril de 2020, ele deixou o presídio para cumprir prisão domiciliar por se enquadrar no grupo de risco da Covid-19 por dois fatores: idade e por ter insuficiência coronária. Ele foi condenado a 12 anos de prisão.

Além das penalizações jurídicas e políticos, José Hillson Paiva teve o registro de médico cassado pelo Conselho Regional de Medicina (CRM). Agora, o processo aguarda decisão da Justiça, de acordo com o MPCE.

Senador Pompeu

No ano de 2011, o Tribunal de Justiça do Ceará (TJ-CE) decretou a prisão do então prefeito de Senador Pompeu, Antônio Teixeira de Oliveira, em processo sobre diversos crimes. O mandado foi expedido em razão da saída do gestor da cidade em um ônibus fretado, na companhia de outros investigados. 

Pesavam acusações como lavagem ou ocultação de bens, direitos e valores, falsidade ideológica, peculato e formação de quadrilha, que representam um rombo de R$ 30 milhões. Parte do secretariado e dos vereadores de Senador Pompeu também foi presa.

Após nove dias foragido, ele e o vice-prefeito Luís Flávio Mendes de Carvalho apresentaram-se ao Quartel Central do Corpo de Bombeiros do Ceará, em Fortaleza, e foram transferidos posteriormente.

Com isso, o presidente da Câmara Municipal, Luiz Ibervan Fernandes, assumiu a Prefeitura com a responsabilidade, ainda, de nomear os novos titulares das secretarias desfalcadas.

No ano seguinte, o prefeito afastado pediu a restituição do mandato ao TJCE, que foi negado. 

Nas eleições de 2020, Antônio sofreu quatro derrotas na Justiça para viabilizar sua candidatura e tentar o terceiro mandato como prefeito da cidade, mas a chapa continuou inelegível.

Mesmo assim, ele foi votado nas urnas e ficou em segundo lugar, com 42,97%, sendo derrotado por Maurício Pinheiro, com 53,80% dos votos.

Pacajus

O ex-prefeito de Pacajus, Pedro José Philomeno, foi preso com outras nove pessoas – entre elas, sua filha, seu genro, o presidente da Câmara Municipal e secretários municipais – em 2011. A detenção se deu no âmbito de megaoperação da Polícia Civil com o MPCE em investigação sobre fraudes de até R$ 20 milhões em licitações.

Além disso, de acordo com as investigações, os suspeitos foram ligados a crimes como desvio de verbas públicas, lavagem de dinheiro, enriquecimento ilícito, posse ilegal de armas e até formação de quadrilha. 

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