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Marco temporal: quais os impactos da divergência entre STF e Congresso e o que pode fazer o Governo

Especialistas ouvidos pelo Diário do Nordeste apontam um cenário de "insegurança legal"

Escrito por Ingrid Campos ingrid.campos@svm.com.br
08 de Outubro de 2023 - 08:00
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Legenda: Indígenas de todo o Brasil têm se mobilizado em defesa dos territórios tradicionais.
Foto: Agência Brasil

Paira um clima de incerteza sobre o marco temporal nas terras indígenas (TIs) com os entendimentos divergentes do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Congresso Nacional em relação ao tema. O impasse, agora, está nas mãos do Planalto, que deve definir, neste mês ainda, o futuro desta discussão.

O imbróglio acontece porque, em setembro, a Corte declarou como inconstitucional a tese que restringe a demarcação de TIs  àquelas já tradicionalmente ocupadas por esses povos em 5 de outubro de 1988, data da promulgação da nova Constituição Federal. 

Uma semana depois, o Senado aprovou uma matéria com conteúdo diametralmente oposto, dando fim à tramitação no Congresso, que já durava cerca de 16 anos, e encaminhando a responsabilidade ao Planalto.

Diante desse cenário, cabe ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pesar três possibilidades: sancionar o projeto e transformá-lo em lei, mantendo a inconsistência constitucional; vetá-lo parcialmente, derrubando pontos mais polêmicos, mas mantendo a insegurança legal; e vetá-lo integralmente, devolvendo a análise para o Congresso.

A Presidência da República tem um prazo de 15 dias úteis para tomar uma providência. Segundo a Casa Civil, o período começou a contar no último dia 29, ou seja, a data-limite é 20 de outubro.

O líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), já sinalizou que Lula deve deliberar da segunda forma: excluindo pontos como a possibilidade de plantação de transgênicos em terra indígena e contato com povos isolados. 

Caso um dos dois últimos casos se confirme, o presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG), já afirmou que vai pautar a apreciação dos vetos, já que é sua prerrogativa convocar sessões conjuntas entre Câmara dos Deputados e Casa Alta. 

Para rejeitá-los, deputados e senadores devem reunir maioria absoluta dos votos, ou seja, 257 do primeiro grupo e 41 do segundo. Caso não atinja esse quórum, as interdições de Lula são mantidas. 

De toda forma, o andamento das discussões não deve acompanhar a finalização do rito legislativo. Como a proposta foi aprovada após o Supremo formar entendimento sobre o assunto, pode haver nova judicialização, além da repercussão internacional. 

Indígenas brasileiros foram à Organização das Nações Unidas (ONU), no fim de setembro, para denunciar a "violação frontal aos direitos dos povos indígenas" pelo Congresso. A denúncia foi feita pela Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib) e Conectas Direitos Humanos, que pediram, ainda, o veto integral a Lula.

Repercussão

Enquanto se aguarda um desdobramento sobre o marco temporal, mobilizações seguem de várias frentes. A bancada ruralista tenta contornar uma das críticas feitas à decisão do Congresso: aprovar uma mudança constitucional por Projeto de Lei.

Por isso, parlamentares da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) estão fazendo uma curadoria de Propostas de Emenda à Constituição (PECs) que tratam sobre o tema para se resguardarem. 

Do outro lado, o Ministério dos Povos Indígenas – sob Sônia Guajajara – formalizou uma relação de dez novas TIs cujos processos de demarcação estão prontos para ter andamento. A lista foi recebida pelo ministro da Justiça, Flávio Dino, responsável pela portaria declaratória.

Depois disso, fica a cargo da Presidência da República a homologação das terras, etapa final da demanda indígena.

"(O andamento do processo visa) garantir a proteção dos direitos territoriais indígenas, frequentemente ameaçados por invasões e esbulhos, sendo medida apta também para dirimir conflitos fundiários de longa duração, que repercutem em violências e instabilidades, afetando drasticamente os povos indígenas no Brasil", diz Guajajara, no ofício.

Sônia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas.
Legenda: Sônia Guajajara, ministra dos Povos Indígenas.
Foto: Leo Otero/Apib

O Ministério Público Federal (MPF) já havia se manifestado nesse sentido. Em maio, durante a aceleração do trâmite do projeto na Casa Baixa, Câmara de Populações Indígenas e Comunidades Tradicionais, vinculada à Procuradoria-Geral da República (PGR), apontou a inconstitucionalidade da matéria em nota pública.

Além de ameaçar o direito dos indígenas ao próprio território, o órgão também destacou que mudanças no estatuto jurídico das terras indígenas por uma lei ordinária não são possíveis. Concluiu, ainda, que a ocupação de territórios tradicionais é defendida em cláusula pétrea, ou seja, nem uma PEC poderia alterá-la.

Na Justiça, há 226 processos sobre demarcação aguardando desfechos. Os dados são do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

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