Economia brasileira em apuros

Entre efeitos econômicos do surto mundial do coronavírus e ataques da Presidência às instituições democráticas, a perspectiva de crescimento se esvai

Matéria por  Yohanna Pinheiro
28 de Fevereiro de 2020 - 11:02
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Durante a campanha eleitoral para a Presidência da República em 2018, quando se apontavam os riscos de se eleger um candidato que apoiava abertamente o regime ditatorial no País, ouvi de um analista de mercado a seguinte frase: “Se o Congresso fechar amanhã e a reforma da Previdência for aprovada, a Bolsa sobe”.

Seria prudente dizer, portanto, que seguir o que dita o mercado financeiro nem sempre a melhor saída.

Essa visão míope e paradoxalmente danosa aos próprios interesses do poder econômico, se confirma quando a Bolsa pouco reage a ataques à democracia perpetrados pela autoridade máxima do País. Aconteceu quando Guedes disse que ninguém se assustasse se pedissem a volta do AI-5. Ou quando o então secretário da Cultura publicou vídeo em que reproduzia trechos do discurso de Gabbles, ministro da Propaganda de Hitler, e ainda assim o Ibovespa avançou 1,52%.

A forte reação do mercado vista nesta semana leva em conta quedas nas expectativas de lucros futuros das empresas listadas em Bolsa, e em um futuro próximo, por conta dos efeitos econômicos da epidemia do coronavírus sobre os principais mercados globais. Mas a democracia, para o poder econômico, têm efeitos positivos no longo prazo. 

Desconsiderando-se (apenas para fins de análise, por um momento) questões óbvias de liberdades civis e direitos políticos, a transparência é a primeira coisa que vai embora em uma ditadura - como confiar nos dados de um Governo que seria uma caixa preta? Que credibilidade há em um regime controlado pela voz (e desmandos) de um tirano? Que perspectiva teria um País que, mais cedo ou mais tarde, entraria em uma ebulição social provocada pela repressão?

Estudo conjunto de pesquisadores das universidades de Columbia, Boston, Chicago e MIT mostra evidências de que a democracia é capaz de elevar a renda per capita de um país em cerca de 20% no longo prazo, impulsionada por maiores investimentos em capital, educação e saúde. A deterioração dos instrumentos democráticos, portanto, estariam associados a uma redução do crescimento futuro.

E o que aqui é uma questão hipotética tornou-se ainda mais palpável nesta semana quando o presidente Jair Bolsonaro convocou a população a se manifestar contra o Congresso Nacional. Ele que, ao tomar posse do cargo em janeiro do ano passado, prometeu “manter, defender e cumprir a Constituição, observar as leis, promover o bem geral do povo brasileiro, sustentar a união, a integridade e a independência do Brasil".

Aquele que deveria ser o maior defensor dos interesses da democracia brasileira tornou-se uma de suas principais ameaças.

Uma coisa é o debate político, outra é o enfrentamento às instituições em si. Não há qualquer razão econômica que justifique sequer uma ameaça ao Estado Democrático, muito menos à sua ruptura. Não se pode mais baixar a cabeça ou deixar para lá os crescentes - e perigosos - ataques à democracia do País, que apenas colabora com o avanço de um regime antidemocrático. Isso, e não o coronavírus, pode ser a ruína do Brasil - e de sua economia.



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