Por mais redes cearenses em vez de redes sociais

Matéria por  Xico Sá
11 de Julho de 2023 - 10:30
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Lá vem mais uma rede social. “Ah, que preguiça”, faço eco com o bordão do Macunaíma, na margem esquerda do rio Uraricoera, na Floresta Amazônica.

Certamente inventarei a desculpa do trabalho jornalístico, a necessidade da divulgação dos meus livros e palestras, para cair dentro de mais uma arapuca on-line. Acontece.

Fosse mesmo o tipo “antes de tudo um forte”, como na definição para a gente dos sertões, estaria fora. Não largaria o balanço da sua rede cearense por ilusão de afago internético algum.

Só uma boa rede, entre coqueiros ou paredes, salva a humanidade das suas carências e neuroses. Nada mais terapêutico. Sei que é difícil, sei que é utópico, mas só a rede ajeita corpo e alma em uma posição de descarrego e leveza.

A rede que sempre foi parte do corpo do indígena e praticamente inventou a civilização sertaneja. O sábio potiguar Câmara Cascudo nos embalou com esses saberes etnográficos. Leiam o homem do rio Potengi. Ele sabe tudo das nossas origens e descaminhos.

De tão carinhosa, a rede era conhecida, na visão dos poetas antigos do Nordeste, como a “mãe veia”, aquela que abriga, não importa de quem seja o esqueleto estrupiado e sem cabimento em camas estranhas mundo afora.

Por mais redes cearenses em vez de redes ditas sociais. De preferência ouvindo um disco que combina muito com esse arrazoado: “Meu corpo, minha embalagem, tudo gasto na viagem”. Eis a iluminação do filósofo Augusto Pontes no LP “Pessoal do Ceará”, clássico do ano de 1972.

Por mais redes como divãs, em praças e alpendres, para todo mundo botar as dores e os prazeres em um balanço de cura de todas as neuras. Redes para ouvir a cantiga de todos os nossos grilos. Seja no mar, seja na Chapada do Araripe.

Lá vem a tal de Threads, concorrente do Twitter, uma nova droga para alimentar os viciados socialmente no jogo. Threads, de fio, fios narrativos e ilusórios, não os fios sinceros do algodão dos Inhamuns, os fios que tecem os paletós de linhos brancos que até o mês passado, segundo Fagner e Belchior (na canção “Mucuripe”), lá no campo ainda eram flor, digo, flores.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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