A versão brasileira do massacre da serra elétrica
O Brasil tem muitos casos bizarros na política, mas talvez nenhum supere a versão nacional do massacre da serra elétrica. Essa foi a conclusão de nossa roda de conversa no Rancho Nordestino, em SP. Foi o bastante para um amigo cearense acendesse os olhos de bila e anunciasse: “Farei uma série pra Netflix”. Melhor de tudo é que o conterrâneo é craque do ramo. De vera. Aguarde.
Enquanto engomo a calça e espero a produção do amigo cineasta, trago a crônica desse acontecimento aterrorizante. Peça mais uma ao garçom que lá vem história.
Hildebrando Pascoal, coronel da reserva da Polícia Militar do Acre, ficou conhecido no Brasil inteiro como o “Deputado Motosserra”. E o apelido não é apenas uma alusão às árvores que derrubou e aos crimes ambientais que cometeu na região amazônica.
O político foi condenado, em 2009, pelo homicídio triplamente qualificado do mecânico Agilson dos Santos Firmino, o Baiano, que teve os olhos perfurados, braços, pernas e pênis amputados pela serra elétrica do parlamentar do PFL. Um filho de Baiano, Wilder, de 13 anos, portador de transtorno mental, também foi torturado e assassinado a mando do mesmo militar.
Quando o caso esteve em evidência, era comum ser associado na mídia a “O Massacre da Serra Elétrica” (1974), do diretor americano Tobe Hooper, um dos filmes mais cultuados no cinema pelos fãs do terror.
Líder de um grupo de extermínio, Hildebrando teve o mandato de deputado cassado e foi preso em 1999, quando a CPI do Narcotráfico revelou que ele fazia parte de uma organização criminosa de tráfico de drogas, roubo de cargas, corrupção e lavagem de dinheiro. Suas penas somadas naquele momento chegavam em cem anos de prisão. Desde 2019, no entanto, alegando problemas de saúde, o criminoso — com 70 anos em 2022 — cumpre prisão domiciliar em Rio Branco, a capital do Estado.
O crime da serra elétrica teria sido motivado por uma vingança. O coronel acusava o mecânico Baiano de ter ajudado na fuga do pistoleiro Jorge Hugo Júnior, o Mordido, responsável pelo assassinato do Itamar Pascoal, irmão de Hildebrando. O pistoleiro e Itamar se desentenderam durante uma negociação para libertar um traficante de um presídio estadual.
Inacreditavelmente, depois do episódio da motosserra, Hildebrando foi eleito para o Congresso.
O homicídio aconteceu em 1996, e sua eleição, dois anos depois. O coronel que havia sido comandante da Polícia Militar acreana obteve 18.356 votos, a segunda maior votação para a Câmara dos Deputados em 1998. Quatro anos antes, conquistara uma vaga na Assembleia Legislativa, o que lhe rendeu o título do mais votado para este cargo na história do Acre — 7.841 eleitores consagraram o seu nome.
Raro jornalista a fazer uma entrevista exclusiva com o coronel-deputado ainda no período do crime da motosserra, Altino Machado conta que seguiu para a casa do político “rezando”. O temor do então correspondente do Jornal do Brasil não era à toa. O clima era realmente assombroso. Antes mesmo do repórter ligar o seu gravador, Hildebrando, cercado de policiais e capangas, sacou uma pergunta à queima-roupa: “Você sabia que posso matá-lo aqui, agora?”
Felizmente, para o jornalista e seus leitores, aconteceu apenas uma reportagem histórica de um entrevistador destemido.
*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.
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