A fêmea do cupim e a fuga da realidade política

Escrito por Xico Sá producaodiario@svm.com.br
12 de Dezembro de 2025 - 11:00
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Você sabe como se chama a fêmea do cupim?

Revelo mais adiante. Sabe aqueles dias em que você foge da realidade, digo, do noticiário, ainda meio grogue da overdose que foram os últimos meses no Brasil? É o caso deste cronista alienado, mas, só por hoje, prometo, como diz um alcoólatra diante dos desafios dos AA. Só por hoje.

É importante abstrair, nem que seja por umas horas, a realidade. Quem aguenta? Releio Madame Bovary, vejo videoteipe da série B do campeonato brasileiro, o futebol como bendito ópio do povo, miro no exemplo do Rubem Braga concentrado no seu pé de milho – em um momento em que surge o primeiro pendão no quintal, que milagre mesmo em uma roça urbana, urbaníssima.

Observo o rito de chegada daquela mãe de maiô azul no posto cinco de Copacabana. A mãe e sua menina de uns seis, sete anos, baldinho, pá, castelo de areia... É preciso conversar com Yemanjá, secretamente, como se fosse a hora do foguetório da virada de ano. Tudo, menos a realidade das manchetes com as mãos sujas ou com mãos limpas.

Foi aí que lembrei da fêmea do cupim que surgiu em uma crônica de Manuel Bandeira datada de 25/10/1961. Hoje é fácil saber, em um clique, como se chama a mulher do inseto que rói todas as madeiras – com exceção da madeira do Rosarinho, atesta o frevo do Capiba.

Na época que fez a pergunta, nem o alagoano Aurélio, nosso homem-dicionário, sabia a resposta.

Bendita questão. Porque é importante e digno não suportar, por alguns momentos, a realidade mais pesada.

A Câmara dos Deputados, sob o comando do paraibano Hugo Motta, resolveu liberar geral para os condenados do golpe e reduziu a pena do ex-presidente Bolsonaro? É de lascar, é de doer, mas que as manifestações de rua promovam uma resposta.

Particularmente seguirei em busca da fêmea do cupim, deixa quieto.

Só é necessário no momento reler Fup, o maior e mais genial pequeno livrinho do mundo. Tem uma pata gorda e um maluco que faz cercas e mais cercas o tempo inteiro.

Urge sentar na esquina da Miguel Lemos com Ayres de Saldanha, ai de mim Copacabana, e testemunhar a marcha à ré dos caranguejos no tanque do bar “Príncipe de Mônaco”.

A linda e elegante madame arará, fêmea do cupim, agradece.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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