Fura-filas da vacina: o retrato do país do privilégio e da arrogância

Em meio ao aumento de mortes por Covid, fase prioritária da vacinação é invadida. Casos precisam ser investigados com rigor

Matéria por  Victor Ximenes
25 de Janeiro de 2021 - 09:00
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Eis que surge no Brasil a estirpe mais odiável de todos os tempos da última semana: os fura-filas da vacina. O Ministério Público instaurou procedimentos em pelo menos 12 estados (o Ceará incluso) para apurar denúncias de pessoas que já tiveram acesso ao imunizante mesmo sem pertencer aos grupos prioritários.

Estes arrivistas aproveitam-se do processo atabalhoado e negligente do início da vacinação para garantir que o famoso 'jeitinho' - um eufemismo por vezes mal aplicado para crimes como o peculato - siga enfiado na sociedade.

A cultura estúpida do 'Você sabe com quem está falando?'

A vergonhosa postura dos fura-filas diz muito sobre a cultura do 'Você sabe com quem está falando?', a qual, apesar do repúdio da opinião pública, ainda se observa com frequência, quando um tal desembargador goza do cargo para se recusar a usar máscara e humilhar um guarda em Santos; quando uma mulher arrota que o marido "não é cidadão e sim engenheiro civil" para um fiscal que fazia seu trabalho no Rio de Janeiro. Isso só para ficar nos casos icônicos mais recentes, porque a lista de episódios semelhantes é tão longa quanto repudiável.

O egoísmo vil destas pessoas se torna ainda mais chocante na atual situação sanitária do País. Já são mais de 215 mil mortos por Covid-19. Há um cenário de guerra no Amazonas e piora nos indicadores da doença em vários estados. Há poucas doses das vacinas, que hoje são o ativo mais valioso do mundo e deveriam, de fato, ser destinadas a quem mais precisa. Afinal, é questão de vida ou morte.

'Farinha pouca, meu pirão primeiro'

Mas alguns seres, por mais rastejantes que sejam, supõem que uma vantagem econômica ou política os coloca nas nuvens, quase tocando os calcanhares dos deuses. Não importa a quem doer: "Farinha pouca, meu pirão primeiro". Ou, neste caso, "vacina pouca, meu braço primeiro".

Fazem lembrar o inesquecível personagem de Billy Zane em "Titanic" (Cal Hockley), aquele aristocrata que se vê no direito de se salvar do naufrágio antes das prioridades, simplesmente por seu status. A diferença é que Cal Hockley é ficcional.

Embora casos do tipo despertem ojeriza em muitos, outros tantos ficam na zona de hipocrisia, balbuciando e protestando contra a corrupção alheia e sendo condescendentes quando o desvio está nas próprias atitudes.

Espera-se dos órgãos investigadores apuração rigorosa, não importando quem são os fura-filas ou o cargo que ocupam. E que mais adiante, a sociedade possa vê-los punidos. Aos municípios, estados e União, é premente controlar com firmeza técnica e critérios austeros a aplicação da vacina.



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