Pedido de demissão de Messi escancara soberba do Barcelona

Com uma lista de contratações equivocadas e que não renderam e em queda vertiginosa, equipe catalã colhe frutos da má gestão

Matéria por  Roberto Leite
26 de Agosto de 2020 - 16:09
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O atual episódio da possível saída de Lionel Messi mostra o resultado das más escolhas do Barcelona nos últimos cinco anos, desde a última vez em que foi campeão da Champions League. Na temporada 2014/2015, a equipe azul-grená voava em campo. O estilo de jogo tiki-taka de Pep Guardiola fazia render bons frutos ao time que jogava como videogame. Mas foi só a virada do ano para 2016 ocorrer que a máquina de títulos foi, ano a ano, sofrendo seus revezes até culminar com a humilhante goleada de 8 a 2 sofrida para o Bayern de Munique, na semifinal da Liga dos Campeões, neste ano. Uma goleada com o selo Seleção Brasileira contra a Alemanha em Copa do Mundo.

Naquele momento, o Barcelona somava cinco títulos europeus (1991/92, 2005/06, 2008/09, 2010/11 e 2014/15), além de três vices (1960/61, 1985/86 e 1993/94). Era um campeão em ascensão. Tinha tudo para dominar o continente por mais uma duas ou três temporadas seguidas. E depois, estar sempre ali brigando nas cabeças. Claro, não deixou de brigar nas cabeças. Mas foi só. O nível de competitividade foi caindo temporada após temporada.

Com 2019/2020, são cinco anos sem chegar em uma final de Liga dos Campeões. Marca ruim para uma equipe milionária e que tem (ou tinha) o melhor jogador de futebol do mundo. Nas últimas duas temporadas, até que o Barça ensaiou uma reação, mas sem espírito nenhum. Logo após o título sobre a Juventus, com show do trio MSN, foram três eliminações seguidas nas quartas de final (2015/2016, para o Atlético de Madrid; 2016/2017, para a Juventus; e 2017/2018, para o Chelsea). Em 2018/2019, para o Liverpool, e em 2019/2020, para o Bayern de Munique, ficou a um jogo da final, mas era melhor ter sido eliminado antes, dada as vergonhas que foram as exibições.

Barcelona foi humilhado pelo Bayern de Munique na Liga dos Campeões
Legenda: Barcelona foi humilhado pelo Bayern de Munique na Liga dos Campeões
Foto: Manu Fernandez / POOL / AFP

Tudo fruto de uma gestão irregular e cheia de problemas de Josep Maria Bartomeu, que parou no tempo quando o assunto é futebol. Como todo clube no topo, seria comum que os concorrentes buscassem crescer para competir de igual para igual. Sem contar que, com o tempo, o elenco envelheceria e novas revelações precisariam surgir para substituir quem já havia dado muito pelo clube. Em um clube como o Barcelona, renovação é uma palavra que não sai de moda nunca.

Mas aí, quando Guardiola deixou o Barça para ir treinar o Bayern de Munique, foi o pontapé inicial do fracasso. Uma sucessão de técnicos que, em sua maioria, apenas tentou repetir o modo de jogar de Pep passou pelo banco de reservas. Quase ninguém deu certo. Tata Martino (2013-2014) e Luis Enrique (2014-2017) foram os que melhor se saíram. O argentino teve altos e baixos, mas estava montando um elenco consistente e tentando imprimir seu próprio estilo. Luis Enrique deu a última Champions ao Barça. Bartomeu foi responsável de Luis Enrique para frente. Mas estava na diretoria na época de Martino. Vieram depois, Ernesto Valverde (2017-2020) e Quique Setién, que não durou a pandemia. Foi meio que o Felipão do Barcelona.

O holandês Ronald Koeman, campeão pelo clube lá nos idos de 1991/1992, chegou com um objetivo claro: renovar o elenco e dar uma outra cara ao Barcelona. Foi preciso um 8 a 2 para que Bartomeu acordasse do sonho de achar que o Barcelona ainda era o mesmo de 10 anos atrás. Mesmo assim, não se sabe bem como será essa muidança. Se ela vai ser mesmo plena ou daquelas mudanças que apenas fingem ser mudanças.

Koeman chegou ao clube com difícil missão de renovar o clube
Legenda: Koeman chegou ao clube com difícil missão de renovar o clube
Foto: Miguel Ruiz/Barcelona FC

E o pior é que Koeman já chega com a necessidade de ser antipático. Para mexer em figuras que estão lá há tanto tempo que poucos teriam coragem de demiti-los. Mesmo assim, já chegou dispensando Suárez, que ainda dá um bom caldo, mas que não se encontra mais na equipe. Terá ainda que lidar com Rakitic, Vidal, Piqué, Busquets e Alba. Na prática, o único veterano que interessa nessa renovação é Messi. É um símbolo e ídolo maior. Mas é Messi que não está mais interessado em ficar. Não tem mais confiança na presidência, na diretoria e muito menos no projeto.

Dos 20 anos de Barcelona, sendo 16 temporadas no elenco principal, os únicos cinco foram de queda, reforços caros e que não fizeram o time nem manter o nível, muito menos evoluir. Então, o que esperar agora? E Messi tem pressa de voltar a ganhar algo expressivo. Tem 33 anos e pouco tempo para tentar brilhar como antes. Não tem mais a vivacidade dos 20 anos. Precisa estar em um clube com projeto claro, definido e que o faça campeão de novo.

Foi € 1 bilhão em transferências de jogadores desde 2014, quando Bartomeu assinou. E jogadores que, em muitos casos, não chegaram a passar uma temporada. Alguém lembra ainda de Douglas, Arda Turan, Paco Alcácer, Umtiti, Deulofeu, Mina, Emerson ou Cucurella? Pois bem, são alguns dos 33 jogadores contratados neste período. Rakitic, Suárez e Ter Stegen são dessa lista. Assim, como Philippe Coutinho, Paulinho, Griezmann e De Jong, que passaram longe de serem plenos no elenco.

É como disse o Victor Canedo, um dos jornalistas que melhor cobrem o futebol internacional:

É como se o Barcelona fosse uma grande locadora de vídeo nos anos 2000. Ela sabia que novas tecnologias chegariam cedo ou tarde, mas insistiu em acreditar que o Blu-Ray, o DVD ou o VHS (dependendo da sua faixa etária) permaneceriam. Até ser engolida impiedosamente pelo mercado

Faltou humildade e sobrou soberba no Camp Nou...



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