Michaela Coel e a impecável 'I May Destroy You'

Criada em parceria entre a HBO e a BBC, a série mostra, novamente, o talento de Coel e já ganhou olhares positivos da crítica e do público

Matéria por  Mylena Gadelha
11 de Agosto de 2020 - 12:22
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Desde o começo do ano tenho assistido muita coisa. Uma tentativa constante de manter a lista atualizada para escrever por aqui, mas também porque muita coisa me pareceu digna de um olhar diferente. Mesmo assim, nem tudo inquietou, me fez pensar, me fez admirar. Não é algo que posso falar de 'I May Destroy You', sem sombra de dúvidas. Antes mesmo de qualquer detalhe técnico da produção ou até mesmo de falar da capacidade quase única de Michaela Coel em cena e no roteiro, a definição da série, para mim, só pode ser possível pensando além do simples ato de assisti-la. 

Para começar, comecemos com os tais detalhes. Feita em parceria entre a HBO e a BBC, 'I May Destroy You' tem criação, roteiro e direção, dividida com Sam Miller, de Michaela Coel, que também é a protagonista. Na história, a escritora Arabella sente a pressão para produzir mais uma obra enquanto a fama pelo primeiro lançamento lhe dá nova oportunidade. A necessidade de criar em determinada noite, no entanto, não faz com que o cérebro lhe dê grandes ideias, então ela parte para uma noite com os amigos. Dessa noite em específico, ela guarda marcas que sequer se recorda. 

Chegando até este ponto do texto, fica difícil não dar mais spoilers sobre as discussões da produção britânica. O interessante de pensar em 'I May Destroy You' é justamente perceber os detalhes de como certas questões são abordadas em tela. Dito isto, fica o aviso para os leitores desta coluna: aspectos importantes da obra de Coel serão expostos a seguir.

O primeiro deles é a noite que desencadeia os futuros traumas que se apresentarão na vida de Arabella (Michaela Coel). Durante a saída com os amigos, a jovem escritora é abusada sexualmente quando fica inconsciente por conta de uma droga desconhecida na bebida e o tema só é revelado ao espectador enquanto a própria protagonista vai relembrando os momentos obscuros vividos por ela. Arabella não lembra de nada e seu desconforto, passado por meio de flashbacks desconexos, causam também uma inquetação constante a quem assiste os episódios. 

Aqui talvez seja o ponto crucial para levantar o talento de Michaela Coel. Como protagonista -e sua capacidade já foi vista em Chewing Gum- é perfeita no que se propõe, deixa no olhar a falta de conhecimento sobre o trauma, a angústia do saber e não-saber. Como criadora e roteirista, aborda a questão dramática, vivenciada até mesmo no âmbito pessoal e que já relatou anteriormente, mas deixa a marca da ironia tratando o assunto de uma forma diferente sem perder a carga que o qual requer. Como diretora, tem na parceria com Miller o olhar apurado para a abordagem de uma geração millenial, rótulo usado por aí para falar sobre a série, sem deméritos. 

A forma como lida com os traumas e o que tenta recordar geram alguns dos pontos altos dos episódios
Legenda: A forma como lida com os traumas e o que tenta recordar geram alguns dos pontos altos dos episódios
Foto: divulgação/HBO/BBC

Talvez seja até necessário falar da ligação de Coel com o assunto. Há dois anos, a atriz revelou ter passado por situação parecida à de sua, agora, nova protagonista. Segundo ela, que falou sobre o caso em entrevistas antes e também para a divulgação da nova série, escrever 'I May Destroy You' também teria sido uma forma de lidar com algo discutido em processo terapêutico, mas que ainda deixa marcas. 

Outros personagens

Mesmo que o tema central da série já seja denso por si só, ele não é o único a preencher o total de 12 episódios, cada um com 30 minutos de duração. Outros assuntos como o machismo, o racismo e a intolerância latente dos dias de hoje estão lá nas falas e vivências dos demais personagens da história. Diferentes formas de abuso em distintos relacionamentos, também são abordados, retratando questões que aparentam semelhanças, mas possuem princípios básicos em essência.

Não só Arabella (Michaela Coel) como os amigos que a cercam são parte importante para a construção da carga dramática e irônica de I May Destroy You
Legenda: Não só Arabella (Michaela Coel) como os amigos que a cercam são parte importante para a construção da carga dramática e irônica de I May Destroy You
Foto: divulgação/HBO/BBC

Outro destaque fica para os personagens amigos de Arabella. Weruche Opia, como a amiga Terry, e Paapa Essiedu, como o amigo Kwame, carregam outros dramas dos personagens que interpretam e são competentes nessa missão. Assim como a personagem principal lida com momentos difíceis, os que a cercam vivem assuntos particulares e tão pesados quanto.

No fim das contas, sem mais entregar tudo de importante contado por 'I May Destroy You', encontrar conteúdos como este tem sido importante nos últimos tempos. Michaela Coel se abre para mostrar os próprios traumas ao passo em que propõe refletir -por meio de artifícios de escrita geniais- sobre algo real, sobre a vida que cerca nossa tal modernidade e as relações de então.

 



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