Como "The Good Place" nos tornou mais tranquilos sobre o pós-vida?

Quarta temporada da série teve mensagem esclarecida no episódio final e garantiu espaço como uma das melhores comédias dos últimos tempos

Escrito por Redação producaodiario@svm.com.br
03 de Fevereiro de 2020 - 15:07
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Quais os questionamentos da vida? E, acima de tudo, quais os questionamentos da morte? Na última sexta, após encerrar o episódio final de 'The Good Place', da Netflix, me peguei pensando em como somos guiados pela dúvida e a falta de certeza sobre o que está por vir ao logo do que experimentamos em nossas vivências. Esse, que é o ponto de partida da série lançada em 2016 e encerrada agora em 2020, poderia simplesmente ter saído de discussões de uma mesa de bar ou estar, inclusive, presente em estudos filosóficos. Não seria esse o trunfo da produção televisiva, de fazer refletir ao trazer o humor inteligente aliado a questões mais profundas?

Logo no primeiro episódio da série, quando vimos Eleanor Shellstrop (Kristen Bell) chegar ao "céu" e dar de cara com o que seria o pós-vida, 'The Good Place' se permitiu ir além. Com um tom de comédia diferenciado e escolhas inteligentes, os episódios foram, um a um, revelando as transformações dos personagens vistos em tela. No início, ao lado de Eleanor, Tahani (Jameela Jamil), Chidi (William Jackson Harper), Jason (Manny Jacinto) e Michael (Ted Danson) conquistaram o público com características, entre virtudes e defeitos, completamente críveis. Por fim, parecem ter ganho espaço no coração da audiência por serem a prova da capacidade de evolução.

Se nas primeiras temporadas, a grande questão dos protagonistas era descobrir como sair do "The Bad Place", chegamos na 4ª com a lição de que todos podem mudar e alcançar um novo nível espiritual, basta que as influências, os suportes e a força de vontade estejam ali, sempre presentes. No episódio final (fique atento nos spoilers a partir de agora), eles finalmente desenvolveram esse novo sistema para selecionar o que cada ser humano "viverá" após a morte. Com a mudança, cada um, a partir de então, poderá ser imposto a diversos cenários que podem significar, ou não, uma evolução.

Na figura de "salvadores", após mostrarem as falhas existentes em encaixar as pessoas dentro de rótulos limitantes e dividi-los entre bons e ruins, Eleanor, Chidi, Tahani, Jason, Michael e Janet descobrem algo ainda mais revelador. De uma forma um tanto melancólica, fica claro como a ideia de eternidade e de felicidade ininterrupta pode ter péssimas consequências. E, por fim, mais uma mudança para completar os sucessivos ensinamentos da série: pode encerrar de vez a existência acaba sendo alívio para o sexteto.

Foram necessários 50 minutos para dar o adeus adequado a cada um dos integrantes do "Team Cockroach". Pudemos ver Jason encontrando paz de espírito e completude de jeito simples, mostrando a morte por meio de um olhar natural, como algo que precisa acontecer.

Conferimos Chidi, uma figura confusa desde o início, não ter dúvidas quanto ao momento de finitude. Observamos Tahani descobrir os dons de ajudar o próximo e enxergar nisso uma forma de se perpetuar.

Mas é quase impossível não citar com destaque Eleanor e Michael. Ambos os personagens estiveram nas tiradas cômicas da série e também entre as maiores mensagens a serem guardadas. Para ela, o momento de se sentir pronta não poderia ser mais significativo do que ajudar Michael a atingir o desejo de se tornar humano. Para ele, nada mais justo do que vivenciar, dessa vez na própria pele, como a vida ao redor de outros nos transforma e nos dá algo novo a cada dia. 

Por fim, recuperando a qualidade do roteiro vista ainda no início, The Good Place chega ao fim com uma das mensagens mais bonitas que já pude ver. "É isso que o Lugar Bom realmente é. É só ter tempo suficiente com as pessoas que você ama". Se na verdade é isso que importa, nada mais justo do que ver em cena e se emocionar ao perceber como é possível fazer a diferença na vida de quem está próximo e dentro de nós mesmos.



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