Com psicologia e política, Coringa surpreende ao trazer incômodo constante

Longa tem estreia nesta quinta-feira (1) nos cinemas de todo o país

Matéria por  Mylena Gadelha
01 de Outubro de 2019 - 15:49
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Engraçado pensar no ato de ir ao cinema como uma forma de diversão. Muitas vezes é uma ação capaz de dar medo, asco, pode fazer desmoronar ou até mesmo trazer uma sensação incômoda, que fica ali guardadinha no fundo do ser. Começo este texto dessa forma como uma maneira de delimitar de cara a capacidade de "Coringa", filme com estreia marcada para esta quinta-feira (3) em todo o país.

Sob a direção de Todd Phillips e com Joaquin Phoenix no papel do vilão protagonista – com uma aura que só pode ser descrita como brilhante, diga-se de passagem – o longa se propõe a revisitar o universo da figura icônica das histórias de Batman, mas vai além disso e passa a recontá-lo. 

Uma Gotham devastada, pessoas sem esperança e uma luta constante de classes. Esse é o pano de fundo para fazer emergir os contornos obscuros e densos de Arthur Fleck.

Dessa vez, antes de se tornar o Coringa, é possível acompanhá-lo nos fracassos de uma vida com a qual ninguém parece se importar.

No meio disso tudo, o personagem precisa lidar com um transtorno psicológico no qual as risadas surgem em momentos de medo e desconforto, além de tentar a todo custo uma carreira em comédia stand-up. 

Mas afinal de contas, até onde as circunstâncias da vida são capazes de transformar e enlouquecer? Aqui, chegamos no limite de Fleck, e é onde o roteiro de Scott Silver nos mostra as nuances do Coringa.

Se no início do longa, ele é passível de pena o horror causado pelas atitudes do mesmo passam a ser o aspecto crucial para eliminar qualquer possibilidade de justificativa.

De forma quase genial, é possível perceber as respirações curtas e assustadas de quem acompanha a narrativa dentro da sala escura, como se a espera por alguma cena macabra estivesse sempre à espreita. Tem o trunfo também em deixar sem palavras para descrever.

Poderia citar também as referências ao cinema presentes no novo filme da DC Comics. O panorama visual de “Taxi Driver” ou as referências mais explícitas a “O Rei da Comédia”, ambos de Martin Scorsese, inclusive com a presença de Robert De Niro, aparecendo desta vez como o apresentador de TV Murray Franklin.

Mesmo assim, prefiro ressaltar como uma história vinda dos quadrinhos levanta questões psicológicas e políticas fáceis de serem encontradas em sociedade.

Este ponto também pode levantar as críticas diretas ao filme sobre a relação direta com a figura do Incel, homem heterossexual adulto com dificuldade de manter relacionamentos com mulheres.

Coeso

Acredito em um mérito quase dividido entre Phillips e Phoenix. O primeiro dá o tom a uma adaptação completamente desconectada de tudo já feito quando o assunto é o Coringa. Enquanto isso, o segundo, em toda qualidade técnica, revive um personagem violento, desequilibrado e se entregando à loucura, aos poucos perdendo qualquer empatia ou pudor em fazer o mal.

Cabe até ressaltar o trabalho de caracterização e perceber todos os tons da risada desagradável desenvolvida por Joaquin Phoenix.  

Não há outra palavra mais adequada: é surpreendente e ponto. Nesses momentos se aclara a retirada do cinema do campo apenas do entretenimento. E, óbvio, não existe a menor dúvida de ser sempre mais do que isso. Aqui, em toda essência, tira o fôlego e consegue subverter para alcançar níveis além de toda a expectativa.  



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