Tom, o nosso gato, pensa que é o Jobim

Escrito por Lira Neto producaodiario@svm.com.br
25 de Janeiro de 2022 - 06:00
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Foi Alice, minha filha mais nova, quem o batizou. Tempos atrás, ao pedir um gato de presente de aniversário, ela já havia decidido por antecipação o nome do bichano: Tom. Homenagem, é claro, ao protagonista da clássica dupla com Jerry, imortal criação de William Hanna e Joseph Barbera. Mas, também, imagino, influência do aplicativo Talking Tom, no qual um felino interativo em 3D, campeão mundial de downloads em tablets e celulares, repete com voz esganiçada tudo o que ouve.

Entretanto, o nosso Tom, que já está com quase cinco anos, parece ter ideias singulares a respeito do próprio nome. Desconfio que se ache a reencarnação de outro xará célebre. No caso, o Jobim. Eu nunca havia visto algo parecido. Basta colocarmos para tocar um disco de bossa nova e aquele tigre em miniatura pula sobre o sofá, senta-se em posição elegante e confortável, espicha as orelhas e, imóvel, pescoço esticado, olhos fechados, rabo enrolado entre as patas, escuta tudo com extrema atenção — e respeitoso silêncio.

Sei que existem por aí, nas plataformas musicais de streaming e em canais de vídeo, playlists dedicadas especialmente aos gatos. Investigadores com trabalhos publicados na “Applied Animal Behaviour Science” — revista científica especializada em comportamento dos seres de quatro patas — garantem que, dotados de extraordinária capacidade auditiva, os bichanos gostam mesmo de música suave.

Para os cientistas, o segredo está em conseguir a combinação adequada entre notas e frequências adaptadas aos ouvidos felinos, por meio da cuidadosa simulação de sons incidentais bem conhecidos por eles, como o ronronar, o miado e os ruídos de sucção do ato de mamar. De olho no filão, há gravadoras e artistas especializados em produzir adaptações de Mozart, Chopin e Beethoven para gatos, com a promessa de apascentá-los e fazê-los dormir.

Já experimentei apresentar tais músicas ao Tom. Ele até gostou. Mas, de fato, caiu no sono. Nada nem de longe comparado à atitude de prazer e reverência que assume quando ouve bossa nova. Nessa hora, não dorme. Embora permaneça sempre com os olhos cerrados, segue atento, movendo aqui e ali os bigodes, como se acompanhasse e marcasse o ritmo da melodia.
Alice tem me pedido insistentemente para que adotemos mais um gato. Além do Tom, já temos o Astro, muito arisco e três anos mais novo, que não gosta de bossa nova e se acha uma pantera negra indomável — para azar de nosso sofrido sofá. Minha filha agora quer uma gata, uma fêmea para fazer companhia aos dois. Disse-lhe que até podemos pensar no assunto. Mas desde que a nova integrante da família se chame Maria Bethânia.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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