Queima, raparigal! O humor involuntário do mercado editorial português

Matéria por  Lira Neto
29 de Junho de 2021 - 06:00
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É inevitável. Um cearense, como eu, não para de tomar sustos ao entrar em uma livraria aqui em Portugal. Sei que, por cá, em terras lusitanas, o termo “rapariga” é apenas o feminino do prosaico substantivo masculino “rapaz”. Mas talvez eu morra e não me acostume. Afinal, como bem sabe o “Novo Dicionário Aurélio de Língua Portuguesa”, em várias localidades do Brasil — o Ceará incluso —, rapariga significa o mesmo que “amante”, “concubina” e, por extensão, “meretriz”, “prostituta”.

Pois adentro a qualquer livraria de Lisboa ou do Porto e me vejo enrubescer levemente quando deparo, nas gôndolas e prateleiras, com um título como este: “As raparigas perdidas”, tradução do romance policial de Angela Marsons. Bem ao lado está “Uma rapariga entra no bar”, de Helena S. Paige — na verdade pseudônimo de três autoras, as mesmas que escreveram juntas “Uma rapariga vai ao casamento”. A polissemia transatlântica encarrega-se de atribuir sentido insólito e humor involuntário ao meramente trivial.



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