Por que é melhor não tratar ninguém por “você” em Portugal

Matéria por  Lira Neto
08 de Junho de 2021 - 05:00
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Quando mudei para Portugal, há cerca de dois anos e meio, logo estranhei a forma como os daqui, durante uma conversa informal, usam o nome do interlocutor, na função sintática de sujeito da oração, seguido do verbo conjugado na terceira pessoa do singular. “O Lira está a gostar de nosso país?”, perguntavam-me, por exemplo, dias após a chegada. “O Lira vai adorar as tripas à moda do Porto”, profetizaram-me.

Achei curioso e, mesmo sem entender o fenômeno, acabei por me habituar a ouvir tal construção, nas mais diferentes situações. “O Lira está bem acomodado?”, indagou-me o senhorio do primeiro apartamento que aluguei no Porto. “O Lira precisa conhecer os autores fundamentais da historiografia nacional”, recomendava-me um colega historiador. “O Lira” isso, “o Lira” aquilo. Nada de “tu”, muito menos de “você”.

Aos poucos, compreendi que usar o nome do interlocutor com o verbo na terceira pessoa durante um diálogo é uma maneira — ao mesmo tempo cordial e respeitosa — de se contornar a utilização instantânea do “tu”, a segunda pessoa do singular, pronome que, para muitos, por aqui denota uma familiaridade reservada apenas aos íntimos.



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