Exportação de calçados cearenses cai 25% diante da concorrência com mercados asiáticos

A baixa nas exportações calçadistas não foi exclusividade do Ceará. De 10 estados presentes em relatório da Abicalçados, apenas dois não tiveram queda em valores

Matéria por  Ingrid Coelho
26 de Janeiro de 2025 - 12:00
capa da noticia

O Ceará exportou seis milhões de pares de calçados a menos em 2024 na comparação com 2023. É o que mostra relatório da Associação Brasileira da Indústria Calçadista (Abicalçados) com dados da Secretaria de Comércio Exterior (Secex). O número representa, em dados percentuais, uma queda de 17,5%.

Foram 30,1 milhões de pares de calçados do Ceará enviados ao exterior em 2024. Já em 2023, o número de pares foi de 36,6 milhões. Em valores, a perda foi de cerca de R$ 66 milhões entre 2023 e 2024 (queda de 24,9%). O valor médio por par também teve retração de 9%.

A baixa nas exportações calçadistas não foi exclusividade do Ceará. De 10 estados presentes no relatório da Abicalçados, apenas dois não tiveram queda em valores. Foi o caso da Bahia, com tímido resultado de 2,1% de crescimento, e do Mato Grosso do Sul, com avanço de 335%.

Duramente impactado pela tragédia climática do ano passado, o Rio Grande do Sul, maior produtor calçadista do Brasil, também teve quedas em valores (-10,9%), número de pares (-8,6%) e no valor médio por par (-2,6%).

O estado gaúcho e o Ceará concentram boa parte da produção de calçados do Brasil. Se por um lado as exportações de calçados amargam resultados negativos, por outro, a produção calçadista dá sinais positivos.

Para o professor de MBAs da Fundação Getulio Vargas (FGV), Ulysses Reis, a tendência é que a competição internacional quando se fala de mercado calçadista aumente. "China, Indonésia e Camboja estão se tronando melhores na indústria. Não só em tecnologia de produção, mas em custos. Eles não pagam IPI, não têm os custos da ineficiência da malha rodoviária e portuária e não contam com as burocracias de toda ordem que temos no Brasil".

"Acredito que a tendência é que tenhamos uma redução nas exportações em 2025, principalmente no caso do Ceará. As cidades do Rio Grande do Sul que foram mais afetadas pelas enchentes e têm indústria calçadista retomaram a capacidade produtiva rapidamente e provavelmente vão vender mais".

Exportações por estado

  • Rio Grande do Sul: US$ 35,4 milhões
  • Ceará: US$ 18,7 milhões
  • São Paulo: US$ 6,7 milhões
  • Bahia: US$ 3,3 milhões
  • Paraíba: US$ 3,06 milhões
  • Minas Gerais: US$ 2,4 milhões
  • Paraná: US$ 1,1 milhão
  • Santa Catarina: US$ 1,06 milhão
  • Rio de Janeiro: US$ 327,2 mil
  • Mato Grosso do Sul: US$ 88,6 mil
  • Outros: US$ 150,1 mil

Fonte: Secex; elaborado pela Abicalçados

De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a variável "Preparação de couros e fabricação de artefatos de couro, artigos para viagem e calçados", que compreende a produção calçadista, cresceu 22,4% de janeiro a novembro de 2024 na comparação com igual período de 2023.

À coluna, o instituto ressaltou ainda que "a variável agrega o setor, mas sabe-se que no estado há predominância da atividade de calçados. Então, é uma variável muito próxima".

A produção industrial calçadista foi destacada pelo presidente da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec), Ricardo Cavalcante, em entrevista à Verdinha na última quarta-feira (22). À coluna, ele reforçou que a indústria cearense representa 19,5% do Produto Interno Bruto local e "arrecada 22% do Imposto sobre a Circulação de Mercadorias e Serviços do Estado".

"Representamos 31% das carteiras assinadas dentro do Ceará. Temos hoje 1,2 milhão de carteiras assinadas na indústria, o sistema Fiec representa 380 mil delas, então esse número mostra que o setor é muito representativo", enfatiza Ricardo Cavalcante.

Exportações brasileiras de calçados

No Brasil, o volume de calçados exportados somou US$ 72,3 milhões em 2024, queda de 1,4% na comparação com 2023. Apesar desse resultado, em número de pares, houve crescimento de 5,4%. O valor médio por par caiu 6,5%.

Em informativo publicado em janeiro deste ano, o presidente-executivo da Abicalçados, Haroldo Ferreira, afirmou que o ano foi de "inúmeros desafios" e que, após "as enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul em maio, inclusive com impacto na produção de calçados, a atividade patinou".

"Por outro lado, o mercado doméstico brasileiro, aquecido nos meses subsequentes, ajudou na recuperação rápida", explicou Haroldo. Ele acredita que o mercado doméstico, assim como em 2024, deve ser o motor do crescimento da indústria calçadista, "já que a expectativa é de mais uma queda nas exportações" ao longo de 2025.

Perspectivas para 2025

O economista Ricardo Coimbra pontua que o cenário para as exportações de calçados cearenses em 2025 dependerá da postura do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, já que o país norte-americano é o principal comprador do produto do Estado.

"Parte significativa das nossas exportações são para o mercado norte-americano. Temos que observar agora quais serão as tratativas do novo governo, se de repente haverá algum tipo de tributação em relação aos nossos produtos, visto que o posicionamento do presidente Trump é criar algum mecanismo de produção à indústria nacional", avalia Coimbra.

Ulysses Reis também vê os possíveis impactos nas relações comerciais com Donald Trump na presidência dos Estados Unidos. "Há uma coisa muita séria que é um acordo entre Argentina e EUA que Trump e Milei tem conversado sobre. Se isso acontecer, seria bem prejudicial para indústria brasileira e também para indústria calçadista, perderíamos espaço de exportação para a Argentina", destaca.



Você atingiu o limite de matérias gratuitas desse mês, adquira uma assinatura digital para desbloquear esta notícia e mais do melhor jornalismo local

Logo

Tenha acesso ilimitado ao maior portal de notícias do Nordeste

Precisa de Ajuda?

Entre em contato com a nossa central de atendimento: