Eu me prometi que não iria lamentar a falta do Carnaval esse ano. Claro que não cumpri
Eu me prometi que não iria lamentar a falta do Carnaval esse ano. A razão pelo qual ele não irá acontecer é incontestável. Tenho consciência disso. Então, prometi a mim mesma sucumbir à resiliência e nem pensar nessa coisa de festa de rua, dança, música e brincadeira.
Na verdade, eu me faço promessas absurdas. Chamaria até de uma mania feia essa de criar juramentos que sei que não vou cumprir. É claro que vou quebrar essa promessa ruim e sem jeito.
Nesse intervalo entre a consciência e o desejo, caí em um mundo imaginário no qual estaríamos, nessa semana, não nos isolando novamente para lutar contra um vírus contagioso e mortal, mas sim gastando nossos trocados em fantasias esquisitas, glitter de procedência duvidosa e preparando a bolsa térmica do peru de Natal para acomodar as latinhas.
E aí o cenário vai se formando em minha cabeça, de maneira quase incontrolável. De fundo musical, começa com Barões da Pisadinha (surgido tardiamente em minha vida e com o qual, até então, só tive oportunidade de dançar fazendo faxina em casa). A não ser que alguma atração fulminante de internet aparecesse, certamente esse Carnaval seria deles.
Estaria na rua, que podia ser dos tabajaras, a treze de maio ou a padre climério em Fortaleza, vestindo uma roupa já toda descaracterizada, com a maquiagem borrada, o cabelo molhado das chuvas de fevereiro, bebendo uma cerveja quente num bar daquelas em que você não sabe mais nem como chegou muito menos qual é a sua mesa.
E rindo com gente que você nunca viu na vida, mas que tal hora já sabe que você tem um cachorro chamado tapioca e que tá com o nome sujo no Serasa, e dizendo eu te amo pros amigos mas não é porque eu já bebi não eu te amo mesmo, e só basta você me ligaaaar ai é minha música me abraça queee eu vou correndo te encontrar e aí alguém te puxa pra dançar e você segura minha bolsa amiga, eu já te supereeei eita essa é pesada espera amiga ceeeerteza eu supere-eei ai mulher não vou chorar bebe outro gole da cerveja já tá quente faz é tempo e você pega e toma um gole da de outra pessoa (corta meu delírio mental pensando que essa é das cenas a mais impensável atualmente. mas voltemos)
basta mandar mensagem outra vez se não recaireei, vamos comprar outra é três por dez tem da Roberto Claudio já encontra outra turma e se abraça e diz vamos marcar tô com saudade vamos tirar uma foto tá rocheda, tô nem vendo, a energia caótica tomando conta da noite e aí alguém se pega bonito e você opa peraí e sai rindo nossa como isso aconteceu uuum coração que é ragabundo toma amiga tá faltando glitter em ti e já tem brilho até no juízo e vamos de coreografia vai até o chão me ajuda a levantar minha fantasia ainda tá inteira - e claro que não tá - já que me ensinou a bebeeeer e todo mundo se ajuda e compartilha as localizações para chegar em casa bem, mesmo que amanheça sem saber exatamente como isso aconteceu. E no outro dia começa de novo.
Mas eu me prometi não lamentar a ausência do Carnaval esse ano.
(a escrita caótica nos últimos parágrafos é proposital, assim como é a velocidade da nossa imaginação, bem como costumam ser as lembranças daqueles tempos de festa)
Tenha acesso ilimitado ao maior portal de notícias do Nordeste
Precisa de Ajuda?
Entre em contato com a nossa central de atendimento: