Morte, tempo e consumo: o funeral da atenção humana
Na sociedade atual, a morte vem sendo cada vez mais banalizada
O tempo, esse senhor todo-poderoso que governa nossas vidas, nos faz dançar conforme sua música, mesmo que muitas vezes essa música seja um daqueles hits que ninguém suporta mais ouvir (espero que não seja o hit Caneta Azul a sua). Como diria o ilustre sociólogo Émile Durkheim, a sociedade é um grande relógio, e nós somos as engrenagens desesperadas tentando não nos atrasar para o próximo compromisso. Vivemos em um eterno jogo de gato e rato com o relógio, onde o tempo nos obriga a obedecer a suas regras impiedosas. Com o advento das reuniões on-line, o mundo do trabalho ganhou novos amigos do relógio que nos tornam mais reféns ainda. Chegaram Microsoft Teams, Zoom e o amigo antigo, esquecido e agora tão lembrado, Google Meet.
Psicólogos como Philip Zimbardo exploram as profundezas da psique humana, alertando-nos sobre os efeitos devastadores da "síndrome da urgência", onde cada minuto se transforma em uma corrida contra o inevitável. O tempo nos transforma em seres apressados, como se a vida fosse uma competição para ver quem consegue cumprir mais tarefas em menos tempo. E, assim, no frenesi do cotidiano, a atenção se torna uma vítima colateral dessa batalha temporal.
Eu, particularmente, em uma busca por desafiar essa nóia coletiva, sempre que viajo, me desafio a chegar bem depois do que o tempo previsto pelo aplicativo. É como se eu dissesse: “minha vida vale mais que essa pressa de cálculos do app”. Nos desafiar a aumentar o tempo para as coisas parece coisa de preguiçoso, ou lerdo ou qualquer coisa que o mundo coach alta performance - “leruaite” de não sei o que, yes, yes, yes - não concebe em sua formação, esquecendo o poder da qualidade de entregas estratégicas. Começa aí o primeiro passo do funeral da atenção.
A Morte, essa companheira incompreendida
A morte, um tabu que permeia nossas mentes, muitas vezes é banalizada em um esforço de nos protegermos do desconhecido. Enquanto antropólogos como Ernest Becker exploram a ansiedade existencial ligada à nossa mortalidade, filósofos como Martin Heidegger nos convidam a encarar a morte como parte intrínseca da existência humana. A psicologia nos lembra que nossa relação com a morte molda nossas emoções e comportamentos, afetando tudo, desde nossas escolhas cotidianas, até nossos relacionamentos mais profundos.
No entanto, em um mundo que constantemente nos bombardeia com imagens e narrativas de morte, estamos nos tornando imunes à gravidade desse inevitável destino. A morte, agora, é mais uma celebridade do que uma temida sombra. Ela se mistura ao ruído de fundo, perdendo sua capacidade de nos fazer refletir sobre a efemeridade da vida.
O que ocorre é que estamos vivendo a banalização da morte. Perdemos a capacidade de nos chocar com o mais triste momento da existência, o seu adeus eterno. O mundo, que cria formas de apaziguar verdades as escondendo, fez do ser humano hodierno um ser que chega até a achar bom quando alguém morre, por entender que aquele outro tinha diferenças tão absurdas do seu pensamento que a morte se faz mais natural do que a convivência ante as diferenças. A ausência do tempo nos deu uma obrigatória ineficiência em nossa atenção com o próximo. Chegamos ao tempo em que pensar na dor de quem se foi não pode acontecer, pois temos que enviar e-mails ou responder mensagens mais vitais que a vida. Temos aqui o segundo passo no funeral da atenção.
Consumo desenfreado - um ritual de distração
Ao unir as teorias sobre tempo e morte, encontramos um ponto de encontro surreal no reino do consumo varejista. Estudiosos do consumo, os gurus do marketing, os magos modernos da persuasão, exploram nossa vulnerabilidade temporal e a dessensibilização em relação à morte para nos convencerem de que a felicidade está à venda em prateleiras brilhantes. A nossa culpa social perante os demais seres é apaziguada pelo poder de compra que nos engana a medida em que o poder de consumo aumenta. Não é incomum escutar histórias de pessoas de alto poder aquisitivo com depressão. Quando o consumo é o remédio da tristeza, o funeral da atenção a própria vida dá o terceiro passo. Obviamente que a depressão se apresenta em muitos outros cenários da vida, apenas estamos avaliando como o consumo influencia na desconstrução da própria alma.
Philip Kotler nos lembra que compramos não apenas produtos, mas, também, a promessa de uma vida melhor, mais rápida e mais excitante. Enquanto a morte é relegada ao canto escuro de nossas mentes, o tempo nos pressiona a consumir como se cada compra pudesse deter sua marcha inexorável. Somos levados a adquirir bens não por sua utilidade intrínseca, mas como amuletos de imortalidade em forma de gadgets reluzentes com marcas de frutas e roupas de grife.
Assim, enquanto o tempo ri de nós em sua tirania incessante e a morte dança em segundo plano, somos arrastados pelo turbilhão do consumo, perdendo a atenção para o que realmente importa. Nessa comédia trágica, somos os protagonistas desatentos, comprando ilusões e perdendo a oportunidade de saborear cada momento em sua essência única.
Talvez sua marca possa ir num caminho diferente e no lugar de apenas dizer as suas vantagens, fosse, quem sabe, mais eficiente escutar e dar momentos memoráveis de sua marca com aquele humano que você chama de cliente. Falando o nome dele, você pode ter alguma atenção e vender mais que um produto, mas, também, uma história de vida para ser compartilhada. Pense nisso, o Natal ainda está longe e sua marca pode criar algo memorável, que não apenas vende algo, mas vai além, ganhando um humano pela alma em forma de propósitos que se transformam em sorrisos.
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