O que significa um corpo gordo no tapete vermelho do Festival de Cannes?

Cantora Yseult usou o clássico modelo de Dior nesta edição do festival de cinema

Matéria por  Elaine Quinderé
26 de Maio de 2024 - 07:00
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Era 1947, mais precisamente no dia 12 de fevereiro, que a marca Dior (na época, conhecida pelo nome do seu criador, Christian Dior) apresentava ao mundo da moda o “The New Look”.

Para um pós-Segunda Guerra, era um estilo revolucionário: ressurgia ali uma mulher mais feminina e sensual, com a silhueta destacada de forma muito elegante.

“The New Look” era composto por uma saia midi rodada e o blazer Bar, super acinturado com uma barra peplum. Basicamente, a silhueta mirava numa cintura finíssima e quadris mais largos, o que hoje chamamos de corpo “violão” ou “ampulheta”.

No fim das contas, o New Look era para mulheres magérrimas, de barrigas negativas.

Corta para 1956, quase 10 anos depois, o artista Flávio de Carvalho sai pelo centro de São Paulo trajando uma minissaia de nylon e uma blusa bufante: era a introdução da saia no armário masculino. Mary Quant só “inventou” a minissaia em meados dos anos 1960, mas Carvalho já debutava o modelo antes disso, chamando-o de New Look.

Era o artista escandalizando e exibindo à sociedade brasileira dos anos 1950 a primeira quebra do status quo referente ao New Look de Christian Dior.

Foto: Enciclopédia Itaú Digital

Chegamos em 2024, anos em que o conservadorismo na moda ganha espaços cada vez mais perigosos. A pauta da diversidade foi colocada na gaveta, afinal, quem se importa em vestir corpos maiores?

É hora de trazermos as grandes tendências dos anos 1990 e 2000: a magreza extrema. Nas passarelas, o comeback das supermodelos dos anos 1990, como Kate Moss, Amber Valletta e Shalom Harlow. Todas na faixa dos 50 anos, mas ainda assim, magérrimas.

É como se no mundo da moda só houvesse espaço para uma coisa por vez, sendo impossível exibir todos os corpos, idades e cores ao mesmo tempo. E nós já tivemos nossos 15 minutos de fama.

Então, como imaginar que um dia uma mulher gorda e negra iria usar um look como o “The New Look” da marca Dior? E num tapete vermelho, ainda por cima?

Foto: Valery HACHE / AFP

Foto: Divulgação

A cantora Yseult foi a grande contemplada e apareceu no red carpet de Festival de Cannes vestindo a clássica silhueta da marca. A cantora deu vida ao modelo e mostrou a versatilidade para corpos maiores. Mostrou que esse corpo, tão desdenhado pelo mundo da moda e das grandes marcas, também é sinônimo de elegância e estilo à francesa.

Yseult acrescentou um capítulo transgressor ao “The New Look”. A presença de uma mulher gorda e negra, vestindo um look icônico, em um tapete vermelho é a cereja do bolo.

Na internet, a cantora sofreu ataques, afinal, como um look tão tradicional e emblemático vestiu uma mulher gorda? A resposta é simples: a gente vale a pena.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.



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