O Hidrogênio Verde do Pecém e a desconfiança dos cearenses

A questão levantada por empresários e cientistas cearenses é esta: o Hub do H2V agregará valor aqui no Ceará, ou apenas será, como na época do Descobrimento, uma apropriação do novo Pau Brasil?

Matéria por  Egídio Serpa
11 de Maio de 2023 - 05:52
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Teve grande simbolismo o evento que reuniu ontem no Complexo do Pecém o governador do Ceará, Elmano de Freitas, e o primeiro-ministro da Holanda, Mark Rutte. 

Ambos celebraram um acordo que cria o já chamado “Corredor do Hidrogênio Verde”, ligando os portos do Pecém e de Roterdã, que são legal e literalmente sócios. 

Outro acordo, também assinado na mesma ocasião, indica que as duas partes desenvolverão os esforços possíveis e necessários para tornar Pecém e Roterdã “Portos Verdes”. 

O primeiro sinal simbólico que se extrai do acontecimento de ontem está no reaquecimento político do projeto do Hub do H2V no Complexo Industrial e Portuário do Pecém. O tema parecia hibernado, mas agora voltou a ocupar a atenção da mídia, graças à presença física do chefe do governo holandês. 

A Holanda, seu governo e sua sociedade estão entre os grandes países que trabalham para tornar sustentável o desenvolvimento econômico e social do mundo, e isto passa pela substituição, o mais rápido possível, das energias de origem fóssil pelas energias renováveis. 

O projeto do Hub do Hidrogênio Verde do Pecém também retorna ao noticiário, desta vez com o protagonismo holandês, que aporta seu prestígio e seu capital ao empreendimento cearense.

Mas esta coluna, nos últimos três meses, tem ouvido de empresários e de proeminentes acadêmicos cearenses opiniões sobre o que deve sugerir o Ceará às grandes empresas nacionais e estrangeiras que estão chegando para tornar realidade o Hub do H2V do Pecém. Eles são unânimes na formulação da seguinte questão:

O Complexo do Pecém será apenas uma área geográfica para a produção, o armazenamento e a exportação, via marítima, do Hidrogênio Verde, ou as unidades industriais de produção a serem construídas em sua geografia agregarão valor ao produto aqui mesmo no Ceará?

Há – entre industriais e agropecuaristas e, também, entre a comunidade científica – a desconfiança de que o Ceará produzirá Hidrogênio Verde exclusivamente para o consumo dos países da União Europeia – preferencialmente a Alemanha e a Holanda. 

Desconfia-se de que as empresas do Hub do H2V utilizarão mão de obra, expertise e tecnologia próprias, olvidando o investimento que faz hoje a Federação das Indústrias (Fiec) por meio do seu Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai-CE), que instalou um Centro de Excelência para a formação e a qualificação de quadros técnicos destinados às empresas de geração de energia solar e eólica. 

Desconfia-se, ainda, de que as diligências da Universidade Federal do Ceará (UFC) – cuja Reitoria criou um curso para a especialização de engenheiros e outros profissionais de nível superior que estarão disponíveis para as empresas do Hub – serão, igualmente, preteridas pelos investidores, que preferirão o seu próprio time de especialistas. 

Parece uma Teoria da Conspiração, mas essas desconfianças são pertinentes e fazem sentido. Os europeus destruíram suas florestas e agora impõem aos países que as têm, como Brasil, condições para fazer negócios de exportação e importação.

Em fevereiro, este colunista percorreu, de automóvel, os 700 km que separam Berlim, na Alemanha, de Amsterdam, na Holanda. Viajou por autoestradas maravilhosas, permanentemente ladeadas por campos de produção de batata e beterraba. E não viu sinal do que se denomina, aqui no Brasil, de reservas florestais. Fazendas aqui, florestas lá, já disseram os agricultores norte-americanos, que temem o agro brasileiro.

Resumindo:  para esses cearenses desconfiados, o temor é de que, como na época do Descobrimento, em 1.500, os europeus desembarquem no Pecém, celebrem a primeira produção do Hidrogênio Verde e carreguem daqui para lá, em modernos navios e em forma de amônia, o Pau Brasil de hoje.

Assim, antes de o jogo começar, será bom estabelecer as regras com as quais esse jogo será jogado. 

Miremos o caso dos nossos maravilhosos e disputadíssimos mármores e granitos. Por culpa do governo estadual – não deste, de Elmano de Freitas, mas de recentes – o Ceará extrai e exporta, sem agregar valor, matéria-prima em estado bruto. 

A preço de banana, exportamos rochas ornamentais para a Itália e outros países, que as transformam em caríssimas peças para pisos e revestimentos de grandes edifícios. Os aeroportos de Dubai e Abu Dabi são belos, também, porque têm pisos e paredes revestidos com o granito cearense. 



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