Sudestino: quando uma boa intenção sai pela porta dos fundos

Matéria por  Durval Muniz de Albuquerque Jr
27 de Julho de 2021 - 06:00
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No dia 19 de julho, uma segunda-feira, o grupo Porta dos Fundos publicou, no YouTube, um esquete de humor intitulada Sudestino, que teve grande repercussão nas redes. O vídeo foi concebido pelo roteirista potiguar Edu Araújo e teve a participação de Gregório Duvivier, no papel de Bruno, um paulista que se mudou para o Recife, porque sua companheira passou num concurso; a atriz e jornalista pernambucana Ademara Barros, no papel de Júlia, funcionária da empresa onde Bruno está começando a trabalhar e o humorista baiano João Pimenta, que faz uma pequena participação como um outro funcionário da empresa.

O esquete parte de uma boa intenção, a de questionar as generalizações estereotipadas e preconceituosas feitas em relação aos nordestinos, ao fato de milhões de habitantes de nove estados da federação serem vistos como tendo características físicas e culturais homogêneas, muitas vezes pejorativas ou depreciativas. 

No entanto, me parece, que a estratégia adotada não foi a mais feliz, primeiro porque para fazer o questionamento da generalização adotou outra generalização, apostando que o deboche, o discurso do humor relativizaria e problematizaria essa generalização. 

Ao adotar a estratégia de inversão da direção do discurso, o roteirista possivelmente não se deu conta de que, quando apenas invertemos algo de direção, terminamos por ficar preso aos mesmos pressupostos. No caso, a inversão naufraga, ainda mais, pois o alvo da generalização é uma identidade inexistente: a de sudestino. 

Ao pretender demonstrar a artificialidade de uma identidade homogeneizada, mas que efetivamente existe e é assumida, inclusive com orgulho por alguns, como a identidade nordestina, invertendo a direção do discurso para uma identidade que ninguém assume, que não é defendida ou incorporada por ninguém, o discurso crítico cai no vazio, pois ninguém vai se sentir referido por ele. O esquete fica como um Quixote esgrimindo contra um fantasma que se sabe um fantasma.



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