Roberto Machado: quando o pensamento encontra o arquivo

Matéria por  Durval Muniz de Albuquerque Jr
08 de Junho de 2021 - 05:00
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O filósofo Roberto Machado, que nos deixou recentemente, era um homem, um intelectual, de gestos muito significativos. Quem teve a sorte de conhecê-lo pessoalmente lembra que sua própria presença física, corporal, se fazia através de gestos repetidos e marcantes: a expressividade das mãos, muitas vezes levadas até o rosto, quando seus olhos se tornavam pensativos, meio que distantes, compunham a própria imagem do pensador, de alguém que está visualizando algo não visível e que irá ser materializado através da fala, sempre clara, didática, rigorosa. 

O belo sotaque do menino nascido e crescido no Recife, em 1942, servia de adorno as suas falas, sempre meditadas, sempre criativas, nascidas de muitas horas de leitura, de anotações, de frequentações a bibliotecas e arquivos. As pausas significativas com que pontuava suas digressões serviam como alerta de que o pensamento inovador, que rompe com a doxa, com o sentido comum, se faz no silêncio, na ruminação. Aprendi com ele que, às vezes, se faz mais pelo pensamento se quedando em silêncio do que alimentando a polêmica, a opinião.

Já foram muitas e justas as homenagens prestadas a ele. Já se falou muito desse filósofo que nos impressionava, desde o primeiro encontro, por sua própria modéstia, pela falta de arrogância, por certa timidez charmosa, pela fala mansa, por nunca se colocar como dono da verdade, por mais perguntar, questionar, do que ter certezas sobre tudo. Roberto Machado nunca queria pontificar sobre nada, queria ser amigo da sabedoria, sentido mesmo original do ser filósofo, queria fazer do saber algo que aproxima e constrói laços transformadores.

E para ter sabedoria, para se tornar um sábio, é preciso saber escutar, fazer silêncio profundo, saber ouvir o outro com atenção. Roberto Machado sabia que, quem não para de falar, quem está sempre ocupado em emitir opinião, não tem tempo para sequer escutar a si mesmo, tende a repetir as mesmas fórmulas prontas e acabadas, tende a cair nos enunciados já prontos. 

Quem o conheceu é testemunha de como ele era capaz de escutar, de prestar atenção profunda no que se dizia e, depois, fazer suas observações sempre problematizadoras, que te levavam a ver outros ângulos naquilo que falavas. Seu pensamento era inquieto e buscava inquietar, não vomitar certezas.

Queria em sua homenagem, como um historiador que muito foi marcado por seus livros, por suas conferências, pelos poucos encontros que tivemos, ressaltar um gesto do filósofo e professor Roberto Machado: o gesto de ir ao arquivo. Gesto que aprendeu, sem dúvida, com seu professor e amigo Michel Foucault. 

O que fez de Foucault um pensador original, um filósofo único, é que sua filosofia se fazia a partir do arquivo. Ao invés de lidar com esquemas filosóficos abstratos e gerais, onde se procura acomodar todos os eventos, podendo-se, por isso, falar de tudo, Roberto aprendeu com o filósofo francês que, antes de se tratar de qualquer evento passado, é preciso se sujar na poeira dos arquivos, é preciso se embrenhar pelos ditos e escritos do arquivo. Roberto Machado fez da crítica as formas de pensamento e das memórias disciplinares o pão de seu ofício.



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