Barbeiro muda vida de autistas ao criar método de corte de cabelo

Alencar Barber atua no interior do Ceará e já ajudou crianças que há quatro anos não iam a um salão.

Escrito por Diego Barbosa diego.barbosa@svm.com.br
28 de Outubro de 2025 - 07:00
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Você tem uma criança. Ela possui Transtorno do Espectro Autista (TEA). Atividades simples, a exemplo de um corte de cabelo, podem tornar-se desafiadoras. Ficam agitadas, podem ser sensíveis ao toque no couro cabeludo e costumam correr de um lado para o outro. Como fazer, então? Jeferson Santos Alencar tem resposta comprovada na prática.

Conhecido como Alencar Barber 1000, ele desenvolveu método específico para fazer com que um momento de cuidado pessoal não seja torturante para neurodivergentes. Prefere estar de outro lado, agir de outra forma, em face de situações horrendas.

“Não quero replicar aquele método de o pai ou a mãe abraçar a criança na cadeira pra que o barbeiro consiga cortar o cabelo. Isso é uma agressão, uma violência diante da sensibilidade do autista. É como se estivesse batendo neles”, defende.

Dito isto, segue alguns passos a fim de promover o bem-estar pretendido. O primeiro é conscientizar os pais. Informa que o trabalho dele se adaptará à criança. Isso fará, por exemplo, com que o corte de cabelo dure o tempo que for preciso para que o serviço seja bem feito e o pequeno cliente se sinta bem. Em alguns casos, já passou três horas e meia na lida.

“Houve crianças que precisei atender na rua, no chão, outras rodando em cima de uma moto, correndo… Me adapto para ela se sentir o mais confortável possível, pra realmente não gerar desconforto”. O segundo passo vai ao encontro dessa mesma premissa. Alencar diz que procura não “triscar” na cabeça dos pequenos.

Máquinas com quase zero ruído são utilizadas por Alencar Barber 1000 para otimizar atendimento.
Legenda: Máquinas com quase zero ruído são utilizadas por Alencar Barber 1000 para otimizar atendimento.
Foto: Arquivo pessoal.

Não à toa, pouco a pouco adquiriu no mercado máquinas com quase zero ruído. Elas existem, e conferem grande diferença ao atendimento. Deixa a clientela pimpolha muito mais calma. “São vários os casos e, portanto, várias técnicas. Tudo depende do nível de suporte de autismo e da sensibilidade da criança. Para cada uma delas, há um aprendizado”.

Bendita a hora que esse maranhense residente em Cascavel, município do interior do Ceará, resolveu se dedicar à barbearia. Tudo começou em 1988, na altura dos 14 anos de idade, por necessidade. A família de Alencar não tinha boas condições financeiras – a mãe era autônoma e o pai, encanador hidráulico – o que fez com que o rapaz cedo fosse à luta.

Resolveu observar barbeiros no próprio ofício, e acolheu no coração a vontade de fazer o mesmo. “Eu tinha uma tesoura e uns pentes em casa – tendo em vista que minha mãe cortava nosso cabelo – e inventei pros meus amigos que sabia fazer isso também. Só não suspeitei que, a partir dessa mentira, ia dar tudo certo”.

Para Alencar, conscientização dos pais é o primeiro passo para um atendimento inclusivo.
Legenda: Para Alencar, conscientização dos pais é o primeiro passo para um atendimento inclusivo.
Foto: Arquivo pessoal.

Desde esse dia, passou a cuidar da beleza capilar dos vizinhos da rua. Cobrava R$ 1 pelo corte. Com muito sacrifício, aperfeiçoou a aparelhagem e obteve ajuda do pai para montar a própria barbearia.

Ela funcionou durante algum tempo no bairro Anjo da Guarda, em São Luís do Maranhão, e encontrou novo endereço em Cascavel, Ceará, após Alencar vir ajudar o primo da esposa e ter se apaixonado pelo chão alencarino.

O combo de outras transformações veio a galope. O profissional chegou a atender crianças autistas que há quatro anos não cortavam o cabelo porque não conseguiam ser acolhidas no processo. Nesse meio tempo, Alencar também descobriu o diagnóstico de autismo de uma das filhas, Débora, motivo ainda maior para impulsionar serviços na área.

“Hoje ela tem 16 anos e, com ajuda nossa, conseguiu superar muitos desafios do espectro. Foi a partir dela que despertei para as complexidades do autismo. Antes eu era muito ignorante. Assim como muitos pais, também não aceitei o diagnóstico, não consegui entender. Foi a partir do nascimento dela que passei a saber e acolher”.

Cerca de 60 crianças são atendidas semanalmente por Alencar apenas em Beberibe.
Legenda: Cerca de 60 crianças são atendidas semanalmente por Alencar apenas em Beberibe.
Foto: Arquivo pessoal.

Apesar de não se restringir somente a pessoas com autistas, uma vez ser especialista em barba e colorimetria – “quem chegar no meu salão, será bem atendido” – Alencar gosta mesmo de se encarar enquanto vocacionado para o bem. Não à toa, hoje também trabalha para a Prefeitura de Beberibe por meio de um projeto social, e atende por volta de 60 crianças, com autismo ou não, na sede do município, geralmente às quartas-feiras.

Ao fim do dia, quando chega em casa após a labuta e divide a experiência com a esposa, Renata, aprende que todos merecem respeito e ser tratados de igual forma nas especificidades que os contém. De igual forma, o homem acumula vontades muito grandes. 

Uma delas, claro, é ter uma uma barbearia toda adaptada, com brinquedos sensoriais, paredes revestidas de EVA e fisioterapia para crianças com autismo. Outro é estender a própria vivência amorosa a outros profissionais do ramo, e inspirá-los. Felizmente, esse passo já tem sido dado e acontece no interior da própria casa por meio da filha, Josefa Ketteny, trancista profissional com olhar para a causa neurodivergente tão sensível quanto o do pai. Alegria estratosférica.

“Amor é abraçar o próximo sem distinção de raça, cor, credo… Simplesmente abraçar, independentemente de qualquer coisa. Nesse trabalho, me sinto amado pelas pessoas. Aqui todo mundo é tratado com respeito porque respeito mantém respeito. É minha bandeira”.


Esta é a história de amor do barbeiro Jeferson Santos Alencar pela causa neurodivergente. Envie a sua também para diego.barbosa@svm.com.br. Qualquer que seja a história e o amor.



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