Os nossos ‘lugares de si’ já nos salvaram tantas vezes na vida

É permitido desesperar-se algumas vezes na vida. Perder-se. E pedir socorro. Mas, é preciso estarmos atentos: há sempre um lugar de afeto onde cabe mais de nós, e mais uns e tantos outros

Matéria por  Dahiana Araújo
08 de Outubro de 2021 - 15:30
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Esses dias chorei ao acordar. Silenciei ao longo do dia e, antes de dormir, abri um sorriso largo. Uma travessia que mais parecia um banho, imersão nas águas calmas e agitadas de mim. Lavei, assim, a alma, como se serenasse meu espírito e mente. Porque a vida, como diria Guimarães Rosa, “aperta e afrouxa” - todo mundo sabe. 

Essa vida nos relembra que a constante busca por equilíbrio envolve também olhar-se em corda bamba vez ou outra. E pra onde seguir quando essa estrada adianta-se como a metáfora da utopia de Eduardo Galeano? "Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos", sentia o escritor uruguaio.  

Nesse mesmo compasso do mestre, ao longo do meu dia de avessos, meditei, ouvi música, fiz preces e cheguei ao local das nossas esperas que muito guardamos em silêncios. Verdadeiros abrigos, onde há proteção. Porque muito do que precisamos está dentro de nós. 

Tantos espaços vazios e perdidos - em nós, em mundos - poderiam servir de morada a pessoas, sentimentos. Nossos e alheios. Nossa voz repetida soa como eco, outra metáfora, a do abrigo vazio. 

Agora, enquanto dançam aqui as palavras, chamo esses espaços perdidos e encontrados em nós de “lugares de si”. Por que não de mim? Porque entendi que cada um de nós os tem, em algum canto perdido entre arestas dos nossos corpos, mentes. Corações. Nos próprios avessos. E tropeços.

Os “lugares de si” já nos salvaram tantas vezes na vida e, por incrível que pareça, outras vezes, esquecemos de para eles retornarmos. Eles se estendem ao longo dos caminhos e atalhos pelos quais tentamos seguir. Misturam-se entre espaços de afeto e acolhimento. De solidão e recanto de si. Mas também autocuidado. Solidariedade e empatia. 

Até os nossos lugares preferidos do mundo são ainda espaços-extensão desses ‘lugares de si’. Pedaços de nós que se refletem no que temos a oferecer - e a receber também. Porque a entrega de vida é completa quando é ida-e-volta. 

E eles - os lugares - se camuflam como ambientes concretos, mas representam riquezas escondidas no baú de infinitos que somos nós. Talvez por causa disso tantas vezes é aqui e aí por dentro que nos deparamos com uma tríade que nos faz encontrar alívio diante dos caminhos embaraçados: abrigo, proteção e coragem. Coragem!

Uma tríade da segurança de si, local de existência quase que divina, em que viver é apenas respirar e sentir-se livre. Não há medos, injustiças, preconceitos, arrogâncias, estamos absolutamente distantes de violências, tantas… há música, poesia e amor. De toda forma, ou nenhuma outra.

Mas o caminho que nos leva a esses “lugares de si” é uma travessia de sentimentos, sensações, horrores, delírios e plenitudes também. Sendo assim, é permitido desesperar-se algumas vezes na vida. Perder-se. E pedir socorro. Ver-se desnorteado frente àquilo que nos marca. Seja nos silêncios de dor ou nos barulhos de amor. 

Nesse trajeto infindo, os "lugares de si” não têm portas. Apenas janelas escancaradas, voltadas ao mar de horizontes guardados na imensidão existencial que se abre aos nossos próprios olhos. Estamos atentos, há sempre um lugar de afeto onde cabe mais de nós, e mais uns e tantos outros. 

 

 



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