Acreditar é milagre. Gratidão é hábito do nosso coração. Oxalá! 

Descobrir a cura na copa das árvores de um quintal, no banho de mar, no sorriso de criança, na pele enrugada é a certeza de que tudo posso

Matéria por  Dahiana Araújo
14 de Maio de 2020 - 14:46

Era início da década de 1990, eu já sabia ler e escrever, mas pintar ainda era uma das principais atividades da escola. Então, em uma dessas datas religiosas do calendário anual, a professora nos trouxe uma imagem de Maria, a Santa. Junto com o papel para colorir, o recado: "Essa tarefa começa na sala e termina em casa. A pintura é livre, usem as cores que desejarem. Mas, atenção! É proibido pintar o véu de Maria da cor vermelha". 

Eu era criança demais. Não tinha dimensão daquele recado. Segui com minha arte. Eu amava pintar. uma atividade silenciosa, e o tempo era meu amigo. Devotei todo meu respeito e atenção à atividade, que era especial. Divina. Imagem da proteção que aprendi a ter quando criança. 

Na verdade, eu não sei quem me ensinou a rezar. Mas foi com as mulheres da minha família que aprendi a confiar minhas preces de criança à Nossa Senhora. Herança matriarcal. Eu era muito pequena, mas já tinha muitos pedidos, promessas. Esperas de vida. Eu já era dona de mim e sabia aguardar paciente as respostas. 

Mas, voltando à tarefa de casa... naquela segunda-feira pós-feriado santo, cheguei calma e tranquila, entreguei a atividade. A repreensão veio antes do fim da aula. Eu tinha esquecido? Era proibido pintar o véu da Santa de vermelho. Mas eu pintei. Fui julgada com olhares, condenada com a nota da mesma cor escolhida pra pintar o véu de minha Santa. 

Até hoje, eu não sei porque pintei o véu de Maria de vermelho. Ainda tinha aquela inocência boa característica da infância. Nada de mal poderia me acontecer. É claro! Àquela altura, a única sensação era a de que minha Santa era a imagem mais bonita da vida. Ali, no papel, ela ganhou uma expressão intensa. Parecia saltar vibrante para dialogar sobre as tantas preces, pedidos e promessas a ela endereçados. Eu estava feliz. Minha Santa estava viva. 

Quando eu cresci, frequentei muitos lugares de oração, religiões diferentes, crenças divergentes. Mas um mesmo coração. O meu de criança. Disposto a acreditar no que viesse de bem, de bom. Em alguns momentos, me vi como a criança que pintou de vermelho o véu de Nossa Senhora. Culpada. Apta a não crer nas grandezas que estavam bem na minha frente. Segui adiante. Passos a passo.

Decidi: não quero mais desacreditar. Em Deus. Em santas, santos, deuses, oferendas, promessas. Milagre! Descobrir a cura na copa das árvores de um quintal, no banho de mar, no sorriso de criança, na pele enrugada é a certeza de que tudo posso. Eu creio que sim.

E Agradeço pelas tantas formas que me ensinaram a amar, sentir, rezar, louvar. Crença no que tenho, no que sou. A bênção. Nas rainhas do céu, da terra e das águas. 

Hoje, a minha certeza é a de que a gratidão, o amor e a fé são os melhores hábitos do nosso coração. O percurso a seguir, a rota mais certa. Acredito em tudo, em toda sintonia que me liga à natureza do querer o bem. Luz dos nossos caminhos. Sei que minha poesia é oferenda a Deus, deusas e deuses. Minhas orações, as palavras de um peito aberto, livre e o maior herdeiro dos sentimentos e cores de uma infância que tudo enxergava com olhos de amar.



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