Um altar para os grandes mestres cearenses numa antiga estação de trem do Estado

O Ceará é o pífano dos irmãos Aniceto, a louça de barro de Dona Branca, o riso do Palhaço Pimenta. Conheça a história de guardiões das nossas tradições

Matéria por  Beatriz Jucá
01 de Setembro de 2022 - 14:00
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Há de se exaltar sempre os grandes mestres das nossas tradições. O Ceará é o pífano dos Irmãos Aniceto, que já atravessa dois séculos com música, uma força motriz da cultura popular. É o riso provocado pelo palhaço Pimenta, que não sabia o que era circo e depois virou mestre, com seu nariz de tinta vermelha e as piadas contadas diante da cortina amarela de seu picadeiro, com aquela curiosa textura de animal print.

Palhaço Pimenta virou mestre com seu nariz de tinta vermelha e as piadas contadas diante da cortina amarela de seu picadeiro
Legenda: Palhaço Pimenta virou mestre com seu nariz de tinta vermelha e as piadas contadas diante da cortina amarela de seu picadeiro
Foto: Fotos: Jarbas de Oliveira/Imagem: Murilo Monteiro

Eu o acompanhei por meses há alguns anos e ouvi como ele aprendeu a “fazer tudo em circo, até ensinar”.

O Ceará também está nas peças de cerâmica feitas por dona Branca lá no Ipu, que há décadas servem comida à nossa mesa. Dona Branca começou a fazer louça de barro com a avó, aos 10 anos, escondida do pai, que não queria que a filha trabalhasse. Nunca mais parou. 

Você duvidaria que nós, cearenses, somos também a energia dos reisados? Até o mais ateu há de reconhecer a cultura de fé das rezadeiras nos rincões do sertão. Abra o coração, leitor, e sinta o quanto de nós há na história de cada um dos nossos grandes mestres da cultura. 

Vale a pena visitar esses guardiões de nossas tradições no altar dedicado a eles numa das mais antigas estações de trem do Estado
Legenda: Vale a pena visitar esses guardiões de nossas tradições no altar dedicado a eles numa das mais antigas estações de trem do Estado
Foto: Fotos: Jarbas de Oliveira/Imagem: Murilo Monteiro

Vale a pena visitar esses guardiões de nossas tradições no altar dedicado a eles numa das mais antigas estações de trem do Estado. A exposição “Legado dos Mestres” ficará aberta nas noites de sábado e manhãs de domingo até outubro, na Estação das Artes.

E não há como não se emocionar, por exemplo, com a imagem do sorriso de Dona Nice Firmeza, pioneira nas artes do Ceará, sempre com aquela flor de delicadeza acomodada em uma das orelhas.

Visitar o espaço no último domingo me levou às histórias que ouvi de perto de vários desses mestres. Alguns me abriram as portas de suas casas e revelaram, com toda a simpatia que a cearensidade poderia lhes dar, o maravilhoso mundo deste universo criativo que é também uma homenagem às memórias da nossa terra.

Pouco antes da pandemia, estive na casa-museu de Raimundo, o mais antigo dos integrantes da banda cabaçal Irmãos Aniceto.

O maravilhoso mundo deste universo criativo que é também uma homenagem às memórias da nossa terra
Legenda: O maravilhoso mundo deste universo criativo que é também uma homenagem às memórias da nossa terra
Foto: Fotos: Jarbas de Oliveira/Imagem: Murilo Monteiro

Fotografias de apresentações dele e dos irmãos lotavam as paredes. Geladeira, fogão e cadeiras passaram a dividir o espaço dos cômodos com dezenas de objetos históricos do grupo formado ainda no século XIX ― todos os integrantes descendentes do índio Kariri José Lourenço da Silva (o Aniceto) e de Maria da Conceição.

Com a voz deteriorada desde que sofreu um AVC, seu Raimundo Aniceto tentou me ensinar a tocar pífano, como fez aos seus descendentes que agora levam o grupo.

“A gente quer continuar como meu pai deixou. É se acabando um, e nós botando outro pra não se acabar a tradição”, dizia. O motivo? “Meu pai me ensinou como era a cultura. A cultura é coisa séria. É onde está nossa vida.”

A exposição “Legado dos Mestres” ficará aberta nas noites de sábado e manhãs de domingo até outubro, na Estação das Artes
Legenda: A exposição “Legado dos Mestres” ficará aberta nas noites de sábado e manhãs de domingo até outubro, na Estação das Artes
Foto: Fotos: Jarbas de Oliveira/Imagem: Murilo Monteiro

Raimundo morreu durante a pandemia, depois de 80 anos dedicados à cultura. Neste período, viajou pelo Brasil e pelo exterior para mostrar a tradição dos seus. Mas nunca se afastou do seu rincão, o Crato. “Tudo lá é muito bonito, mas eu prefiro o bairro Batateira, onde a gente mora”, disse após voltar de uma turnê à Europa. Ele se foi.

Há outros mestres com suas casas abertas na região do Cariri e que você pode conhecer também na exposição da Estação. O Mestre Françuli, por exemplo, expõe seus aviões em Potengi. Desde criança, ele dizia ao pai que deixaria uma história na cidade. E conseguiu, construindo pequenos aviões com madeira de embiratanha, dessas que se corta até com as unhas, embaixo de um pé de Juá.

Há outros mestres com suas casas abertas na região do Cariri e que você pode conhecer também na exposição da Estação. O Mestre Françuli, por exemplo, expõe seus aviões em Potengi
Legenda: Há outros mestres com suas casas abertas na região do Cariri e que você pode conhecer também na exposição da Estação. O Mestre Françuli, por exemplo, expõe seus aviões em Potengi
Foto: Fotos: Jarbas de Oliveira/Imagem: Murilo Monteiro

No domingo passado, a Mestra Mariinha, do grupo Pastoril Mariinha da Ló, se movia com a dificuldade imposta pela idade entre os enormes painéis com fotografias na Estação das Artes. Mestres como ela estão com suas tradições expostas ao redor da antiga linha de trem. A visita é como conhecer ― e sentir ― a nossa própria história. 



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