Simião, o homem das miniaturas, constrói memórias do trem no Ceará

Simião transformou a casa onde mora no José Walter num castelo vivo para a memória das ferrovias cearenses. A arte com miniaturas que o salvou do alcoolismo chega ao museu

Matéria por  Beatriz Jucá
25 de Janeiro de 2023 - 13:00
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Antônio José Simião, o homem das miniaturas, não quer deixar que parte de sua história desapareça. Por isso dedica horas e horas na casa onde mora no Conjunto José Walter, em Fortaleza, a fabricar pequenos vagões, locomotivas, galpões e até mesmo réplicas dos companheiros da vida de ferroviário que leva há décadas. A história dele é também a história do trem no Ceará. “Meu trabalho é conservar esta memória, deixar o mais real possível”, ele diz, depois de ver ferrovias serem desabilitadas e galpões serem fechados ao longo dos anos.

É que o homem das miniaturas tem ferrugem correndo nas veias. Mas talvez nem isso possa explicar seu encantamento infantil com a Maria Fumaça desde os tempos em que deixava tampinhas de refrigerante sobre os trilhos que cortavam o bairro do Mucuripe para que o trem as amassasse.

Com elas, fazia os corrupios. Era só fazer dois pequenos furos no metal prensado e passar uma linha que o “brinquedo” estava pronto. Fabricada com a boa ajuda do velho trem, as crianças giravam a estrutura cortando a linha dos demais corrupios e revelando o vencedor na brincadeira do bairro. A paixão por locomotivas e vagões já levava o menino a fazer, ele próprio, seus trenzinhos de lata naqueles tempos. 

“O tempo passou, passou, e o trem pra mim continuou mágico”, diz Simião, aos 67 anos. Primeiro da família a se tornar ferroviário, ele ingressou na RFFSA (Rede Ferroviária Federal S/A) em 1983, sendo metalúrgico na Oficina Demósthenes Rockert. Nem mesmo a aposentadoria por tempo de serviço foi capaz de afastá-lo do ofício: Simião segue atuando na manutenção da caldeiraria na oficina, que hoje faz parte da Transnordestina. 

Antônio José Simião é ferroviário e artista metalúrgico
Legenda: Antônio José Simião é ferroviário e artista metalúrgico
Foto: Camila de Almeida/Estúdio Voa

“A família ferroviária é muito unida e aquilo me prendeu muito. Eu me vi tão envolvido que não conseguia mais tirar o trem da minha cabeça”, diz ele, que acabou incentivando quatro de seus 11 filhos a atuarem com a ferrovia.

“Paixão é uma coisa que não tem explicação, mas não sei viver longe disso”, reflete Simião, que além de tudo se sente salvo pelo trem num momento complicado com o alcoolismo. Ao ver o pai falecer depois de ter problemas com o álcool e seu círculo mais próximo enveredar por este mesmo caminho, sentiu que precisava parar de beber e se distanciar.

Mudou de bairro e decidiu se recolher mais em casa para superar o vício. Hoje brinca que foi assim que encontrou outro: o de fabricar miniaturas de trens e ferrovias. Não demorou para começar a encher os cômodos com as maquetes: do quarto à sala. “Quando vi, minha cama já estava na cozinha”, ri. “A paixão pelo trem se juntou a um novo vício e ficou sem freio”.

Não demorou para começar a encher os cômodos com as maquetes: do quarto à sala
Legenda: Não demorou para começar a encher os cômodos com as maquetes: do quarto à sala
Foto: Estúdio Voa

Pediu então de volta uma parte da casa que havia sublocado e ampliou o espaço para sua produção. Começou a atrair admiradores, que lhe faziam encomendas de miniaturas, mas que muitas vezes ele não conseguia desapegar. Foi assim que sua própria casa virou uma espécie de museu vivo das ferrovias cearenses em pleno José Walter.

Simião olha para a própria história e não titubeia em dizer: “sou um artista metalúrgico”. E uma de suas obras — uma maquete de cinco metros que retrata as Oficinas de Manutenção da Transnordestina, conhecidas pelos fortalezenses como “Oficinas do Urubu”, na Francisco Sá— está chegando mesmo ao museu.

Simião olha para a própria história e não titubeia em dizer: “sou um artista metalúrgico”
Legenda: Simião olha para a própria história e não titubeia em dizer: “sou um artista metalúrgico”
Foto: Estúdio Voa

Estará exposta a partir desta quarta no Complexo Cultural Estação das Artes enquanto o Museu Ferroviário, que também funcionará no local, ainda ganha forma. A visitação seguirá aberta ao público de quinta a domingo, de 9h às 13h.

“Estou realizado de poder mostrar meu trabalho, que faço com todo meu coração, nesta exposição”, conta Simião, que representou as Oficinas do Urubu com detalhes, num tamanho mais de 80 vezes menor que o original. 

Uma paixão reproduzida pelos trilhos mágicos do trem a brilhar
Legenda: Uma paixão reproduzida pelos trilhos mágicos do trem a brilhar
Foto: Estúdio Voa

Na arte ele, parte da memória está nos coqueiros reproduzidos em número exatamente igual e até nos próprios companheiros de trabalho em situação pitoresca. Uma paixão reproduzida pelos trilhos mágicos do trem a brilhar ali onde funcionou um dia a Estação João Felipe, uma das mais antigas do Ceará.



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