A chuva é sempre um acontecimento em Fortaleza

Celebramos a chuva com bom humor porque somos marcados pela seca. Por isso, sacamos câmeras e usamos moletons para saudá-la

Matéria por  Beatriz Jucá
28 de Fevereiro de 2024 - 14:00
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Quando o tempo fica bonito para chover e a água começa a pingar do céu, o bom fortalezense saca o celular do bolso e logo aciona a câmera, a postos para registrar um acontecimento. Pouco a pouco, as redes sociais vão se enchendo de memes. Celebramos a chuva com bom humor porque somos marcados pela seca, mas não ignoramos como a força das chuvas é capaz de desmascarar a desigualdade que toma nossas muitas fortalezas. Como não celebrar que os três maiores açudes do Ceará voltaram a ganhar volume neste mês?

Choveu? Tira o moletom do armário que é o tempo possível de usá-lo sem torrar no calor. Tempo bom para esticar a soneca e faltar aquela aula esperta. Totalmente perdoável. "Pessoal tem medo de se molhar em Fortaleza?", me pergunta um professor sudestino, sem entender como apenas três dos seus alunos compareceram à aula numa tarde chuvosa de fevereiro.

Corta cena e vamos para o calçadão da Beira-Mar, cartão postal de Fortaleza onde o caos impera e estacionar pode ser uma tarefa difícil. Pera, sobram vagas agora? Os esportistas e atletas que nunca param não estão? É fim de tarde de terça-feira e não está chovendo, mas o calçadão está deserto. Não há ambulantes jogando brinquedos supercoloridos para o alto. Procuro o vendedor de coco que costuma construir utensílios para facilitar a vida de quem curte comer a carninha do coco. Nada. Seu Josué também fechou a barraca. Nos quiosques maiores, um comerciante insiste para apresentar o cardápio em meio ao vazio incomum de gente.

Um ou outro turista passeia e aprecia o silêncio incomum que toma a orla depois de uma chuvinha. Do outro lado da avenida, de dentro de uma lanchonete, a vendedora diz: "Dia de chuva quem pode não sai de casa em Fortaleza. Quisera eu estar curtindo o friozinho numa hora dessas".

Chuva pode ser aconchego. Aos mais afortunados, pode ser um permisso para desacelerar, fechar a barraquinha de coco, vestir o moletom e ver algo na TV. Mas a chuva também desvela desigualdades e caos. Na minha rua, ela derrubou uma árvore que deixou vários edifícios sem energia. Vários bairros têm passado por isso. Mas há desabamentos e alagamentos por outras fortalezas.

Não quero perder a magia da chuva, que nos brinda com calmaria na orla mais caótica da cidade. Que a chuva nos dê esperança e nos abra os olhos para as muitas fortalezas que existem em Fortaleza. A chuva é sempre um acontecimento em Fortaleza.



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