Perdi a fé nas ruas do Meireles
O cenário é desolador e a instalação "Esperançar", de Narcélio Grud, foi destruída
Os muros intransponíveis. A segurança privada armada. A chance de ser atropelado por um importado zero quilômetro. Meireles. Desabitadas, a coisa mais parecida com calor humano nas ruas do bairro resume-se aos moradores que passeiam com os pets.
Anos atrás, escapando de um dejeto ou outro deixado pelos doguinhos, encontrei uma árvore que acabara de ser cortada. O tronco seco, triste de retorcido, sinalizava ausência de vida. Curiosamente, era possível ler "FÉ", talhada naqueles restos de madeira.
Até pensei em retornar com o celular e registrar a cena. Nunca rolou. Preguiça. Forçando um pouco a amizade, fotografar tudo é desespero. Procrastinei. Semanas depois passei por lá e o talho tinha sumido. Uma crosta (ou seria a regeneração da planta) apagou a palavra.
Por conta da pandemia deixei de ter notícias da planta morta. Terra de concreto, vidro e aço escovado. IDH semelhante a nações estribadas da Europa. O Meireles liderou na incidência da Covid-19 em Fortaleza. Foi bastante comum ambulâncias em frente aos prédios. Aquela luz vermelha melancólica, irradiando de longe.
Nos primeiros meses da pandemia, até panelaços contra o presidente aconteceram. Com o vírus avançando na periferia, os protestos silenciaram.
A imagem da árvore morta implorando por fé voltou à memória essa semana. O colega Rômulo Costa compartilhou imagem feita por André Lima. A informação é de que a instalação "Esperançar", de Narcélio Grud, foi destruída. Mal tinha completado uma semana de montada. O trabalho estava localizado na avenida Aldy Mentor, entre a Cidade 2000 e a Praia do Futuro.
Imagens da obra compartilhadas nas redes de Grud apresentam o material. Enxergamos três residências soterradas no chão. Se sobressaem apenas o teto e parte do telhado.
Sem qualquer autoridade, percebi que não sabemos se as casas lutam para retornar à superfície ou se estão em avançado processo de esquecimento. Desse duelo de percepções, eclode a total desesperança com o momento. São tempos extremamente perturbadores. Destruir, eliminar, são processos intermitentes e um vocabulário recorrentes nesse Brazil.
Como pode, fé resumir-se a morte. Algo no entanto sempre emerge para nos dar o toque. Tal quas as casas de Grud buscando sair do chão. Para nos lembrar dessa esperança.
Um exemplo é a banda cearense Diagnose. Nesse sábado (22), o grupo lançou DVD. "Desde 96 resistindo a tudo e a todos aí", conta o vocalista Matagato no teaser do lançamento.
Diagnose atravessou as décadas denunciando toda a escória e mazela de nossa desigual sociedade. Tá tudo nos discos e EPs "Desordem Capital" (1996), Organicamente (1998), "Promo do cd Colapso vermelho" (2001), Neurose XXI (2006), Fútil Rotina (2016). Em 1996, uma música do primeiro trampo já falava do atual momento. É o caso de "Nazionalismo Pra Que?".
Matagato (vocal) Dejane (baixo) Alisson (bateria) e Frank (guitarra) acabam de lançar "Cidade Objeto". A letra da faixa título é precisa.
"Cheiro podre. Olhares tristes. Cadáver exposto. Casas humildes. Cidadão-polícia. Edifícios nobres. Céu acizentado. Notícias de mortes. Cidade-objeto. O asfalto delimita o cinza do concreto."
O show foi registrado no Havana 1884. Importante clube da cena musical cearense que precisou encerrar as atividades por conta da pandemia.
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